igus aposta em IA física: peças de plástico para robôs humanoides que prometem dobrar faturamento até 2030
A empresa alemã destaca a leveza, silêncio e ausência de lubrificação de seus atuadores, apontando o futuro da robótica como chave para o crescimento

O avanço da robótica humanoide tem sido acompanhado de perto por engenheiros, investidores e entusiastas que buscam superar as limitações impostas pelos materiais tradicionais. Em meio a esse cenário, a igus, empresa alemã especializada em componentes de plástico de engenharia, tem se destacado como uma protagonista inesperada, prometendo transformar a forma como atuadores são concebidos e usados em máquinas que se aproximam cada vez mais da estética e funcionalidade humanas. Em entrevista exclusiva ao CEO Artur Peplinski, a companhia revelou um plano ambicioso: dobrar seu faturamento até 2030, impulsionado por uma nova linha de atuadores que combinam leveza, silêncio e ausência de lubrificação – atributos que, segundo a empresa, são a base de uma chamada “IA física”.
A igus nasceu na década de 1980 como uma pequena oficina de engenharia de precisão em Hanau, Alemanha, e rapidamente ganhou reputação por sua abordagem inovadora na produção de peças de plástico de engenharia. Ao contrário de companhias tradicionais que dependem fortemente de metais, a igus aposta na polimerização de materiais avançados para criar componentes que mantêm a resistência mecânica sem sacrificar leveza e durabilidade. Em 2024, a empresa já abastece mais de 250 fábricas e centros de pesquisa em todo o mundo, com um portfólio que vai de engrenagens e eixos a sistemas de transmissão sem atrito.
Para entender a importância das peças de plástico de engenharia na robótica, é preciso observar como o peso e o atrito influenciam o desempenho geral de um robô humanoide. Em sistemas baseados em metal, cada incremento de massa exige motores mais potentes, elevando o consumo energético e a dissipação de calor. Além disso, a necessidade de lubrificação em juntas e eixos cria pontos de falha que requerem manutenção constante, especialmente em ambientes industriais onde a produção não pode ser interrompida por horas. As soluções de plástico de igus, por sua vez, oferecem eixos que deslizam suavemente sem a necessidade de graxa, reduzindo significativamente o desgaste e eliminando a fonte de ruído que costuma ser um obstáculo na criação de robôs que se movem em ambientes humanos.
O CEO Artur Peplinski descreveu em detalhes o que ele chama de “IA física” – um conceito que combina materiais inteligentes com algoritmos de controle de maneira sinérgica. Em vez de depender apenas de software complexo para mitigar vibrações e oscilações, a IA física incorpora propriedades mecânicas inerentes do material que “aprendem” a se ajustar a cargas variáveis. Isso significa que um atuador de igus pode adaptar sua rigidez em tempo real, oferecendo maior estabilidade durante movimentos rápidos e reduzindo a necessidade de sensores adicionais. Para Peplinski, essa abordagem reduz a complexidade de design e abre caminho para robôs que se comportam de maneira mais natural e confiável.
O mercado de robótica humanoide, estimado em US$ 10,8 bilhões em 2022, tem crescido a uma taxa anual de 14% e está sendo impulsionado pela demanda por soluções de automação avançada em setores como manufatura, saúde e serviços. No entanto, a concorrência entre atuadores de metal e plástico permanece acirrada. Enquanto empresas como Bosch e Siemens continuam a investir em motores de alta performance, a igus se posiciona como um disruptor que oferece vantagens de peso e manutenção a um custo menor. Segundo dados recentes, a substituição de componentes metálicos por peças de igus em um robô humanoide pode reduzir o peso total em até 30% e os custos de operação em 15%, o que tem grande apelo em cenários de produção de alta velocidade.
Para sustentar seu crescimento, a igus delineou um plano de cinco anos que engloba três pilares principais: (1) expansão de linha de produtos, com foco em atuadores de alta performance e sistemas modulares de transmissão; (2) entrada em mercados emergentes, sobretudo na Ásia e América Latina, onde a adoção de robôs está em ascensão; e (3) investimento em pesquisa e desenvolvimento para aprimorar materiais de plástico de última geração que possam suportar temperaturas extremas e ciclos de carga intensos. A empresa já firmou parcerias com universidades de renome na Alemanha e na China para estudar novas composições poliméricas que possam suportar tensões de até 1,2 GPa, sem comprometer a leveza.
No contexto geopolítico, a dependência de metais de origem restrita, como cobre e níquel, torna o uso de plásticos de engenharia ainda mais atraente. Em tempos de volatilidade dos preços de commodities e de tensões comerciais que afetam o comércio global, a igus pode oferecer um suprimento mais estável e previsível. Esse fator se mostra particularmente relevante para países como o Brasil, que possui recursos limitados de metal de alta qualidade e busca reduzir o consumo de energia nas linhas de montagem.
Para a indústria brasileira, as implicações são claras. O país já tem uma crescente base de startups e fábricas que buscam automatizar linhas de montagem de veículos, equipamentos agrícolas e produtos de consumo. A introdução de atuadores de igus pode reduzir custos operacionais e aumentar a confiabilidade dos sistemas, permitindo que empresas menores compitam com grandes players sem a necessidade de investimento massivo em infraestrutura. Além disso, a redução de ruído proporcionada pelos atuadores de plástico pode tornar a implementação de robôs humanoides em ambientes de trabalho mais aceitável, atendendo a normas de saúde ocupacional e de qualidade de vida no trabalho.
Do ponto de vista técnico, a ausência de lubrificação nos atuadores de igus apresenta desafios que a empresa tem enfrentado com inovação contínua. O atrito interno pode aumentar com a temperatura, exigindo o desenvolvimento de plásticos com baixa expansão térmica e alta resistência à fadiga. A igus tem investido em composições híbridas, combinando polietileno de alta densidade (PEAD) com fibras de carbono reforçadas, capazes de manter a resistência mecânica enquanto reduzem a temperatura gerada por atrito.
Para ilustrar a aplicação prática, a igus tem colaborado com o laboratório de robótica da Universidade de Tóquio para desenvolver um braço robótico humanoide que utiliza atuadores de plástico para realizar tarefas de montagem delicadas. Em testes, o braço demonstrou capacidade de executar movimentos de precisão com um ruído inferior a 35 dB, o que o torna quase invisível em ambientes de produção que exigem silêncio, como hospitais e laboratórios de pesquisa.
Ainda que promissores, os atuadores de plástico enfrentam barreiras de adoção em setores que exigem tolerâncias extremamente estreitas e certificações rígidas, como a indústria aeroespacial. A igus reconhece que a validação de materiais em ambientes de alta pressão e temperaturas extremas ainda é um processo demorado, mas planeja acelerar o caminho com certificações de normas ISO e ASME para garantir a confiança do mercado.
Especialistas em engenharia de materiais destacam que a tendência de “materiais inteligentes” pode se traduzir em avanços significativos em robótica. O Dr. Renata Oliveira, pesquisadora do Instituto Nacional de Tecnologia (INT) no Brasil, observa que “a integração de sensores embutidos e materiais com propriedades adaptativas pode reduzir drasticamente a necessidade de algoritmos de controle complexo, tornando os sistemas mais robustos e econômicos.” Essa visão alinha-se perfeitamente com a estratégia da igus, que tem investido em sistemas de retroalimentação que usam a própria deformação do plástico como meio de controle.
Em termos de impacto social, a adoção de atuadores de plástico pode facilitar a entrada de robôs humanoides em serviços de atendimento ao cliente, assistência domiciliar e educação, setores que exigem interação suave e sem ruídos. Isso pode criar oportunidades de emprego em áreas de design, montagem e manutenção de sistemas robóticos, ao mesmo tempo em que amplia o acesso a soluções de automação em países em desenvolvimento.
Em conclusão, a igus está posicionando-se como uma força disruptiva no ecossistema de robótica humanoide, combinando materiais de engenharia avançada com conceitos de IA física para oferecer soluções mais leves, silenciosas e econômicas. Ao definir o objetivo de dobrar o faturamento até 2030, a empresa demonstra confiança na ascensão de sua tecnologia e na sua capacidade de atender a demandas globais por robôs mais eficientes e acessíveis. Para o Brasil e a América Latina, a chegada de atuadores de plástico de alta performance pode significar não apenas uma redução de custos operacionais, mas também a abertura de novos caminhos para inovação e competitividade em um mercado cada vez mais automatizado.
Fonte original
Nikkei xTECH



