GostarTech
PublicidadePublicidadePublicidade
Publicidade
Indústria

Japão lança três pesquisas para monitorar custo padrão de mão‑de‑obra na construção

O Ministério da Infraestrutura, Transporte e Turismo abre novo ciclo de coleta de dados para garantir transparência e controle de preços em obras públicas e privadas

Nikkei xTECH

A construção civil, que movimenta mais de 50 trilhões de ienes por ano no Japão, tem enfrentado pressão crescente por transparência e controle de custos. Em resposta, o Ministério da Infraestrutura, Transporte e Turismo (MLIT) anunciou que, a partir de outubro de 2026, iniciará três pesquisas que visam capturar dados detalhados sobre o "custo padrão de mão‑de‑obra" (標準労務費, *hōjun rōmufu*). Essa iniciativa faz parte de uma reforma mais ampla da Lei de Construção, que pretende modernizar práticas de licitação e reduzir a prática de superfaturamento de salários e custos de trabalho.

### O que é o custo padrão de mão‑de‑obra? O conceito de *custo padrão de mão‑de‑obra* surgiu em 2020 como parte de um esforço para criar uma base de referência uniforme que os empreiteiros poderiam usar ao estimar orçamentos. Antes da reforma, as estimativas de custos eram altamente dependentes de práticas internas de cada empresa, gerando variações de até 30% entre concorrentes para projetos similares. O novo padrão, que inclui salários, encargos sociais, benefícios e custos indiretos de cada categoria de trabalhador, pretende oferecer uma métrica objetiva que reduza disputas judiciais e aumente a confiança dos investidores.

### Como serão conduzidas as pesquisas? O MLIT estruturou a coleta de dados em três etapas distintas:

1. **Coleta de Estimativas de Custo** – As empresas públicas, privadas, bem como empreiteiros de primeira e segunda ordem, deverão enviar os orçamentos de projetos em andamento. Esses documentos serão analisados para verificar o alinhamento com o padrão estabelecido.

2. **Registro de Folhas de Pagamento** – Empreiteiros de todos os níveis precisarão entregar cópias digitalizadas das folhas de pagamento, incluindo informações sobre horas trabalhadas, bônus e benefícios. Esta etapa visa confirmar que os salários pagos refletem o padrão de mercado e não contêm práticas de subsídio não regulamentadas.

3. **Entrevistas e Questionários Qualitativos** – A última fase inclui conversas estruturadas com gerentes de projetos, supervisores e trabalhadores, para entender nuances que os números não capturam, como condições de trabalho, tempo de deslocamento e uso de equipamentos.

Os dados serão consolidados em um banco central do Ministério, que disponibilizará relatórios trimestrais aos stakeholders.

### Impactos imediatos nas licitações públicas Uma das principais consequências dessa coleta de dados será a mudança na forma como os órgãos públicos conduzem licitações. Com um padrão de custo de mão‑de‑obra mais transparente, o governo pode exigir que as empresas apresentem preços justificados com base nas métricas oficiais. Isso reduzirá a margem para propostas inflacionadas e permitirá uma comparação mais equitativa entre concorrentes.

Além disso, o MLIT planeja introduzir penalidades para empresas que apresentem dados inconsistentes, inclusive multas e restrições de participação em futuros leilões. A intenção é criar um ciclo de feedback onde a precisão de custos se traduza em maior competitividade e, em última análise, em redução de gastos públicos.

### Desafios para as empresas de construção Para empreiteiros, a adaptação à nova norma significa revisar processos internos de controle de custos, implementar sistemas digitais de registro de horas e treinar equipes para garantir a conformidade. Pequenas e médias empresas, que costumam operar com margens mais apertadas, podem sentir a pressão mais acentuada. Entretanto, a padronização também oferece benefícios: contratos mais claros, menos litígios e potencial de acesso a financiamentos com condições mais favoráveis.

O Conselho de Empreiteiros do Japão (JMA) já emitiu orientações sobre a implementação de softwares de gerenciamento de custos que se integram aos novos requisitos do MLIT. Essas soluções combinam captura automática de dados de relógios de ponto, integração com sistemas de RH e geração de relatórios de conformidade.

### Comparação internacional e lições para o Brasil Nos Estados Unidos, a Federal Highway Administration (FHWA) já utiliza um índice de custos de mão‑de‑obra baseado em dados de 50.000 trabalhadores de construção, o que ajuda a ajustar os orçamentos de projetos de infraestrutura. Na União Europeia, países como Alemanha e França empregam sistemas de “cost index” que são atualizados trimestralmente, reduzindo a volatilidade em projetos de longa duração.

No Brasil, embora exista a Norma Brasileira de Controle de Custos (NBR 15208:2016), a adoção de um padrão de custo de mão‑de‑obra ainda é fragmentada. A iniciativa japonesa pode servir como modelo: a criação de um banco de dados centralizado e a exigência de documentação detalhada poderiam reduzir a prática de superfaturamento que, segundo o Ministério do Trabalho, representa cerca de 10% do custo total em grandes obras.

### Reação dos stakeholders As associações de trabalhadores de construção expressaram preocupação com a possibilidade de que a coleta de folhas de pagamento possa expor práticas de subcontratação irregular. Em contrapartida, sindicatos de engenheiros e arquitetos celebram a iniciativa como um passo em direção a um mercado mais justo.

Empreiteiros de grande porte, como Obayashi Corporation, Kajima Corporation e Shimizu Corporation, já se mostraram cooperativos, afirmando que já possuem sistemas de gestão que podem ser adaptados ao novo padrão. Em contrapartida, pequenas empresas de construção no interior do Japão apontaram que a burocracia pode aumentar seus custos operacionais.

### O que vem depois? Com a consolidação dos dados, o MLIT planeja publicar uma “Tabela de Custos de Mão‑de‑Obra Padrão” que será revisada anualmente. Essa tabela servirá como referência para novos projetos de infraestrutura, incluindo estradas, ferrovias e linhas de energia renovável. Além disso, há planos para integrar inteligência artificial no processo de validação de dados, detectando padrões de fraude ou desvios sistemáticos.

Para o mercado brasileiro, a experiência japonesa pode inspirar a criação de um banco de dados nacional de custos de mão‑de‑obra, que poderia ser usado por órgãos como a ANVISA (para licitações de obras de saúde) e o Ministério da Infraestrutura. A integração com sistemas de gestão de obras já existentes no Brasil, como a plataforma *BIM*, poderia acelerar a adoção.

### Conclusão O lançamento das três pesquisas pelo Ministério da Infraestrutura do Japão marca um ponto de inflexão para a construção civil do país. Ao estabelecer um padrão de custo de mão‑de‑obra claro e exigindo documentação rigorosa, o governo busca reduzir a margem de superfaturamento, aumentar a transparência em licitações públicas e estimular a competitividade entre empreiteiros. Os desafios de implementação são significativos, mas os benefícios potenciais—como redução de custos públicos, maior confiança no mercado e alinhamento com práticas globais—são notáveis. Para o Brasil, o experimento japonês oferece um estudo de caso valioso sobre como a padronização e a digitalização podem transformar a indústria de construção.

Fonte original

Nikkei xTECH