Sunsat atualiza sistema core depois de 50 anos: desafios e lições
O gigante de bens de consumo enfrenta atrasos, falhas de dados e destaca a importância da visibilidade operacional na modernização tecnológica

A Sunsat, uma das principais fabricantes de bens de consumo no Japão, está passando por uma transformação digital que tem como foco a modernização de seu sistema de gestão empresarial (ERP) que serviu a companhia por mais de cinquenta anos. O projeto, que ainda está em fase de execução, já atingiu cerca de 67 % da implementação no território nacional, mas não foi isento de obstáculos que demonstram a complexidade de migrar sistemas legados em ambientes corporativos de grande porte.
### A urgência da mudança Para entender o porquê de uma empresa que há cinco décadas utiliza o mesmo core system decidir se reinventar, é preciso contextualizar a evolução dos mercados de bens de consumo. No Japão, a concorrência tem se intensificado com a entrada de marcas globais e o aumento das expectativas dos consumidores por rapidez e transparência. Ao mesmo tempo, os padrões de compliance e regulamentos contábeis se tornaram mais rigorosos, exigindo processos de auditoria mais ágeis e precisos.
A Sunsat percebeu que, embora seu sistema legado fosse robusto, ele se tornou um gargalo para a inovação: a complexidade de integração com sistemas de produção, a falta de interface amigável para os usuários de campo e a dificuldade de gerar relatórios em tempo real tornavam a empresa menos competitiva. Assim, a decisão de atualizar o ERP se deu não apenas por questões técnicas, mas também por necessidade estratégica.
### O escopo da modernização O projeto contempla a migração de três módulos críticos: produção, vendas e contabilidade. A produção engloba a rastreabilidade de matérias‑primas e a otimização de linhas de montagem; o módulo de vendas controla pedidos, logística e relacionamento com varejistas; enquanto a contabilidade, que já havia sido atualizada em 2007, era o único segmento com documentação de processos bem estruturada.
Em 2024, a Sunsat já havia concluído a fase de migração dos sistemas de produção e contabilidade em 60 % do território doméstico, mas a parte de vendas apresentou maiores desafios. A complexidade dos fluxos de trabalho, a integração com parceiros de distribuição e a necessidade de manter a operação sem interrupções levaram a dois adiamentos do lançamento.
### Problemas de dados e a lição da visibilidade Um dos pontos mais críticos identificados foi a perda de integridade de dados durante a transição. Devido à longa história de pequenas modificações e patches que foram aplicados ao sistema antigo, a equipe de TI não conseguiu mapear de forma completa o fluxo de dados entre as áreas. Isso resultou em lacunas que, após a migração, foram detectadas como inconsistências de estoque, faturamento e reconcilição bancária.
Para mitigar esses riscos, a Sunsat implantou um processo de “data validation” que envolve a comparação de registros históricos com os novos formatos de banco de dados, bem como a utilização de ferramentas de ETL (Extract, Transform, Load) que garantem a conformidade dos dados migrados. Contudo, o esforço adicional de correção de erros acabou atrasando ainda mais a liberação do módulo de vendas.
Este episódio evidencia a importância da visibilidade operacional: ter documentação clara e processos de auditoria internos permite que a organização identifique gargalos antes de que eles se traduzam em prejuízos financeiros ou na perda de confiança dos parceiros.
### Impactos econômicos e operacionais O atraso de duas vezes no lançamento do módulo de vendas gerou um impacto financeiro estimado em cerca de 12 % de aumento de custos de oportunidade para a Sunsat. Isso inclui o custo de mão‑de‑obra adicional, a perda de receita potencial e o custo de manutenção de sistemas paralelos.
Além disso, a necessidade de manter operações de produção e contabilidade em paralelo com a nova plataforma gerou um aumento de 8 % na carga de trabalho dos departamentos de TI, exigindo contratações pontuais de especialistas em migração de dados.
O cenário brasileiro, que tem experimentado um aumento de iniciativas de modernização de ERPs, pode se inspirar na experiência da Sunsat. Empresas como a Ambev, que migrou para o SAP S/4HANA, enfrentaram desafios semelhantes de migração de dados e visibilidade de processos, mas conseguiram reduzir os custos de oportunidade ao manter uma equipe dedicada de gerenciamento de mudanças e a utilização de metodologias ágeis para a transição.
### Perspectiva latina: o que o Brasil pode aprender Para o Brasil, a história da Sunsat reforça a necessidade de três pilares para a modernização de sistemas legados:
1. **Governança de dados** – a criação de um Data Governance Council que assegure a qualidade e consistência das informações ao longo da transição. 2. **Documentação de processos** – a padronização de fluxos de trabalho em formatos visuais (por exemplo, diagramas BPMN) que facilitam a compreensão por parte de todos os stakeholders. 3. **Testes iterativos** – a utilização de ambientes de sandbox que permitam testes em lote antes da produção, reduzindo riscos de falhas.
Empresas brasileiras que planejam atualizar seus sistemas devem considerar a contratação de consultorias especializadas em migração de dados, bem como a adoção de plataformas de integração de dados que ofereçam recursos de rastreamento de linha de código e auditabilidade.
### Conclusão: o futuro da modernização A jornada da Sunsat mostra que, embora a atualização de sistemas legados seja tecnicamente possível, seu sucesso depende fortemente da cultura organizacional e da qualidade da governança de dados. A visibilidade operacional, que envolve a documentação de processos e a gestão transparente de mudanças, emerge como um fator decisivo.
No contexto global, a tendência é que empresas de setores industriais e de bens de consumo continuem investindo em soluções baseadas em nuvem e IA, que proporcionam maior agilidade e insights preditivos. No entanto, a base para essa transição está em uma migração cuidadosa dos dados e em processos robustos de governança.
Para o Brasil, a lição é clara: modernizar não é apenas trocar tecnologia, mas transformar a forma como a organização coleta, valida e utiliza a informação, garantindo que cada passo seja acompanhado e controlado. Somente com esse alinhamento será possível garantir que as empresas possam competir em cenários cada vez mais complexos e exigentes.
Fonte original
Nikkei xTECH

