Ika Industries lança placa de silicato de cálcio com CO2 reciclado
A Luna Light CF, nova tecnologia japonesa que transforma resíduos em material de construção sustentável

A construção civil, responsável por cerca de 39 % das emissões globais de CO2 em 2023, tem sido alvo de intensas pesquisas de mitigação. Em meio a essa urgência, a Ika Industries do Japão anunciou em agosto de 2026 a Luna Light CF, uma placa de silicato de cálcio que utiliza pó de resíduos industriais já fixado com CO2 como matéria‑prima. A novidade surge em um contexto de crescente demanda por materiais “carbono‑zero” e de regulamentações cada vez mais rigorosas sobre emissões no setor de construção.
O que é a Luna Light CF? Trata‑se de um painel de silicato de cálcio – composto principalmente de silício, cálcio e oxigênio – que tradicionalmente requerem grande consumo de energia e emissões de CO2 para a sua produção. O diferencial da Luna Light CF está na utilização de um pó de resíduos industriais – provenientes de processos de metalurgia, produção de vidro e siderurgia – que já passou por um tratamento de fixação de CO2. Esse processo de mineralização transforma o dióxido de carbono em carbonato de cálcio, integrando-o à matriz do silicato e reduzindo a necessidade de calcinação a altas temperaturas.
A tecnologia de fixação de CO2 empregada pela Ika Industries baseia‑se em um ciclo de absorção química usando aminas e um resfriamento controlado, resultando em um material com teor de carbono fixo de aproximadamente 12 %. Estudos internos mostram que a produção de 1 metro quadrado de Luna Light CF consome 30 % menos energia térmica e gera 40 % menos emissões de CO2 em comparação com placas de silicato convencionais.
Além da eficiência energética, a Luna Light CF apresenta vantagens mecânicas que atendem aos padrões de construção modernos. Testes de resistência ao impacto, à umidade e ao fogo indicam que a placa mantém sua integridade estrutural por até 25 anos, superando os benchmarks de placas de fibrocimento e até mesmo de placas de gesso comum. Isso significa que os construtores podem optar por um material mais sustentável sem comprometer a durabilidade.
Para a Ika Industries, o lançamento não é apenas um passo tecnológico, mas também uma resposta a políticas públicas. Em 2025, o governo japonês anunciou a “Agenda 2050” de redução de emissões, que inclui metas de 50 % de redução até 2030 em todos os setores, inclusive o da construção. A Luna Light CF posiciona a empresa como pioneira em atender esses objetivos, podendo ganhar incentivos fiscais e participar de projetos de retrofit em edifícios públicos.
O mercado global de placas de silicato de cálcio já movimentava cerca de 5 bilhões de dólares em 2024. O segmento de “green construction” está crescendo a uma taxa anual composta (CAGR) de 6,2 % entre 2025 e 2030. A introdução de um produto que reduz emissões e utiliza resíduos posiciona a Ika Industries em uma vantagem competitiva, abrindo oportunidades de exportação para países com metas climáticas ambiciosas.
Como o Brasil pode se beneficiar? O setor de cimento e materiais de construção brasileiro gera cerca de 25 % das emissões nacionais de CO2, sendo responsável por 12 % das emissões globais. O Brasil possui uma abundância de resíduos industriais, especialmente provenientes de siderurgia e mineração, que poderiam ser convertidos em pó de resíduos fixados com CO2. A parceria entre a Ika e fabricantes locais poderia acelerar a adoção de placas de silicato de cálcio “carbono‑zero” nos projetos de infraestrutura pública, como as obras de saneamento e habitação em grandes cidades.
Além da redução de emissões, a Luna Light CF traz benefícios econômicos para a cadeia de suprimentos. A produção local de pó de resíduos reduz custos de transporte e aumenta a eficiência logística. Em um cenário de volatilidade dos preços do cimento, o uso de materiais alternativos pode estabilizar os custos de construção e criar novos empregos na transformação de resíduos.
Entretanto, a adoção em massa enfrenta desafios. A padronização de normas técnicas brasileiras – como a NBR 7193 e a NBR 7183 – ainda não contempla explicitamente a utilização de CO2 fixado como matéria‑prima. A necessidade de certificação de desempenho, além de testes de longo prazo em clima tropical, pode atrasar a aprovação do produto no mercado local. Ainda assim, com a crescente pressão de consumidores e investidores por práticas sustentáveis, a barreira regulatória pode ser superada rapidamente.
No cenário geopolítico, o Japão tem buscado fortalecer a cooperação em tecnologias verdes com países da América Latina, especialmente após o acordo de “Parceria de Inovação Climática” firmado em 2024. A exportação da Luna Light CF pode servir como porta de entrada para outras soluções japonesas de captura e reutilização de CO2, fomentando um ecossistema de inovação entre os continentes.
O futuro da Luna Light CF parece promissor. A Ika Industries planeja abrir uma linha de produção adicional na região do Hokkaido até 2028, visando atender à demanda interna e exportar para a Ásia Pacífico. Paralelamente, a empresa investe em pesquisa de aprimoramento do processo de fixação para aumentar o teor de carbono fixo a 15 % e reduzir ainda mais as emissões.
Em síntese, a Luna Light CF representa um marco na convergência entre redução de carbono e aproveitamento de resíduos. Para o Brasil, o modelo oferece uma rota clara para a construção mais sustentável, alinhada com metas de descarbonização e desenvolvimento econômico. A jornada de adoção exigirá ajustes regulatórios, colaboração público‑privada e investimentos em tecnologia, mas os benefícios – redução de emissões, economia de recursos e inovação de mercado – justificam a aposta em longo prazo.
Fonte original
Nikkei xTECH



