A Violência na Vez do Voto: Quando o Mainstream Americano Abraça a Confrontação
Especialista em violência política alerta que a ameaça real aos próximos pleitos nos EUA vem da maioria que aceita a força como solução

Nos últimos meses, as manchetes americanas têm sido dominadas por protestos nas capitais, confrontos armados nas ruas e um discurso cada vez mais incendiário sobre a necessidade de "tomar medidas radicais" para defender ideais políticos. Essa atmosfera, alimentada por redes sociais e por narrativas de "defesa da pátria", tem gerado temores sobre a segurança dos próximos pleitos de meio de mandato (midterms). No entanto, a ameaça não está nas extremistas isolados que costumam ser foco de cobertura midiática; segundo Robert A. Pape, professor de ciência política da Universidade de Chicago e autoridade mundial em violência política, a maior vulnerabilidade provém da própria maioria dos americanos que, em algum grau, aceita a violência como resposta legítima a descontentamentos.
Para compreender a dimensão desse fenômeno, é preciso revisitar a trajetória histórica da violência política nos Estados Unidos. Desde a Guerra Civil até os movimentos dos direitos civis, episódios de violência foram, em sua maioria, liderados por grupos marginalizados ou por autoridades estatais. Nos últimos vinte anos, porém, a violência tem se democratizado, como aponta Pape, que em seu estudo "The Logic of Political Violence" demonstra que a percepção de eficácia da violência cresce quando a população acredita que os canais institucionais estão falhando. Dados do Pew Research de 2023 mostram que 42% dos eleitores americanos consideram "aceitável" o uso de força física para impedir políticas que consideram prejudiciais, um número que dobrou em comparação com 2010.
O fator desencadeador dessa mudança é a erosão da confiança nas instituições. Segundo o Índice de Confiança nas Instituições (ICI) de 2022, apenas 24% dos americanos confiam no Congresso, enquanto 31% desconfiam do sistema judiciário. Esse vácuo de confiança cria um terreno fértil para narrativas que glorificam a ação direta. Plataformas como Parler, Gab e até grupos dentro do mainstream do Facebook têm amplificado mensagens que associam a violência a um dever cívico, especialmente em comunidades que se sentem marginalizadas economicamente.
Do ponto de vista técnico, a propagação dessas ideias se apoia em algoritmos de recomendação que priorizam conteúdo polarizador por gerar maior engajamento. Estudos da Universidade de Stanford revelam que posts contendo chamadas à violência são compartilhados 3,7 vezes mais que conteúdo neutro. O efeito de "câmara de eco" intensifica a percepção de que a violência é não só aceitável, mas necessária, ao validar crenças pré-existentes.
O cenário não se restringe ao discurso; já há evidências concretas de que a aceitação da violência está se traduzindo em ações reais. O FBI registrou um aumento de 58% em incidentes de “terrorismo doméstico” entre 2020 e 2022, com a maioria dos suspeitos sendo cidadãos que não se identificam com grupos extremistas reconhecidos. Um caso emblemático ocorreu em janeiro de 2024, quando um grupo de moradores de um subúrbio de Ohio invadiu um centro de votação local, alegando que o processo era fraudulento. O incidente gerou a suspensão da votação naquela localidade e mobilizou grupos nacionalistas a planejar ações semelhantes em outros estados.
A repercussão econômica desses episódios também é significativa. Cada interrupção de votação ou protesto violento gera custos diretos para a segurança pública – estimativas do Departamento de Segurança Interna (DHS) apontam gastos de US$ 1,2 bilhão apenas em 2023 com operação de contingência. Além disso, o clima de instabilidade afeta investimentos estrangeiros; o Índice de Percepção de Risco País (IPRC) da Moody's subiu 0,4 pontos após os episódios de violência em cidades como Minneapolis e Phoenix, indicando maior aversão dos investidores ao risco político nos EUA.
No contexto latino-americano, o Brasil apresenta paralelos alarmantes. Apesar de diferenças culturais, pesquisas do Datafolha de setembro de 2024 revelam que 35% dos brasileiros consideram "justificável" o uso de força para impedir políticas que consideram nocivas, especialmente em questões de segurança pública e meio ambiente. O discurso de “defesa da nação” tem sido adotado por grupos como o Movimento Brasil Livre (MBL) e por facções de extrema-direita que se inspiram em narrativas norte‑americanas. A crescente aceitação da violência na esfera pública brasileira pode ser vista como reflexo de uma crise de representatividade que, assim como nos EUA, tem raízes em desconfiança institucional.
Especialistas em segurança pública, como a professora Maria das Graças de Oliveira, da Universidade de São Paulo, alertam que a transposição de estratégias de mobilização digital norte‑americana para o Brasil pode acelerar processos de radicalização. Ela aponta que o uso de aplicativos de mensagens instantâneas, como o Telegram, tem permitido a criação de redes descentralizadas que compartilham instruções sobre como organizar protestos violentos, similar ao que ocorreu nos Estados Unidos com o grupo "Patriots".
Para mitigar essa tendência, Pape recomenda três linhas de ação: (1) reforçar a confiança nas instituições por meio de transparência e accountability, (2) regular algoritmos de recomendação para reduzir a amplificação de conteúdo violento e (3) investir em programas de educação cívica que enfatizem a resolução pacífica de conflitos. Nos EUA, algumas cidades como Seattle já iniciaram projetos piloto de "cidadania digital", onde cidadãos recebem treinamento em mediação de conflitos e em uso responsável das redes sociais.
No Brasil, iniciativas semelhantes podem ser adaptadas ao contexto local. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) poderia criar diretrizes para plataformas digitais que operam no país, exigindo relatórios de transparência sobre a disseminação de discurso de ódio. Além disso, programas de alfabetização midiática nas escolas públicas poderiam equipar jovens com ferramentas críticas para identificar manipulação de informação.
A perspectiva geopolítica também merece atenção. A influência da retórica violenta americana tem repercussões nas políticas externas dos EUA, que frequentemente exportam modelos de segurança interna a aliados latino‑americanos. Essa exportação pode gerar um ciclo de militarização da segurança pública na região, como já observado nas parcerias de treinamento entre o Departamento de Defesa dos EUA e forças policiais brasileiras.
Em suma, a análise de Robert A. Pape revela que a ameaça real às eleições de meio de mandato nos Estados Unidos reside não nas margens radicais, mas na aceitação crescente da violência por parte da maioria. Esse fenômeno, alimentado por desconfiança institucional, algoritmos de recomendação polarizadores e crises econômicas, tem implicações profundas para a estabilidade democrática, tanto nos EUA quanto na América Latina. Ao reconhecer a raiz do problema – a percepção de que a violência pode substituir o voto – sociedades podem redirecionar esforços para restaurar a confiança nas instituições, regular o ecossistema digital e fortalecer a educação cívica, evitando que a violência se torne a resposta padrão ao descontentamento político.
Fonte original
WIRED

