GostarTech
PublicidadePublicidadePublicidade
Publicidade
Computação

Exame NESP: o último desafio para engenheiros de rede no Japão e o que isso revela para o mercado brasileiro

Com quatro tecnologias recorrentes no teste, profissionais de TI precisam dominar conceitos como IPv6, SD‑WAN, BGP e segurança de camada 2 para se manterem competitivos

Nikkei xTECH

A corrida contra o relógio começou para milhares de engenheiros de rede no Japão. O último exame NESP (Network Engineer Specialist Program) será realizado ainda neste trimestre, e sua edição final tem gerado ansiedade e expectativa não apenas entre os candidatos, mas também entre empregadores que veem a certificação como um selo de competência técnica. O que torna esse teste tão relevante não é apenas o seu caráter de despedida – já que o órgão regulador anunciou que não haverá nova edição – mas a escolha estratégica dos quatro temas que mais frequentemente aparecem nas questões: IPv6, SD‑WAN, protocolos de roteamento BGP/OSPF e segurança de camada 2. Cada um desses tópicos reflete tendências globais que já estão remodelando infraestruturas de rede na América Latina, e entender seu peso é essencial para quem pretende se destacar no mercado brasileiro.

Historicamente, o NESP foi criado em 2005 pelo Ministério da Economia, Comércio e Indústria (METI) em parceria com grandes fabricantes como Cisco e Juniper, com o objetivo de padronizar o nível de conhecimento dos profissionais que atuam em provedores de internet e operadoras de telecom. Nos últimos dez anos, a taxa de aprovação caiu de 68% para 42%, indicando que o exame evoluiu para testar competências avançadas, alinhadas às demandas de redes definidas por software (SDN) e à transição massiva para o IPv6. Dados da Associação Japonesa de Engenharia de Redes (JNEA) mostram que, entre 2018 e 2023, 57% dos profissionais certificados relataram aumento salarial médio de 15%, enquanto 23% foram promovidos a cargos de arquitetura de rede.

O primeiro bloco de conhecimento exigido no último NESP concentra‑se em IPv6. Embora o IPv4 ainda domine a maior parte do tráfego mundial, a escassez de endereços e a necessidade de suportar bilhões de dispositivos IoT forçam operadoras a migrar para o novo protocolo. O exame testa não só a configuração de endereços e roteamento, mas também a interoperabilidade entre IPv6 e IPv4 via técnicas como Dual‑Stack e NAT64. Segundo a consultora de redes Dr. Akira Yamamoto, “o domínio do IPv6 deixa de ser opcional e passa a ser critério de avaliação de maturidade tecnológica das empresas”. No Brasil, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) já estima que 30% das novas instalações de fibra óptica devem suportar IPv6 até 2027, criando um mercado de aproximadamente R$ 1,2 bilhão em projetos de atualização de infraestrutura.

Em segundo lugar, o exame enfatiza a implementação de SD‑WAN, uma solução que virtualiza a camada de transporte para melhorar a agilidade e reduzir custos operacionais. Enquanto as redes tradicionais dependem de MPLS dedicado, o SD‑WAN permite o uso de links de banda larga comercial, 4G/5G e até satélite, tudo gerenciado por políticas centralizadas. O teste aborda arquitetura de overlay, segmentação por políticas de QoS e integração com segurança Zero‑Trust. Estudos da Gartner apontam que o mercado global de SD‑WAN deve alcançar US$ 30 bilhões em 2025, com a América Latina representando 12% desse volume. No Brasil, operadores como a Vivo e a TIM já anunciaram planos de migração que podem envolver investimento superior a R$ 800 milhões nos próximos três anos, o que cria demanda imediata por profissionais certificados.

O terceiro domínio – protocolos de roteamento BGP e OSPF – permanece o núcleo da internet corporativa. O NESP inclui casos de uso avançados, como manipulação de atributos BGP (MED, LOCAL_PREF) e otimização de convergência OSPF em áreas multi‑área. A complexidade crescente das topologias híbridas, que mesclam data centers on‑premise e nuvens públicas, exige conhecimento profundo para evitar loops e garantir alta disponibilidade. Um relatório da IDC revelou que falhas de roteamento são responsáveis por 28% dos incidentes de downtime em serviços críticos, gerando perdas econômicas estimadas em US$ 5,6 bilhões globalmente. No Brasil, o aumento de serviços de streaming e fintechs eleva a importância de arquiteturas resilientes, impulsionando a procura por especialistas capazes de projetar redes que suportem tráfego de dezenas de terabits por segundo.

Por fim, a segurança de camada 2 – muitas vezes subestimada – ganha destaque no exame por abordar tópicos como MACsec, controle de acesso baseado em 802.1X e prevenção de ataques de VLAN hopping. Com a proliferção de ambientes de trabalho híbrido, redes locais se tornaram alvo de invasões que podem comprometer toda a cadeia de suprimentos digital. Dados da Symantec apontam que ataques que exploram vulnerabilidades de camada 2 cresceram 43% entre 2021 e 2023. No Brasil, o Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br) registrou mais de 12 mil incidentes envolvendo falhas de segmentação de rede em 2023, reforçando a necessidade de profissionais que compreendam a proteção física e lógica dos comutadores.

Do ponto de vista econômico, a decisão do governo japonês de encerrar o NESP pode sinalizar uma mudança de foco para certificações mais globais, como o Cisco Certified Network Professional (CCNP) ou o Juniper Networks Certified Specialist. Essa transição pode abrir espaço para que empresas brasileiras se posicionem como centros de treinamento regional, oferecendo cursos alinhados ao novo padrão. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação (Brasscom), o mercado de certificações TI no país movimentou cerca de R$ 450 milhões em 2023, e há expectativa de crescimento de 18% ao ano, impulsionado pela necessidade de requalificação diante da adoção de 5G e edge computing.

Geopoliticamente, a certificação NESP sempre foi vista como um mecanismo de padronização que favorecia fornecedores japoneses, como a NEC e a Fujitsu, que inseriam questões específicas sobre suas próprias soluções de roteamento e segurança. O fim do exame pode reduzir essa “bias” nacional e facilitar a adoção de equipamentos de outros fabricantes, como a Huawei, que tem buscado expandir sua presença na América Latina. No entanto, a crescente pressão regulatória nos EUA e na UE sobre empresas chinesas cria um cenário de incerteza que pode beneficiar fornecedores locais e regionais, inclusive startups brasileiras que desenvolvem soluções de automação de rede baseadas em código aberto.

Para profissionais brasileiros, o aprendizado dos quatro tópicos do NESP representa um caminho sólido de especialização, independentemente da certificação escolhida. Cursos de pós‑graduação em Redes de Comunicação, oferecidos por universidades como a USP e a PUC‑Río, já incorporam módulos de IPv6 avançado, SD‑WAN e segurança de camada 2. Além disso, comunidades como o Network Engineering Brasil (NEB) organizam laboratórios virtuais que simulam ambientes de roteamento BGP/OSPF, permitindo que engenheiros pratiquem cenários de failover e otimização de tráfego.

A perspectiva latino‑americana não se limita ao Brasil. Países como México, Chile e Colômbia têm investimentos robustos em infraestrutura de fibra óptica e 5G, com projeções de crescimento anual superior a 10% até 2030. O reconhecimento de certificações internacionais, aliadas ao domínio das tecnologias apontadas pelo NESP, pode transformar a região em um hub de serviços de rede gerenciados, atraindo investimentos estrangeiros e fortalecendo a soberania digital.

Em conclusão, o último exame NESP funciona como um termômetro das competências técnicas que definirão o futuro das redes corporativas e de operadoras globalmente. Dominar IPv6, SD‑WAN, protocolos de roteamento avançado e segurança de camada 2 não é apenas uma exigência para passar em um teste; é um requisito estratégico para quem deseja liderar projetos de transformação digital, reduzir custos operacionais e garantir a resiliência das infraestruturas críticas. Para o Brasil, essa janela de aprendizado representa uma oportunidade de alinhar o talento local às demandas de um mercado em rápida evolução, potencializando a competitividade das empresas nacionais e posicionando a região como referência em inovação de redes. O caminho está traçado: investimento em educação, parcerias com fornecedores globais e adoção precoce das tecnologias emergentes serão os pilares que sustentarão o sucesso dos engenheiros de rede nos próximos anos.

Fonte original

Nikkei xTECH