GostarTech
PublicidadePublicidadePublicidade
Publicidade
Inteligência Artificial

Bridge Neurotech lança interface cérebro-computador por ultrassom para desafiar a Merge Labs de Sam Altman

Startup americana aposta em tecnologia vestível de ultrassom para criar BCI não invasiva, prometendo maior resolução e segurança que eletroencefalografia tradicional

WIRED

A corrida por interfaces cérebro‑computador (BCI) está se intensificando ao redor do globo, impulsionada por avanços em inteligência artificial, sensores biomédicos e a crescente demanda por tecnologias que ampliem a capacidade humana. No epicentro desse movimento, a recém‑criada Bridge Neurotech, sediada nos Estados Unidos, anunciou um projeto ambicioso: desenvolver um dispositivo vestível que emprega ultrassom para captar e modular sinais neurais. O objetivo declarado é rivalizar com a Merge Labs, iniciativa liderada por Sam Altman, co‑fundador da OpenAI, que tem investido em abordagens invasivas e semi‑invasivas de BCI. A escolha do ultrassom como meio de comunicação com o cérebro coloca a Bridge Neurotech em uma posição única, pois promete combinar a não invasividade de um capacete EEG tradicional com a resolução espacial típica de técnicas invasivas, como eletrodos implantados.

Historicamente, as BCIs não invasivas baseiam‑se principalmente em eletroencefalografia (EEG), que mede variações de potencial elétrico através do couro cabeludo. Embora o EEG seja seguro e relativamente barato, sua capacidade de localizar com precisão a origem dos sinais é limitada, resultando em resolução espacial de alguns centímetros. O ultrassom, por outro lado, pode focalizar ondas acústicas em regiões específicas do cérebro com precisão de milímetros, permitindo não só a leitura, mas também a estimulação focalizada de neurônios. Pesquisas de instituições como o MIT e a Universidade de Washington já demonstraram que a estimulação ultrassônica pode modular a atividade cortical sem necessidade de cirurgia. A Bridge Neurotech pretende transformar esses experimentos de laboratório em um dispositivo comercial, integrando transdutores ultrassônicos miniaturizados em um elástico que se ajusta à cabeça, conectado a um módulo de processamento alimentado por IA para decodificar os padrões neurais em tempo real.

Do ponto de vista de mercado, o segmento de neurotecnologia está projetado para ultrapassar US$ 20 bilhões até 2030, segundo relatório da Grand View Research. O crescimento é alimentado por investimentos de fundos de risco – nos últimos dois anos, mais de US$ 1,5 bilhão foi direcionado a startups de BCI – e por parcerias estratégicas com gigantes da tecnologia que veem nas BCIs um caminho para interfaces mais naturais com realidade aumentada, jogos imersivos e soluções de reabilitação. A Bridge Neurotech, ao focar em um hardware vestível, posiciona‑se em um nicho que ainda carece de um produto pronto para o consumidor, enquanto a Merge Labs aposta em implantes que demandam processos cirúrgicos complexos e aprovação regulatória mais rigorosa. Essa diferenciação pode acelerar a adoção precoce, sobretudo em setores como fisioterapia neurológica, onde a capacidade de monitorar e estimular áreas afetadas por AVC ou lesão medular pode reduzir tempo de recuperação.

Entretanto, transformar a teoria do ultrassom em um produto viável traz desafios técnicos substanciais. Primeiro, a geração de ondas ultrassônicas suficientemente intensas para penetrar o crânio requer energia que, em um dispositivo portátil, deve ser balanceada com considerações de bateria e aquecimento. O risco de danos térmicos ao tecido cerebral impõe limites rígidos ao duty cycle das transmissões. Em segundo lugar, a interpretação dos sinais refletidos – um processo análogo ao ultrassom diagnóstico, mas aplicado ao tecido neural – demanda algoritmos avançados de aprendizado de máquina capazes de filtrar ruídos e adaptar-se a variações individuais de anatomia craniana. A Bridge Neurotech declara que está integrando redes neurais treinadas em grandes bases de dados de ressonâncias magnéticas e gravações de eletrofisiologia, o que, se bem sucedido, poderia criar um modelo personalizado de cada usuário, aumentando a taxa de acurácia de leitura para acima de 90% em tarefas motoras simples.

Além dos obstáculos tecnológicos, há um panorama regulatório que pode definir o ritmo de lançamento. Nos EUA, a Food and Drug Administration (FDA) classifica dispositivos de neuromodulação como de Classe III, exigindo estudos clínicos extensivos para comprovar segurança e eficácia. A Bridge Neurotech afirma que iniciará ensaios de fase I com voluntários saudáveis ainda este ano, focando em protocolos de curto prazo que monitoram alterações de atividade cerebral sem induzir efeitos adversos. Caso os resultados iniciais sejam positivos, a empresa poderá buscar a designação de Breakthrough Device, que acelera a revisão regulatória. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) ainda está desenvolvendo diretrizes específicas para BCIs, mas já sinalizou interesse em estimular pesquisas que utilizem tecnologias não invasivas, o que pode criar um ambiente favorável para parcerias entre a startup e instituições acadêmicas brasileiras.

A perspectiva latino‑americana, em especial a brasileira, apresenta tanto oportunidades quanto obstáculos. O país dispõe de centros de pesquisa avançada em neurociência, como o Instituto de Neurosciências da USP e o Laboratório de Neuroengenharia da Unicamp, que já conduzem projetos de interface neural usando eletrodos flexíveis. Uma colaboração com a Bridge Neurotech poderia alavancar esses esforços, combinando a expertise local em protocolos clínicos com a tecnologia de ultrassom desenvolvida nos EUA. Por outro lado, a falta de financiamento privado em escala comparável à de Silicon Valley pode limitar a velocidade de adoção. No entanto, programas de incentivo à inovação, como o Lei do Bem e o Programa de Apoio à Pesquisa em Tecnologia de Saúde (PAPTS), podem oferecer linhas de crédito e isenção fiscal para startups que pretendam comercializar dispositivos de BCI no território nacional.

Do ponto de vista econômico, a materialização de um BCI vestível poderia criar novos mercados de consumo, similares ao que ocorreu com os wearables de fitness nos últimos dez anos. A integração de sensores ultrassônicos com smartphones e plataformas de IA abriria possibilidades de aplicativos que traduzem pensamentos em texto ou comandos de voz, melhorando a qualidade de vida de pessoas com deficiência motora. Além disso, a capacidade de coletar dados neurais em larga escala poderia alimentar modelos de IA mais sofisticados, impulsionando setores como publicidade neuromarketing e design de interfaces humano‑computador. Entretanto, a coleta massiva de dados cerebrais levanta questões de privacidade e propriedade intelectual que ainda não foram totalmente endereçadas por legislações atuais, exigindo um debate público e normativo antes da popularização do dispositivo.

Em síntese, a Bridge Neurotech surge como um ponto de inflexão na corrida pelas BCIs não invasivas, propondo uma solução baseada em ultrassom que promete superar as limitações do EEG tradicional ao mesmo tempo em que evita os riscos de intervenções cirúrgicas. Seu sucesso dependerá de conquistas técnicas – especialmente no controle térmico e na interpretação de sinais – e da habilidade de navegar por um complexo cenário regulatório. Caso consiga validar sua tecnologia, a empresa não só abrirá caminho para aplicações médicas avançadas, mas também criará um novo segmento de dispositivos de consumo que conectam a mente ao mundo digital. No Brasil, a oportunidade de cooperação científica e industrial pode acelerar a difusão dessa inovação, colocando a América Latina como um player relevante na nova economia neurotecnológica. O futuro, portanto, aponta para uma integração cada vez maior entre IA, neurociência e design de hardware, onde o cérebro humano deixa de ser apenas o ponto de partida para uma experiência interativa totalmente imersiva.

Fonte original

WIRED