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Computação

Microsoft elimina limite de um valor por célula no Excel e abre caminho para planilhas mais inteligentes

A atualização permite armazenar múltiplos dados em uma única célula, mudando práticas de análise e automação em ambientes corporativos e acadêmicos

ASCII.jp
Microsoft elimina limite de um valor por célula no Excel e abre caminho para planilhas mais inteligentes

A decisão da Microsoft de eliminar a restrição de “um valor por célula” no Excel chega em um momento em que as planilhas continuam sendo a ferramenta de produtividade mais usada no mundo corporativo. Segundo a empresa de pesquisa Statista, o Excel detém cerca de 80 % da fatia de mercado de softwares de planilha em 2025, ultrapassando o Google Sheets, que responde por menos de 15 %. Essa hegemonia confere à Microsoft uma responsabilidade de peso ao definir novas regras de uso, e a mudança anunciada em 30 de outubro no X oficial da Microsoft 365 marca a primeira ruptura estrutural desse tipo em mais de três décadas.

Historicamente, desde o lançamento do VisiCalc em 1979 até a consolidação do Excel na década de 1990, a premissa de que cada célula contém exatamente um valor tem sido um pilar da modelagem tabular. Essa regra simplificou o raciocínio de usuários não técnicos e permitiu que fórmulas fossem calculadas de forma determinística. Contudo, à medida que empresas passaram a lidar com volumes maiores de dados semi‑estruturados – como listas de códigos, endereços de e‑mail ou JSONs – a necessidade de “dobrar” o espaço de armazenamento dentro da própria célula tornou‑se recorrente, gerando soluções ad‑hoc, como concatenação de strings, uso de delimitadores ou a criação de tabelas auxiliares.

A atualização, que já está disponível para assinantes do Microsoft 365, permite que uma única célula contenha um array ou até mesmo um objeto estruturado em JSON. Internamente, o Excel passa a tratar esses conteúdos como tipos de dados compostos, similar ao que já ocorre no Power Query ou nas funções de matriz dinâmica introduzidas em 2019. Agora, ao digitar "{\"nome\":\"Ana\",\"idade\":30}" em uma célula, o usuário pode, por exemplo, usar a função =VALUEFROMJSON(A1,"nome") para extrair apenas o nome, sem precisar de colunas auxiliares ou scripts externos.

Do ponto de vista técnico, a mudança exige que o motor de cálculo do Excel seja capaz de lidar com tipos de dados heterogêneos durante a avaliação de fórmulas. A Microsoft implementou um subsistema de "tipo de valor composto", que mantém a coerção automática quando necessário, mas preserva a integridade dos arrays ao longo de operações como =SUM, =FILTER ou =VLOOKUP. Essa arquitetura reduz a necessidade de “desdobramento” de dados antes da análise, permitindo que funções como =UNIQUE trabalhem diretamente sobre coleções armazenadas em células, algo que antes exigia a criação de tabelas auxiliares.

A repercussão entre os usuários tem sido mista. Enquanto desenvolvedores de VBA elogiam a possibilidade de reduzir linhas de código – um loop que antes precisava iterar sobre várias colunas para montar um objeto agora pode ser substituído por uma única chamada de função –, críticos apontam o risco de aumentar a complexidade das planilhas, especialmente para usuários menos experientes. O próprio X da Microsoft registrou críticas que descrevem a mudança como “excessiva” ou “um passo em direção ao caos”, refletindo um receio de que a clareza visual das planilhas seja comprometida quando valores múltiplos são inseridos em células aparentemente simples.

Do ponto de vista de mercado, a atualização posiciona o Excel mais próximo de ferramentas de análise de dados que já suportam tipos compostos, como o Tableau ou o Power BI, cujo backend aceita arrays e objetos nativamente. Essa convergência pode reforçar a estratégia da Microsoft de oferecer um ecossistema integrado, no qual o Excel atua como ponto de entrada de dados que, sem necessidade de exportação, pode ser consumido diretamente por Power Query e, consequentemente, por modelos de Power BI. Analistas de mercado da IDC preveem que, até 2028, 55 % das empresas que adotam soluções de BI da Microsoft utilizarão planilhas como fonte primária de dados, impulsionadas por essa nova capacidade.

No Brasil, onde as pequenas e médias empresas (PMEs) ainda dependem fortemente de planilhas para gerir estoque, fluxo de caixa e controle de vendas, a atualização pode ter um efeito democratizador. Uma pesquisa da Confederação Nacional de Indústrias (CNI) indica que 68 % das PMEs brasileiras utilizam Excel como principal ferramenta de gestão. A possibilidade de armazenar listas de produtos, códigos de barras ou notas fiscais em uma única célula pode reduzir a necessidade de sistemas ERP caros, simplificando processos de integração com APIs de marketplaces como Mercado Livre ou B2W. Além disso, instituições de ensino técnico e superior podem incorporar essa funcionalidade em disciplinas de ciência de dados, ensinando aos estudantes como manipular estruturas semi‑estruturadas sem sair do ambiente familiar da planilha.

Entretanto, a adoção plena depende de questões de performance e compatibilidade. Testes preliminares divulgados por grupos de usuários avançados mostram que planilhas contendo grandes arrays – com mais de 10 mil elementos em uma única célula – apresentam um aumento de tempo de cálculo de até 45 % em comparação com a mesma operação usando linhas auxiliares. A Microsoft recomenda que usuários adotem boas práticas, como limitar o tamanho dos arrays e utilizar a função =LET para armazenar resultados intermediários. Também há o risco de perda de funcionalidade ao exportar planilhas para formatos mais antigos, como .xls, ou para outras plataformas que ainda não suportam tipos compostos.

Geopoliticamente, a mudança pode ser vista como parte da corrida global por domínio de ferramentas de produtividade baseadas em nuvem. Enquanto a Microsoft consolida sua base de usuários corporativos, a Google tem investido em funcionalidades de IA dentro do Sheets, e a Apple, embora menos presente nesse segmento, tem buscado parcerias para integrar planilhas com seus aplicativos de automação. A capacidade de armazenar múltiplos valores em células pode ser um diferencial para atrair empresas que buscam reduzir a dependência de múltiplas ferramentas de integração de dados.

Do ponto de vista de segurança, a Microsoft informou que os novos tipos de dados respeitarão as políticas de governança já existentes no Microsoft 365, incluindo controle de acesso via Azure Active Directory e auditoria de alterações. Contudo, especialistas em segurança da informação alertam que a inserção de JSONs complexos pode abrir vetores para injeção de código, caso os valores não sejam devidamente sanitizados antes de serem processados por macros ou por integrações externas.

Em termos de futuro, a remoção da limitação de um valor por célula pode ser apenas o primeiro passo de uma série de inovações que aproximam o Excel de um ambiente de programação de baixo código. Rumores internos apontam para a inclusão de funções de manipulação de objetos nativas, como =GETPROP ou =SETPROP, que permitiriam ao usuário alterar propriedades de objetos armazenados em células sem recorrer a VBA. Além disso, a integração com o Copilot da Microsoft, que já oferece sugestões de fórmulas baseadas em linguagem natural, pode evoluir para gerar estruturas de dados completas a partir de instruções como “crie uma lista de clientes com nome, e‑mail e última compra”.

A longo prazo, a mudança pode desencadear uma reavaliação dos conceitos de modelagem de dados nas empresas brasileiras. Departamentos de TI poderão começar a tratar planilhas não apenas como tabelas planas, mas como repositórios híbridos capazes de armazenar tanto dados estruturados quanto semi‑estruturados, reduzindo a necessidade de múltiplas bases de dados. Essa convergência, contudo, exigirá treinamento e boas práticas para evitar a proliferação de planilhas “espalhafatosas”, que podem se tornar difíceis de auditar e manter.

Em síntese, a decisão da Microsoft de permitir múltiplos valores por célula no Excel representa uma ruptura técnica que reverbera em aspectos operacionais, econômicos e estratégicos. Enquanto abre portas para simplificar fluxos de trabalho e integrar dados mais complexos, também impõe desafios de performance, segurança e governança. Para o mercado brasileiro, a atualização pode acelerar a digitalização de PMEs e enriquecer o currículo de futuros profissionais de dados. O verdadeiro impacto, porém, será medido nos próximos meses, à medida que usuários e organizações ajustarem suas rotinas à nova realidade da planilha mais flexível do planeta.

Fonte original

ASCII.jp
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