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Robótica

Japão lança ambicioso programa de 25 anos para robôs autônomos que convivem com humanos

O projeto de 14 iniciativas, financiado pelo JST, marca o início de um novo capítulo na IA humanoide

Nikkei xTECH

O Japão, país que sempre se posicionou na vanguarda da automação e da robótica, lançou neste fim de semana um novo capítulo em sua trajetória de inovação. A Agência de Promoção de Ciência e Tecnologia do Japão (Japan Science and Technology Agency – JST) iniciou oficialmente o Goal 3 do seu programa Moonshot, que tem como ambição criar robôs AI que possam aprender, agir de forma autônoma e, sobretudo, conviver com os seres humanos de maneira segura e harmoniosa. O kick‑off, realizado em um auditório de alto padrão em Tóquio, reuniu mais de cem pesquisadores, programadores, engenheiros de hardware, especialistas em ética e representantes de empresas do setor, demonstrando o tamanho e a importância do projeto.

### O que é o Moonshot da JST? O termo "moonshot" evoca a missão histórica da NASA de enviar humanos à Lua. Na JST, o conceito foi traduzido em uma série de projetos ambiciosos, divididos em três fases. A primeira fase, Goal 1, concentrou-se na criação de sistemas de aprendizado profundo e na integração de sensores avançados. A segunda fase, Goal 2, avançou para a construção de protótipos físicos de robôs humanoides com capacidade de locomover-se em ambientes urbanos. Agora, em Goal 3, o foco é elevar esses protótipos a uma escala de produção em massa, garantindo que eles sejam capazes de aprender continuamente e interagir de forma intuitiva com os humanos.

### 14 projetos, mais de 100 pesquisadores O evento revelou a lista de 14 projetos selecionados. Embora a descrição oficial ainda esteja em fase de consolidação, os temas são claros: desde robôs de assistência domiciliar para idosos até sistemas de manutenção de infraestruturas críticas. Todos eles têm como objetivo construir plataformas que, com base em aprendizado reforçado e processamento de linguagem natural, possam adaptar-se a diferentes contextos e necessidades.

A composição da equipe demonstra a diversidade necessária para este desafio. Há engenheiros de mecânica que trabalham no design ergonômico, cientistas de dados que desenvolvem algoritmos de aprendizado contínuo e especialistas em psicologia que analisam a receptividade humana. Além disso, programadores de software colaboram na criação de interfaces de controle que permitem que os usuários “ensinhem” os robôs com poucos cliques, algo que pode revolucionar a forma como pensamos em treinamento de máquinas.

### Por que a autonomia e a convivência humana são cruciais? O Japão enfrenta uma crise demográfica sem precedentes: a taxa de natalidade caiu para 0,84 nascimentos por mulher e a expectativa de vida ultrapassa 85 anos. Isso gera um envelhecimento populacional que pressiona os sistemas de saúde, a previdência e o mercado de trabalho. Os robôs que aprendem e agem de forma autônoma podem aliviar essa pressão de diversas maneiras:

1. **Assistência à terceira idade** – Robôs que aprendem a reconhecer sinais de fadiga ou dor podem auxiliar na mobilidade, no monitoramento de medicamentos e na companhia emocional. 2. **Trabalho físico** – Em setores como construção e manufatura, robôs que podem adaptar-se a tarefas variadas aumentam a eficiência e reduzem o risco de acidentes. 3. **Respostas a desastres** – Em áreas propensas a terremotos e tsunamis, um robô que aprende a navegar em ambientes caóticos pode salvar vidas.

Além desses usos práticos, a convivência humana exige considerações éticas profundas. Como os robôs interpretam emoções humanas? Como evitamos que algoritmos de aprendizado perpetuem preconceitos? A JST, consciente dessas questões, incorporou um painel de ética e regulamentos que orienta os projetos desde a fase de concepção.

### Contexto global e a corrida por tecnologias humanoides O Japão não está sozinho nessa corrida. A NASA, a DARPA americana e a Comissão Europeia têm iniciativas paralelas que buscam melhorar a interação humano‑robô. No entanto, enquanto os EUA se concentram em robôs militares e a UE em robôs de serviço, o Japão tem investido de forma mais equilibrada, procurando criar sistemas que possam ser produzidos em larga escala e que sejam culturalmente aceitos.

Em 2024, o mercado global de robótica industrial já atingiu 37 bilhões de dólares e espera crescer a uma taxa de 5,5% ao ano até 2030. O sub‑segmento de robôs de assistência domiciliar já representa 4,8 bilhões de dólares em 2024, com previsão de quase 10 bilhões em 2030. O investimento japonês em Goal 3, estimado em 10 bilhões de ienes ao longo de 25 anos, pode posicionar o país como líder em termos de eficiência e aceitação social.

### O que o Brasil pode aprender e colaborar? Para o Brasil, o projeto do JST oferece lições valiosas em três frentes:

1. **Investimento em pesquisa aplicada** – O Brasil tem centros de pesquisa como o Instituto Nacional de Tecnologia (INT) e a Universidade de São Paulo que já produzem avanços em IA, mas ainda precisam de financiamento estável para transformar protótipos em produtos de mercado.

2. **Regulação e ética** – Assim como a JST, os legisladores brasileiros poderiam criar comitês de ética em IA que orientem o desenvolvimento de robôs que atuam em ambientes sensíveis, como hospitais e residências.

3. **Parcerias público‑privadas** – A estrutura de Goal 3 demonstra que a colaboração entre governo, academia e indústria é vital. Empresas brasileiras de automação, como a Embraer e a Ipiranga, já possuem expertise em sistemas embarcados que poderiam ser adaptados para robôs humanoides.

Além disso, o Brasil, com sua vasta demanda em serviços de saúde, agricultura e mineração, pode se beneficiar de robôs autônomos que aprendem em campo e adaptam-se a condições locais. Por exemplo, robôs de assistência agrícola que reconhecem doenças em plantações e sugerem tratamentos poderiam transformar a produção de alimentos.

### Desafios técnicos e práticos Apesar do entusiasmo, o caminho para robôs que “convivem” com humanos é repleto de obstáculos técnicos:

- **Bateria e autonomia energética** – A maior barreira de mobilidade permanece a duração da bateria. Projetos de baterias de estado sólido, ainda em fase de pesquisa, são críticos. - **Robustez física** – Robôs humanoides precisam ser leves mas resistentes, capazes de resistir a colisões e condições climáticas adversas. - **Aprendizado de longo prazo** – O aprendizado contínuo exige recursos de computação que podem exceder as capacidades de um robô de tamanho compacto. Soluções de computação híbrida (edge + cloud) estão sendo exploradas. - **Interação social** – A percepção de “naturalidade” na linguagem e na gesticulação é um campo de estudo interdisciplinar que envolve linguística, psicologia e ciência da computação.

A JST está ciente desses desafios e, por isso, os 14 projetos incluem sub‑grupos dedicados a cada um desses aspectos. Isso demonstra uma abordagem holística que pode reduzir o risco de fracasso em fases posteriores.

### Próximos passos e a visão de futuro O kick‑off foi apenas o primeiro passo. Em 2025, a JST planeja iniciar a fase de prototipagem em escala maior, com testes em ambientes de laboratório e, eventualmente, em cenários de vida real em cidades japonesas. Para 2030, espera-se que os robôs tenham capacidade de interagir em tempo real com humanos em ambientes domésticos e de trabalho. O objetivo final, em 2045, é que esses sistemas estejam totalmente integrados na sociedade, operando de forma segura, eficiente e eticamente alinhada.

Para a comunidade internacional, o projeto oferece um modelo replicável de financiamento e governança. O compromisso de 25 anos garante que os resultados sejam sustentáveis, em vez de ser apenas um projeto de curto prazo. Assim, o Japão se posiciona não apenas como um líder tecnológico, mas como um pioneiro em políticas de inovação de longo prazo.

### Conclusão O lançamento do Goal 3 do programa Moonshot do JST marca um momento decisivo na história da robótica e da IA. Com 14 projetos, mais de 100 pesquisadores e uma visão ambiciosa de 25 anos, o Japão está traçando um roteiro claro para transformar robôs autônomos em parceiros confiáveis para os humanos. O impacto social, econômico e tecnológico desse esforço ultrapassa fronteiras, oferecendo oportunidades de colaboração e aprendizado para países em desenvolvimento, como o Brasil, que buscam acelerar sua transformação digital. Se o que a JST demonstra hoje for seguido, poderemos, em poucas décadas, ver robôs que não apenas ajudam no trabalho, mas que tornam as interações humanas mais seguras, inclusivas e enriquecedoras.

Fonte original

Nikkei xTECH