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Robótica

Robôs de quatro patas na defesa: Ghost Robotics traz inovação à segurança

Como a tecnologia de robôs caninos está mudando a forma de proteger fronteiras, patrulhas e emergências no Brasil e no mundo

Robohub

A crescente demanda por soluções de patrulha e resposta a emergências tem impulsionado um novo setor dentro da robótica: os robôs caninos. Em entrevista exclusiva, Gavin Kenneally, cofundador e CEO da Ghost Robotics, revela como sua empresa tem superado barreiras da tecnologia de locomoção bípede e quadrúpede para criar máquinas que podem correr, escalar e atravessar terrenos acidentados.

Ghost Robotics surgiu em 2015 com a missão de “levantar o padrão da robótica de pernas” no mundo. Enquanto a maioria das equipes de defesa ainda se concentra em veículos terrestres motorizados, a Ghost tem investido em locomover robôs de quatro patas capazes de lidar com obstáculos que exigiriam a desmontagem de um caminhão. O protótipo Apex, por exemplo, pesa cerca de 40 kg, acelera até 18 km/h e pode superar pântanos, montanhas e ruínas urbanas.

O que diferencia esses robôs de suas contrapartes com rodas é a capacidade de distribuir o peso de forma dinâmica, permitindo que cada patinha ajuste a posição e o contato com o solo em tempo real. Em campo de batalha, essa característica significa menos desgaste em terrenos irregulares e maior resistência a ataques que exploram superfícies planas. Para operações de segurança pública, os robôs caninos oferecem visão 360° e a possibilidade de realizar buscas em áreas de risco sem colocar humanos em perigo.

Segundo Kenneally, a aplicação mais promissora não é apenas no combate, mas na vigilância de fronteiras. “Quando falamos de patrulha de fronteira, a mobilidade é tudo. Um robô pode percorrer quilômetros de terreno acidentado sem se cansar, mantendo a cobertura 24/7”, explica. Ele acrescenta que a Ghost já recebeu pedidos de demonstração da Força Expedicionária dos Estados Unidos, de unidades do Corpo de Fuzileiros Navais e de agências de segurança interna.

No contexto brasileiro, o panorama é semelhante: o país possui 8 000 km de fronteira e enfrenta desafios constantes de contrabando, tráfico de drogas e conflitos territoriais. Apesar dos avanços em armamentos, a defesa civil ainda depende majoritariamente de recursos humanos para patrulhamento. A adoção de robôs caninos, portanto, poderia representar um salto tecnológico, reduzindo o risco para agentes de fronteira e melhorando a eficiência operacional.

O investimento público em robótica militar no Brasil tem crescido modestamente nos últimos anos. Em 2023, o orçamento do Ministério da Defesa alocou cerca de R$ 12 bilhões em projetos de tecnologia, dos quais apenas 2 % foram direcionados a sistemas autônomos. Em contraste, os Estados Unidos destinam mais de US$ 60 bilhões ao desenvolvimento de tecnologias de defesa autônoma, incluindo drones, veículos blindados e robôs de quatro patas.

A Ghost Robotics, que já tem parcerias com a Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA) e a Agência de Segurança Nacional dos EUA, tem a experiência necessária para atender às exigências do mercado de defesa global. A empresa utiliza motores de alta precisão e sensores avançados de visão e propriocepção para permitir que seus robôs naveguem com autonomia em ambientes complexos. Em um cenário de guerra urbana, a capacidade de um robô de se mover sem ser visto ou detectado pode ser decisiva.

Além das aplicações militares, a Ghost também explora o setor de segurança pública. Em cidades que enfrentam altos índices de criminalidade, a presença de robôs patrolha pode atuar como dissuasor. Em 2022, a cidade de São Paulo contratou um protótipo de robô canino para testar a viabilidade de patrulha em áreas de risco, resultando em um aumento de 15 % na sensação de segurança entre os moradores.

Os custos iniciais de aquisição de um robô canino podem parecer elevados, mas a Ghost argumenta que o retorno sobre investimento se dá em termos de economia de pessoal, redução de riscos de saúde e eficiência operacional. A empresa oferece modelos customizados, desde versões de 30 kg até unidades de 80 kg com capacidades de carga de até 20 kg, adequadas para transporte de equipamentos de comunicação ou pequenos kits de primeiros socorros.

Especialistas em tecnologia apontam que a adoção de robôs quadrúpede ainda enfrenta desafios regulatórios. Em 2024, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) lançou diretrizes para o uso de robôs em serviços de saúde, e o Conselho Nacional de Defesa (CND) está trabalhando em regulamentações específicas para veículos autônomos militares. No entanto, a tendência é que, em poucos anos, a burocracia se adeque ao ritmo de inovação.

No mercado latino‑americano, a integração de robôs de quatro patas ainda é incipiente, mas há sinais de crescimento. Empresas como a RoboTech da Argentina e a Golemia da Colômbia estão investindo em projetos de locomoção quadrúpede para inspeção de infraestrutura e vigilância de fronteira. O Brasil, com sua extensa área de fronteira e demanda de segurança pública, se posiciona como um potencial parceiro estratégico para a Ghost Robotics.

Para garantir a competitividade, a Ghost tem se concentrado em reduzir o peso e aumentar a eficiência energética de seus robôs. Em 2023, a empresa anunciou um novo motor de 200 W que dobra a autonomia do Apex, permitindo que o robô percorra até 15 km sem recarga. Este avanço, aliado ao uso de baterias de polímero de lítio de alta densidade, abre a possibilidade de missões de campo de longa duração.

Em termos de integração com sistemas existentes, a Ghost oferece APIs que permitem a interconexão com plataformas de gerenciamento de patrulha e drones. Isso facilita a criação de redes de vigilância híbrida, onde robôs quadrúpedes trabalham em conjunto com veículos aéreos e sensores de satélite, proporcionando cobertura total das áreas críticas.

O futuro da robótica de quatro patas parece promissor, mas não sem obstáculos técnicos. A complexidade da percepção sensorial em ambientes urbanos ainda requer avanços em visão computacional e aprendizado profundo. Contudo, os resultados já alcançados pelos protótipos demonstram que a tecnologia está pronta para escalar.

Para os decisores brasileiros, a mensagem fica clara: investir em robôs caninos pode significar uma redução nos custos com patrulha, maior segurança para civis e a possibilidade de posicionar o país como líder em inovação robótica na América Latina. O caminho para essa realidade passa pela colaboração entre governo, academia e setor privado, que deve ser incentivada por políticas de incentivo à pesquisa e desenvolvimento.

À medida que a Ghost Robotics continua a expandir sua linha de robôs, o cenário global de defesa e segurança se torna cada vez mais interconectado. A capacidade de operar em terrenos que antes eram inacessíveis para veículos convencionais abre novas possibilidades estratégicas, que o Brasil pode aproveitar para fortalecer sua soberania e proteger suas fronteiras.

A adoção de robôs de quatro patas representa não apenas uma evolução tecnológica, mas uma nova era de operações de defesa e segurança, onde a mobilidade, a autonomia e a resiliência se unem para proteger vidas e bens. Em um mundo onde o risco e a complexidade crescem a cada dia, a Ghost Robotics oferece uma solução que pode ser a chave para garantir a segurança de nossos territórios e a paz em nossas cidades.

Fonte original

Robohub