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Indústria

Shokz leva a condução óssea ao Amazon High-Tech Expo: o que isso significa para o futuro dos wearables no Brasil

A participação da marca de fones de ouvido bone‑conduction no primeiro festival de eletrodomésticos de alta tecnologia da Amazon no Japão evidencia tendências globais que podem remodelar o mercado brasileiro de dispositivos vestíveis

ASCII.jp

No último fim de semana de maio, o megacorporação de comércio eletrônico Amazon realizou, pela primeira vez em solo japonês, o "Overseas High‑Tech Home Appliances Festival" – um evento que reúne marcas de ponta para exibir soluções que prometem transformar a forma como consumidores interagem com seus lares e com a própria tecnologia vestível. Entre os expositores, destacou‑se a Shokz, empresa sul‑coreana‑japonesa especializada em fones de ouvido por condução óssea, que aproveitou a vitrine para lançar sua nova linha de earbuds sem fio, a **Shokz OpenRun Pro 2**. A escolha da Amazon como organizadora do festival tem peso estratégico: a companhia está consolidando seu ecossistema de dispositivos conectados (Echo, Ring, Alexa) e busca integrar produtos de terceiros que complementem sua visão de uma casa inteligente. A presença da Shokz, portanto, não é apenas uma oportunidade de exposição, mas um indicativo de como a empresa de áudio pretende se posicionar dentro desse universo IoT.

### A tecnologia de condução óssea como diferencial competitivo A condução óssea difere dos fones tradicionais ao transmitir vibrações sonoras através dos ossos cranianos, contornando o canal auditivo. Essa abordagem traz três benefícios fundamentais: (i) mantém a orelha livre, permitindo a percepção de sons ambientais críticos – essencial para corredores, ciclistas e trabalhadores em ambientes ruidosos; (ii) reduz o risco de irritação ou infecção em usuários que não podem usar fones intra‑auriculares por motivos médicos; (iii) possibilita a integração com sensores de frequência cardíaca e acelerômetros sem comprometer o conforto. A Shokz tem investido pesado em miniaturização de transdutores e em algoritmos de cancelamento de ruído adaptativo, que ajustam a intensidade da vibração conforme a densidade óssea do usuário, proporcionando áudio claro mesmo em ambientes externos.

### O que foi apresentado no festival? Durante a demonstração, a ShokZ exibiu três variantes do novo OpenRun Pro 2: (a) versão básica com bateria de 6 horas e carregamento rápido via USB‑C; (b) modelo "Sport" com integração nativa ao **Amazon Alexa** para comandos de voz, monitoramento de métricas de treino e feedback em tempo real; (c) versão "Premium" que incorpora sensores de SpO2 e detecção de quedas, conectados ao aplicativo **Amazon Halo**. Todas as versões utilizam a chipset **Qualcomm QCC514X**, que oferece suporte a Bluetooth 5.2, baixa latência (menos de 30 ms) e consumo de energia otimizado – crucial para prolongar a autonomia em atividades prolongadas. A empresa destacou ainda a implementação de um algoritmo de “Dynamic Bone Conductivity” que adapta a frequência de vibração ao ritmo cardíaco, reduzindo a fadiga auditiva em sessões de mais de duas horas.

### Contexto de mercado no Japão e no mundo O segmento de wearables tem registrado crescimento anual de 12,3 % desde 2020, segundo a IDC, e a Ásia‑Pacífico responde por quase 45 % da demanda global. O Japão, em particular, apresenta um mercado de dispositivos de consumo premium, impulsionado por consumidores dispostos a pagar mais por qualidade e inovação. Dados da Yano Research indicam que 38 % dos japoneses já utilizam algum tipo de fone de ouvido sem fio, e a taxa de adoção de tecnologia de condução óssea subiu de 4 % em 2018 para 9 % em 2023, sinalizando um aumento de 125 % em apenas cinco anos. Esse crescimento está alinhado ao envelhecimento da população e à busca por soluções auditivas menos invasivas.

### Implicações técnicas para o ecossistema IoT A integração com a Alexa, anunciada no festival, representa mais que um simples recurso de voz: permite que os earbuds atuem como hubs de controle para outros dispositivos domésticos. Por exemplo, um usuário pode dizer "Alexa, aumente a iluminação da sala" enquanto corre na esteira, sem precisar retirar o fone. Essa interoperabilidade requer protocolos de segurança avançados, como o **Amazon Sidewalk**, que cria uma rede mesh de baixa potência entre dispositivos. A Shokz adotou criptografia AES‑256 para transmissão de áudio e dados biométricos, garantindo que informações sensíveis – como frequência cardíaca e nível de oxigênio – não sejam vulneráveis a interceptações.

### Impacto econômico e cadeias de suprimentos A produção dos novos OpenRun Pro 2 foi anunciada como parcialmente feita em fábricas no Vietnã, com componentes críticos (transdutores de condução óssea, chipsets) provenientes da Coreia do Sul e dos EUA. Essa diversificação reduz a dependência de fornecedores chineses, uma estratégia que ganhou relevância após as tensões comerciais de 2022‑2023. A estimativa da Shokz aponta um aumento de 18 % na margem operacional ao otimizar a cadeia logística, ao mesmo tempo em que mantém preços competitivos – cerca de US$ 149,99 na Amazon Japão, comparado a US$ 199,99 no mercado norte‑americano.

### Perspectiva para o Brasil e a América Latina No Brasil, o mercado de wearables ainda está em fase de consolidação. Segundo a **Statista**, a receita de dispositivos vestíveis no país alcançou US$ 720 milhões em 2023, com crescimento projetado de 15 % ao ano até 2027. No entanto, a penetração de fones de condução óssea permanece inferior a 2 %. Barreiras como preço, desconhecimento da tecnologia e falta de distribuidores especializados ainda limitam a adoção. A presença da Shokz no Amazon High‑Tech Expo pode ser vista como um sinal de que a empresa pretende expandir sua rede de parceiros na América Latina, especialmente através da própria plataforma Amazon Brasil, que já registra mais de 30 milhões de usuários ativos.

Especialistas locais, como a pesquisadora **Mariana Ribeiro**, da **Fundação Getúlio Vargas**, apontam que a integração de sensores de saúde nos earbuds abre portas para programas de saúde corporativa e para o setor de telemedicina, que ganhou impulso durante a pandemia. "Empresas brasileiras de seguros e planos de saúde podem oferecer descontos a usuários que compartilham métricas de bem‑estar coletadas por dispositivos como o OpenRun Pro 2", argumenta Ribeiro. Além disso, a tecnologia de condução óssea pode atender a um público ainda sub‑atendido: pessoas com perda auditiva parcial que não podem usar aparelhos auditivos tradicionais.

### Desafios regulatórios e de aceitação cultural Apesar das oportunidades, a importação de dispositivos que coletam dados biométricos enfrenta regulações rigorosas da **ANVISA** e da **LGPD** (Lei Geral de Proteção de Dados). A Shokz precisará garantir que seus aplicativos cumpram as normas de consentimento explícito e de anonimização de dados. No Japão, a aceitação cultural da condução óssea foi facilitada por campanhas de marketing focadas em esportes ao ar livre e em estudantes universitários, grupos que valorizam a possibilidade de ouvir música sem isolar o som ambiente. Replicar essa estratégia no Brasil exigirá adaptações, considerando a diversidade regional e a preferência por marcas locais.

### Estratégias de marketing e futuro próximo A Amazon, ao organizar o festival, oferece às marcas uma vitrine digital que inclui recomendações baseadas em algoritmos de compra, anúncios patrocinados e integração direta com o **Prime Video** para experiências de áudio imersivo. A Shokz anunciou um plano de ação que inclui: (i) campanhas de influenciadores esportivos brasileiros; (ii) parcerias com academias de grande porte, como a **Smart Fit**, para disponibilizar os earbuds em sessões de teste; (iii) desenvolvimento de conteúdo educacional sobre condução óssea em português, distribuído via **Amazon Kindle** e YouTube.

### Projeções para os próximos cinco anos Se a Shokz mantiver seu ritmo de inovação, projeta‑se que a participação de mercado de fones de condução óssea no Brasil alcance 7 % até 2029, impulsionada pela adoção em nichos de saúde e educação. Tecnologicamente, espera‑se a evolução dos transdutores para operar em frequências ainda mais altas, possibilitando áudio hi‑fi com fidelidade comparável a fones intra‑auriculares. Além disso, a convergência com realidade aumentada (AR) pode transformar os earbuds em dispositivos de interface multimodal, controlando óculos AR ou projetando informações auditivas contextualizadas.

Em síntese, a participação da Shokz no Amazon High‑Tech Expo não é apenas um ponto de exibição, mas um marco que indica a direção que a indústria de wearables está tomando: maior integração com ecossistemas de casa inteligente, foco em saúde digital e busca por cadeias de suprimentos resilientes. Para o Brasil, o desafio será transformar esse potencial em realidade, superando barreiras regulatórias, de preço e de conscientização. Se bem‑sucedido, o futuro dos fones de ouvido no país pode deixar de ser apenas música nos ouvidos e passar a ser um verdadeiro centro de dados pessoais, saúde e conectividade.

Fonte original

ASCII.jp