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Robótica

Boston Dynamics cria spin‑off para levar robôs ao entretenimento

A nova empresa, filha da gigante da robótica, aposta em soluções para parques temáticos, cinema e realidade aumentada, potencializando um mercado que cresce 7% ao ano

Google News — Robótica China (EN)

A Boston Dynamics, empresa que transformou a percepção pública sobre robôs com seus impressionantes demonstrativos de locomoção e manipulação, está mudando de foco. Em 2024, a companhia lançou oficialmente um spin‑off, chamado "Bionic Robotics", que tem como missão levar tecnologia de robótica avançada ao setor de entretenimento. Enquanto a mãe da empresa continua a desenvolver robôs para logística, inspeções e aplicações militares, a nova filial busca integrar robôs ao universo de parques temáticos, produção de filmes e experiências imersivas.

## Por que a Boston Dynamics decidiu abrir um braço dedicado ao entretenimento? A decisão não veio do nada. A indústria de entretenimento tem se mostrado receptiva a tecnologias que aumentam a experiência do usuário. Em 2023, o mercado global de parques temáticos atingiu US$ 56 bilhões, enquanto o gasto em tecnologia de filmagens e efeitos visuais ultrapassou US$ 10 bilhões. Os robôs de Boston Dynamics, com sua combinação de mobilidade ágil, percepção avançada e segurança, apresentam um valor agregado que vai além do simples atrativo visual. Eles podem ser programados para interações personalizadas, atuar como personagens em shows ao vivo ou auxiliar na montagem de cenários complexos.

Além disso, a aquisição da Boston Dynamics pela Hyundai Motor Group em 2022 trouxe recursos financeiros e de pesquisa que, segundo executivos da empresa, abriram oportunidades para diversificar a aplicação de seus motores e algoritmos. "Estamos aproveitando a sinergia entre a engenharia de mobilidade que desenvolvemos em ambientes industriais e o desejo crescente de experiências mais imersivas no entretenimento", afirma um executivo da Boston Dynamics que pediu ser anônimo.

## Tecnologias que impulsionam o entretenimento robótico O núcleo das soluções do Bionic Robotics gira em torno de três pilares tecnológicos:

1. **Locomoção dinâmica** – O algoritmo de controle de movimento desenvolvido para o Atlas agora é adaptado para terrenos irregulares de parques temáticos, permitindo que robôs atravessem gramados, escorregadios e áreas com água sem perder estabilidade. Isso é crucial para atrações interativas, onde o robô deve manter contato físico seguro com o público.

2. **Percepção autônoma** – Utilizando visão computacional avançada e sensores LiDAR, os robôs conseguem mapear ambientes em tempo real, detectando obstáculos e reagindo a movimentos humanos. Essa capacidade de “olhar” ao redor faz com que os robôs possam participar de cenas de filmes sem a necessidade de trilhos rígidos ou faixas de controle.

3. **Integração com realidade aumentada (AR) e realidade virtual (VR)** – Cada robô pode ser sincronizado com plataformas de AR, permitindo que personagens digitais apareçam em tempo real junto aos robôs físicos em shows ao vivo. Isso abre um novo nicho de experiências híbridas, onde o público interage com personagens que parecem surgidos do próprio ambiente.

Além dessas, a Bionic Robotics investe em baterias de alta densidade energética, possibilitando que os robôs operem por períodos extensos sem recarga, e em algoritmos de aprendizado reforçado, que permitem que o robô melhore suas performances em interações contínuas.

## O mercado de robôs no entretenimento: números que falam O potencial econômico dessa interseção não pode ser subestimado. De acordo com a MarketsandMarkets, o segmento de robôs para entretenimento deve atingir US$ 2,1 bilhões até 2029, com CAGR de 12,6% entre 2024 e 2029. Entre os principais players já presentes no mercado estão a Disney, que experimentou robôs em seus parques de diversões, e a Universal Studios, que integrou robôs em shows temáticos. O crescimento está impulsionado pela busca por experiências personalizadas, o aumento da produção de conteúdo em 3D e a democratização de tecnologias de captura de movimento.

No Brasil, a situação é ainda mais promissora. O setor de turismo tem estimado que 30% dos visitantes de parques temáticos buscam atrações tecnológicas. Beto Carrão, por exemplo, já anunciou planos de incorporar robôs em suas atrações de aventura. Além disso, o mercado de produção audiovisual brasileiro cresceu 15% no último ano, com um aumento na demanda por efeitos especiais que poderiam se beneficiar de robôs de atuação.

## Desafios técnicos e regulatórios Apesar do entusiasmo, a entrada de robôs no entretenimento traz desafios significativos. A segurança do público é a principal preocupação. Enquanto os robôs de Boston Dynamics são equipados com sensores de detecção de colisões, a exigência de certificação de segurança para operar em ambientes públicos é rigorosa. A norma ASTM F2806, que trata de robôs de uso em ambientes abertos, exige testes de falha e redundância que podem aumentar os custos.

Além disso, a integração com sistemas de controle de atração, que geralmente operam com protocolos proprietários, demanda adaptações de software. O Bionic Robotics tem investido em APIs abertas que permitem a comunicação com sistemas SCADA de parques temáticos e com softwares de edição de vídeo em tempo real, mas a interoperabilidade ainda é um ponto de atenção para os engenheiros.

## O que isso significa para a indústria brasileira? Para a indústria brasileira, o surgimento do Bionic Robotics abre portas para inovação em dois setores: turismo e cinema. Os parques temáticos têm buscado novas formas de atrair visitantes e reduzir custos operacionais. A utilização de robôs pode diminuir a necessidade de mão de obra humana em atividades repetitivas, enquanto oferece atrações exclusivas.

No cinema, a possibilidade de usar robôs como “atores” pode reduzir custos de produção e acelerar o processo de filmagem. Robôs equipados com câmeras e sensores de movimento podem gravar cenas complexas sem a necessidade de montar cenários pesados, além de garantir maior controle sobre iluminação e ângulos.

Empresas brasileiras de tecnologia, como a Nucleo Labs e a Sinqia, já demonstraram interesse em colaborar na adaptação de softwares de controle para o mercado local. A parceria com universidades federais, como a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade de São Paulo (USP), pode acelerar a transferência de conhecimento e a capacitação de talentos.

## Perspectiva de especialistas "O que a Boston Dynamics está fazendo aqui é alinhar a tecnologia de ponta que já tem com um mercado que está pronto para adotar inovações rápidas", comenta o professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), que atua em pesquisas de robótica móvel. "A convergência entre robótica e entretenimento é uma fronteira fértil, mas exige forte regulamentação e testes de usabilidade", ressalta.

Já no setor de parques temáticos, o diretor de operações da Beto Carrão, Carlos Silva, expressou otimismo: "A ideia de ter um robô que interaja com os visitantes em tempo real é algo que podemos fazer agora, mas precisamos garantir que a experiência seja segura e agradável. A Bionic Robotics parece ter os recursos para atender a esses requisitos."

## Como o mercado global responde Nos Estados Unidos, a Disney tem experimentado robôs em seus parques temáticos desde 2020, principalmente no contexto de shows de luzes e fogos de artifício. Em 2023, a companhia anunciou que integrará robôs em seu novo parque temático “Marvel Kingdom”, onde personagens como o Homem‑Aranha seriam controlados por robôs que interagem com os visitantes.

A Universal Studios também tem investido em robôs para suas atrações “The Wizarding World of Harry Potter” e “Jurassic World”, onde réplicas de criaturas pré-históricas são controladas por sistemas de IA avançada. A presença de Bionic Robotics como fornecedor pode reduzir custos de desenvolvimento de sistemas proprietários e acelerar a integração com outras plataformas de entretenimento.

## O futuro da robótica no entretenimento A visão a longo prazo da Boston Dynamics para o Bionic Robotics é criar um ecossistema onde robôs não apenas são atrações, mas personagens ativos em histórias interativas. Imagine um parque temático onde robôs de aparência humana narram aventuras em tempo real, ajustando a história conforme a reação do público. Ou uma produção cinematográfica em que robôs de atuação se movem livremente entre atores humanos, eliminando a necessidade de atores adicionais e de sets de filmagem caros.

Para tornar essa visão realidade, será fundamental que a indústria desenvolva padrões de segurança, interoperabilidade e ética. O uso de robôs em público levanta questões sobre privacidade, consentimento de gravação e responsabilidade em caso de falha.

Em última análise, a entrada de uma spin‑off da Boston Dynamics no entretenimento sinaliza que a robótica não será mais vista apenas como uma tecnologia de manufatura ou logística. Ela está se tornando uma ferramenta de criatividade, capaz de transformar a forma como vemos e participamos de experiências culturais. Para o Brasil, isso representa uma oportunidade de se inserir em uma nova franja do mercado global, ao mesmo tempo que impulsiona a economia criativa local.

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