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Indústria

Ando Hazama lidera ranking de túneis de montanha no Japão por terceiro ano consecutivo

Obayashi ultrapassa Shimizu ao conquistar a segunda posição, refletindo mudanças estratégicas na engenharia de grandes obras civis

Nikkei xTECH

A indústria da construção civil no Japão acaba de revelar, por meio de um levantamento detalhado de receitas de 2025, uma nova ordem de força no nicho de túneis de montanha, um segmento que combina desafios geotécnicos extremos e demandas de mobilidade de alta performance. O estudo, que abrange 13 sub‑categorias de obras de infraestrutura e inclui até 25 empresas por ranking, colocou a Ando Hazama (安藤ハザマ) no topo da lista pelo terceiro ano consecutivo, consolidando sua reputação como especialista em projetos subterrâneos complexos.

A posição de liderança da Ando Hazama não é fruto de mera coincidência. Nos últimos cinco anos, a companhia tem investido pesado em tecnologias de perfuração de túnel (TBM – Tunnel Boring Machines) de última geração, além de aprimorar métodos de análise geotécnica em tempo real. Essa aposta rendeu contratos estratégicos, como a extensão da linha Hokuriku Shinkansen e o túnel ferroviário da região de Hokkaido, projetos que demandam precisão milimétrica e tolerâncias de segurança rigorosas. Segundo o diretor de engenharia da empresa, Hiroshi Sato, "a integração de sensores de pressão e de monitoramento de deformação nas máquinas de perfuração permite ajustes quase instantâneos, reduzindo o risco de colapsos e otimizando o ritmo de avanço em até 15%".

Enquanto isso, a Obayashi (大林組) conquistou a segunda colocação ao superar a Shimizu (清水建設) em taxa de crescimento de receitas. A virada de posição reflete uma estratégia agressiva de expansão internacional e diversificação de portfólio. A Obayashi tem liderado projetos de túnel no Sudeste Asiático, particularmente no Vietnã e nas Filipinas, onde o crescimento da demanda por corredores de transporte subterrâneo está acelerado. Essa exposição a mercados emergentes impulsionou a receita de seu segmento de túneis de montanha em 12,4% no último exercício, superando a taxa de crescimento de 8,9% da Shimizu.

A Shimizu, por sua vez, ainda mantém uma posição de destaque, porém viu sua taxa de crescimento desacelerar devido a atrasos em projetos domésticos, como o túnel de substituição da rota expressa Tōkai. A empresa tem focado, nos últimos meses, em iniciativas de sustentabilidade, investindo em técnicas de escavação com baixo consumo de energia e na reutilização de materiais de escavação. Embora essas práticas estejam alinhadas com as metas de descarbonização da indústria, seu retorno financeiro ainda é incipiente, o que explica a ligeira desclassificação no ranking.

O contexto macroeconômico japonês também desempenha papel crucial na dinâmica desses resultados. O país tem enfrentado pressões demográficas que demandam a renovação de infraestruturas de transporte, ao mesmo tempo em que busca reduzir a dependência de combustíveis fósseis. Túneis de montanha, ao permitir rotas mais diretas e menos expostas a condições climáticas adversas, são vistos como peças-chave para projetos de alta velocidade e para a integração de corredores logísticos entre portos e centros industriais. O governo japonês, por meio do Ministério de Terras, Infraestrutura, Transporte e Turismo (MLIT), tem canalizado cerca de US$ 30 bilhões em investimentos públicos para novas obras de túnel até 2030.

Do ponto de vista técnico, a corrida entre as três gigantes da construção tem impulsionado inovações que vão além das simples máquinas de perfuração. O uso de sistemas de inteligência artificial para prever zonas de risco geológico, a implementação de drones para inspeção de frentes de escavação e a aplicação de materiais compostos de alta resistência têm reduzido o tempo de obra em até 20% em alguns projetos. Essas tecnologias, inicialmente desenvolvidas por laboratórios de pesquisa universitária, agora são parte do portfólio padrão das grandes construtoras, que competem não apenas por preço, mas por capacidade de entrega de projetos mais seguros e sustentáveis.

A repercussão desse ranking no cenário internacional é notável, sobretudo para países da América Latina que enfrentam desafios semelhantes em termos de topografia e necessidade de ampliar sua malha ferroviária e rodoviária. No Brasil, por exemplo, o planejamento de túneis de montanha para a ferrovia Ferrogrão e para projetos de metrô em áreas de relevo acidentado pode se beneficiar da expertise japonesa. A Ando Hazama já possui joint ventures com empresas brasileiras, como a Odebrecht Infraestrutura, focadas em transferência de tecnologia e treinamento de equipes locais. Essa cooperação pode acelerar a adoção de práticas de monitoramento em tempo real e de automação de processos de escavação, reduzindo custos operacionais e riscos de acidentes.

Além do aspecto tecnológico, há implicações econômicas relevantes. As empresas que lideram o ranking são grandes empregadoras, gerando milhares de postos diretos e indiretos em todo o território nacional. O aumento de receitas no segmento de túneis de montanha também estimula o mercado de fornecedores de equipamentos, como fabricantes de TBMs, sensores de pressão e sistemas de ventilação. Segundo a Associação Japonesa de Empresas de Engenharia (JSEA), o segmento de túneis de montanha movimentou aproximadamente ¥ 1,8 trilhão (cerca de US$ 16,5 bilhões) em 2025, cifra que deve crescer nos próximos cinco anos em linha com os investimentos públicos anunciados.

No panorama geopolítico, a liderança da Ando Hazama e a ascensão da Obayashi sinalizam a consolidação do Japão como referência global em engenharia de túnel, um domínio que tradicionalmente era compartilhado com países europeus como Suíça e Alemanha. Essa expertise tem sido utilizada como ferramenta de soft power, com o Japão oferecendo consultoria e financiamento a projetos de infraestrutura em nações que buscam modernizar seu transporte subterrâneo. Esse movimento pode ser interpretado como parte da estratégia de ampliar a influência econômica japonesa na Ásia-Pacífico, competindo com a China, que também tem investido pesado em projetos de túnel, especialmente no Sudeste Asiático.

Para o Brasil e demais países latino‑americanos, a lição principal reside na necessidade de desenvolver capacidades locais que permitam a execução de obras de alta complexidade sem depender exclusivamente de importação de serviços. Programas de capacitação técnica, parcerias com universidades e a criação de centros de pesquisa em geotecnia e mineração são passos essenciais. A experiência japonesa mostra que a combinação de investimento em tecnologia, políticas públicas de apoio e visão estratégica de longo prazo resulta em competitividade sustentável.

Em síntese, o ranking de 2025 reforça a posição de liderança da Ando Hazama no segmento de túneis de montanha, enquanto a Obayashi demonstra que a expansão internacional e a diversificação podem reverter posições tradicionais, como a da Shimizu. O cenário futuro aponta para uma corrida tecnológica ainda mais acirrada, com a adoção de IA, automação e materiais avançados moldando a próxima década de construções subterrâneas. Para o Brasil, observar e adaptar essas práticas pode ser o caminho para acelerar projetos críticos de mobilidade e infraestrutura, reduzindo custos e ampliando a segurança das obras.

O futuro dos túneis de montanha no Japão parece estar ligado a uma maior integração entre inteligência de dados, sustentabilidade ambiental e políticas de investimento público. Caso essas tendências se consolidem, espera‑se que o ranking continue evoluindo, com novas empresas emergindo e os líderes atuais reforçando sua vantagem competitiva, criando, assim, um ecossistema de inovação que pode servir de modelo para outras regiões do mundo que enfrentam desafios geográficos semelhantes.

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Nikkei xTECH