Rakuten Card unifica a verificação de identidade com OTP e promete reforçar a segurança dos cartões de crédito no Japão
A partir de fevereiro de 2027, a emissora de cartões adotará exclusivamente senhas de uso único, marcando uma mudança estratégica no combate à fraude digital

A decisão da Rakuten Card de uniformizar a autenticação de seus clientes em uma única camada de segurança — a senha de uso único (OTP) — chega num momento crítico para o ecossistema de pagamentos digitais. Nos últimos dois anos, o Japão registrou um aumento de 23% nas tentativas de fraude envolvendo cartões de crédito, segundo dados da Associação Japonesa de Bancos (JBA). Ao migrar gradualmente, a partir de fevereiro de 2027, para um modelo que exige um código temporário enviado por SMS ou gerado por aplicativo, a empresa pretende conter esse crescimento e oferecer ao usuário final uma experiência de login mais simples, porém mais segura.
A escolha do OTP como padrão tem raízes em uma evolução tecnológica que começou com os tokens de hardware nos anos 2000 e avançou para os aplicativos móveis nos últimos cinco anos. No contexto da Rakuten Card, a unificação elimina a necessidade de múltiplos fluxos de verificação – como senhas estáticas, reconhecimento facial ou impressão digital – que, embora ofereçam camadas adicionais, também geram atrito e confusão ao consumidor. Ao concentrar a autenticação em um único método, a empresa reduz o risco de falhas humanas, como o compartilhamento de senhas, e diminui custos operacionais ligados à manutenção de diferentes sistemas de validação.
Do ponto de vista regulatório, a iniciativa está alinhada ao recém‑publicado "Guideline on Strong Customer Authentication" (SCA) emitido pela Agência de Serviços Financeiros do Japão (FSA) em dezembro de 2026. O documento recomenda que instituições financeiras adotem mecanismos de autenticação de dois fatores, priorizando OTPs por sua eficácia comprovada contra ataques de phishing. Ao antecipar a conformidade, a Rakuten Card evita multas potenciais e reforça sua reputação como instituição proativa em segurança da informação.
A migração será feita de forma sequencial, começando pelos novos clientes em fevereiro de 2027 e, posteriormente, estendendo-se aos usuários já existentes ao longo de 2028. Essa estratégia de rollout permite que a equipe de TI teste a robustez da infraestrutura de entrega de mensagens (SMS) e a escalabilidade dos servidores de geração de códigos. Também cria espaço para campanhas de educação digital, nas quais a própria Rakuten planeja enviar tutoriais em vídeo, webinars e suporte via chat 24h para garantir que o público entenda como solicitar e usar o OTP.
No cenário de mercado, a mudança coloca a Rakuten Card em confronto direto com concorrentes como a Sony Bank e a Sumitomo Mitsui Card, que ainda operam com múltiplos fatores de autenticação. Enquanto esses players mantêm senhas estáticas complementadas por biometria, a Rakuten aposta na padronização para acelerar a aprovação de transações. Estudos internos apontam que a taxa de abandono de compra online diminui em até 12 pontos percentuais quando o processo de verificação é reduzido a um único passo claro, sem sacrificar a segurança. Essa vantagem competitiva pode traduzir-se em maior volume de transações, especialmente no segmento de e‑commerce, que movimentou 38,5 trilhões de ienes em 2026.
A implementação do OTP traz ainda implicações técnicas que merecem destaque. Primeiro, a dependência de redes de telefonia móvel eleva a importância de acordos de nível de serviço (SLAs) com operadoras como NTT Docomo e KDDI. Qualquer atraso na entrega de mensagens pode bloquear o acesso ao cartão, gerando frustração e potencial perda de receita. Para mitigar esse risco, a Rakuten está investindo em um serviço de entrega redundante, combinando SMS com push notifications via aplicativo próprio. Segundo, a geração de códigos baseia‑se em algoritmos de tempo‑baseado (TOTP) ou baseados em evento (HOTP), exigindo sincronização de relógios entre servidores e dispositivos. Falhas nessa sincronização podem invalidar códigos válidos, por isso a empresa está adotando protocolos de NTP (Network Time Protocol) de alta precisão.
Economicamente, a padronização pode gerar economia de até 15% nos custos de suporte ao cliente, segundo projeções internas da Rakuten. Cada chamada para reset de senha ou desbloqueio de conta gera despesas médias de 1.200 ienes; com o OTP, esses chamados são reduzidos pela metade. Além disso, ao diminuir a taxa de fraude em 30% — estimativa baseada em modelos preditivos de machine learning — a empresa economiza cerca de 2,5 bilhões de ienes anuais em perdas financeiras e seguros.
Do ponto de vista geopolítico, a iniciativa sinaliza que o Japão está consolidando seu papel como referência em segurança de pagamentos digitais na Ásia‑Pacífico. Países vizinhos, como Coreia do Sul e Singapura, vêm observando as políticas de autenticação japonesas para adaptar suas próprias normas. Em uma era em que ataques de ransomware e phishing cruzam fronteiras com facilidade, a padronização de OTP pode servir como modelo para alianças regionais de segurança cibernética.
Para o Brasil e a América Latina, a mudança da Rakuten oferece lições estratégicas valiosas. Muitas fintechs brasileiras ainda utilizam senhas estáticas combinadas com biometria limitada a impressão digital, enquanto a adoção de OTP ainda é incipiente. O caso japonês demonstra que a unificação pode melhorar a experiência do usuário e reduzir custos, mas também alerta para a necessidade de infraestrutura robusta de telecomunicações. O Banco Central do Brasil, que recentemente divulgou diretrizes de autenticação forte para pagamentos instantâneos, pode se inspirar no modelo sequencial da Rakuten para orientar a migração das instituições locais.
Especialistas em segurança digital, como a professora Yasuko Tanaka, da Universidade de Tóquio, apontam que o OTP, embora eficaz contra phishing tradicional, ainda pode ser vulnerável a ataques de troca de SIM (SIM swapping). Ela recomenda que a Rakuten complemente o OTP com monitoramento de comportamento em tempo real e alertas de anomalias, práticas já adotadas por grandes bancos norte‑americanos. Por outro lado, o pesquisador brasileiro Marcelo Silva, da Fundação Getúlio Vargas, destaca que a experiência do usuário brasileiro pode ser mais sensível a mensagens SMS devido à alta taxa de uso de smartphones de baixo custo, reforçando a importância de opções de push notifications como alternativa.
Em termos de futuro, a Rakuten Card já sinaliza que o OTP será a base para novas funcionalidades, como autorizações instantâneas de pagamentos por QR Code e integração com wallets digitais. A empresa pretende usar os dados de uso do OTP para treinar algoritmos de IA que detectem padrões de comportamento suspeitos, criando um sistema de autenticação adaptativa que combina algo que o usuário sabe (código) com algo que ele faz (padrão de uso). Essa abordagem híbrida pode definir o próximo passo na evolução da segurança de pagamentos.
Em síntese, a decisão da Rakuten Card de unificar a verificação de identidade em OTP representa uma convergência de exigências regulatórias, pressões de mercado e avanços tecnológicos. A estratégia sequencial, o investimento em redundância de entrega e a visão de longo prazo para integrar IA à autenticação demonstram um comprometimento profundo com a segurança do consumidor. Enquanto o Japão avança para um padrão de autenticação mais rigoroso, o Brasil e a América Latina podem observar e adaptar essas práticas, preparando suas fintechs para um futuro onde a confiança digital será a moeda mais valiosa.
Fonte original
ITmedia








