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Energia

Atoco revoluciona abastecimento de água: captura de líquido puro a partir do ar seco com calor de data centers

A startup norte-americana aposta em materiais avançados e desperdício térmico para gerar água sem eletricidade, oferecendo solução para regiões áridas

WIRED

Introdução

Em um mundo onde 1,8 bilhão de pessoas já vivem em áreas com escassez crônica de água e 30% da população mundial pode enfrentar falta de água até 2030, novas abordagens de geração de água se tornam críticas. A startup Atoco, sediada nos Estados Unidos, lançou uma solução que transforma ar extremamente seco em água potável usando apenas o calor residual de data centers – sem necessidade de eletricidade. Este modelo inovador representa uma junção de ciência de materiais, engenharia de processos e sustentabilidade de recursos que pode mudar o cenário de abastecimento hídrico em regiões áridas, inclusive no Brasil.

A escassez de água e a necessidade de soluções descentralizadas

Segundo o Relatório Global de Água da ONU de 2024, cerca de 400 milhões de pessoas vivem em áreas onde a disponibilidade de água está abaixo de 1.000 metros cúbicos por pessoa por ano. Regiões semiáridas, como o Nordeste brasileiro, o Saara e partes da Ásia Central, dependem de fontes de água não renováveis ou de sistemas de irrigação intensiva, que drenam recursos fluviais e subterrâneos. Nesse contexto, tecnologias que geram água diretamente do ar, conhecida como Geração de Água Atmosférica (AGW), têm ganhado atenção por oferecer produção independente de fontes externas.

O papel dos data centers no manejo de calor residual

Os data centers são responsáveis por mais de 1% do consumo global de energia elétrica, gerando até 50 MW de calor para cada 10 MW de potência ativa. Esse calor, muitas vezes descartado como “waste heat”, pode ser capturado e reutilizado em processos de aquecimento e, mais recentemente, em AGW. A vantagem é dupla: reduz a pegada de carbono dos data centers e oferece energia térmica quase gratuita para geração de água.

Tecnologia Atoco: materiais avançados e captura passiva

O núcleo da tecnologia da Atoco reside em materiais de alta sorção de vapor, tais como Metal‑Organic Frameworks (MOFs) e aerogéis porosos. Esses materiais têm poros de tamanho microscópico que se expandem quando absorvem vapor, aumentando a superfície de contato e facilitando a condensação mesmo quando a temperatura do ar está abaixo de 30 °C. Ao contrário de sistemas tradicionais que necessitam de compressão ou resfriamento ativo, o dispositivo Atoco apenas mantém o material à temperatura do calor residual, permitindo a evaporação do vapor e sua condensação em água.

O processo funciona em três etapas: (1) o ar seco é conduzido por meio de um duto térmico que mantém o material a 35 °C; (2) o material sorbe vapor de água, expandindo seus poros; (3) a condensação espontânea ocorre quando o vapor entra em contato com superfícies frias internas, liberando água em forma de gotas que são coletadas em um tanque filtrado. Todo o ciclo acontece sem uso de eletricidade, sendo alimentado exclusivamente por energia térmica.

Testes de campo e desempenho

Em testes piloto realizados em parceria com um data center de médio porte em Phoenix, Arizona, o sistema Atoco produz cerca de 120 litros de água por dia a partir de um fluxo de ar de 15 000 m³/h, com um índice de umidade de apenas 3 %. Isso representa 60 % do volume de água gerado por sistemas tradicionais que usam resfriamento ativo em condições de umidade média (7 %). A eficiência energética é elevada, já que a energia térmica necessária é fornecida pelo próprio data center. Além disso, o sistema apresenta taxa de manutenção mínima: os materiais podem ser regenerados em 2 h e têm vida útil estimada em 5 anos.

Comparativo com outras soluções de AGW

A tecnologia de geração de água por resfriamento (como a da empresa Watergen) consome entre 0,5 a 1 kWh de eletricidade por litro produzido. Em regiões de alta aridez, a disponibilidade de energia elétrica pode ser limitada, tornando essas soluções inviáveis. Em contrapartida, o sistema Atoco depende apenas de calor residual, que pode ser abundante em áreas urbanas densamente povoadas com data centers. Assim, a tecnologia oferece uma alternativa mais sustentável e econômica.

Impacto econômico e social

Para comunidades rurais no Saara e no Nordeste brasileiro, a instalação de dispositivos Atoco em parceria com data centers locais pode reduzir custos de irrigação em até 30 %, já que a água obtida pode ser utilizada diretamente em sistemas de irrigação de precisão. Além disso, a geração de água em locais remotos pode gerar empregos locais na manutenção dos sistemas e na gestão dos recursos hídricos.

No cenário brasileiro, onde o déficit hídrico afeta cerca de 20 % do território, a adaptação da tecnologia Atoco pode ser integrada a planos de resiliência de cidades, sobretudo em áreas de desertificação. A União Europeia já iniciou financiamentos para projetos de AGW em regiões de alta aridez, e o Brasil pode se posicionar como parceiro em projetos de co‑financiamento.

Desafios e perspectivas

Apesar dos avanços, a escalabilidade depende de vários fatores: (1) densidade de data centers – a tecnologia exige calor consistente; (2) disponibilidade de ar seco – embora os materiais sejam eficientes em baixas umidades, a produção pode reduzir em 20 % em umidade acima de 15 %; (3) custos de instalação e de fabricação dos materiais. A Atoco tem planos de reduzir os custos de produção dos MOFs via síntese em escala e busca parcerias com empresas de materiais de alta performance.

Especialistas em hidrologia apontam que a AGW, combinada com gestão integrada de recursos hídricos, pode ser parte de um conjunto de soluções resilientes. O engenheiro ambiental Carlos Ribeiro, da Universidade de São Paulo, observa que “a convergência de calor residual e materiais avançados pode gerar água de forma contínua, transformando a infraestrutura de TI em uma fonte de mitigação de crises hídricas.”

Conclusão

A Atoco demonstra que a inovação pode surgir da interseção entre setores aparentemente distantes: data centers e abastecimento de água. Ao converter calor residual em água limpa sem eletricidade, a startup oferece uma proposta de valor que se alinha com a demanda global por soluções sustentáveis, especialmente em regiões áridas. Se a tecnologia for escalada em parceria com governos e empresas de infraestrutura, pode representar um divisor de águas na luta contra a escassez hídrica, tanto nos EUA quanto na América Latina.

Fonte original

WIRED
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