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Indústria

TBM e Sotas firmam acordo para acelerar a química verde no Japão e criar novo mercado de GX Chemicals

Parceria estratégica visa transformar a indústria química japonesa rumo à descarbonização, alinhada às metas de neutralidade de carbono 2050

ASCII.jp

<p>Em um movimento que reforça o comprometimento do Japão com a transição energética, a TBM Co., Ltd. e a startup Sotas Inc. anunciaram, na última segunda‑feira, a assinatura de um acordo básico que tem como objetivo acelerar a implementação social e a criação de mercado para os chamados GX Chemicals – produtos químicos desenvolvidos sob os princípios da "Green Transformation". O pacto, firmado em Tóquio, marca o início de uma colaboração que combina a expertise de produção de escala da TBM com a capacidade inovadora da Sotas em tecnologias de captura e reutilização de carbono.</p><p>A escolha do termo GX (Green Transformation) não é casual. No Japão, o governo definiu a estratégia GX como o conjunto de políticas que visam reduzir as emissões de gases de efeito estufa em setores críticos, como energia, mobilidade e indústria química. O Ministério da Economia, Comércio e Indústria (METI) estima que a química responda por cerca de 19% das emissões industriais do país, o que a coloca como um dos maiores obstáculos para alcançar a neutralidade de carbono até 2050. Assim, a criação de um mercado de GX Chemicals representa não apenas uma oportunidade de negócio, mas um elemento-chave da agenda climática nacional.</p><p>TBM, fundada em 1978, consolidou-se como uma das maiores fabricantes de polímeros e intermediários químicos no Japão, com capacidade instalada de mais de 1,5 milhão de toneladas por ano. A empresa tem investido nos últimos cinco anos em processos de produção mais limpos, como a utilização de energia renovável em seus parques industriais de Kansai e a substituição de solventes clorados por alternativas baseadas em água. Já a Sotas, criada em 2016 por um grupo de pesquisadores da Universidade de Tóquio, concentra‑se em tecnologias de captura direta de CO₂ (DAC) e sua conversão em matérias‑primas químicas de alto valor agregado, como metanol, etileno e polímeros biodegradáveis.</p><p>O acordo básico, que ainda será detalhado em contratos operacionais nos próximos 12 meses, estabelece três pilares estratégicos. Primeiro, o desenvolvimento conjunto de rotas químicas que utilizem CO₂ capturado como matéria‑prima, reduzindo a dependência de hidrocarbonetos fósseis. Segundo, a construção de unidades piloto de produção em Osaka e Nagoya, que servirão de vitrine para investidores e reguladores. Terceiro, a criação de um ecossistema de parceiros – fornecedores de energia renovável, empresas de logística verde e institutos de pesquisa – para garantir que a cadeia de valor completa seja sustentada por práticas de baixa emissão.</p><p>Do ponto de vista técnico, a iniciativa traz à tona duas tecnologias de ponta que podem redefinir a indústria química. A primeira é a eletroquímica de redução de CO₂, que converte o gás em compostos como ácido fórmico ou etanol usando eletricidade proveniente de fontes renováveis. Segundo, a catalisação biológica baseada em microrganismos modificados geneticamente, capazes de transformar CO₂ em monômeros de ácidos graxos que, por sua vez, podem ser polimerizados em plásticos compostáveis. Ambas as abordagens foram demonstradas em laboratório pela Sotas, que já registrou patentes em 12 países, inclusive no Brasil.</p><p>Especialistas apontam que o sucesso da parceria depende de três variáveis críticas: custo da eletricidade verde, disponibilidade de captura de CO₂ em escala industrial e aceitação regulatória dos novos produtos. Segundo o relatório da BloombergNEF de 2023, o preço médio da eletricidade renovável no Japão já está abaixo de US$ 0,07/kWh, um patamar competitivo para processos eletroquímicos. Entretanto, a captura direta de CO₂ ainda apresenta custos que variam entre US$ 100 e US$ 200 por tonelada, muito acima dos níveis de viabilidade econômica sem subsídios ou créditos de carbono.</p><p>Para contornar essa barreira, o governo japonês lançou em 2022 o “Carbon Credit Incentive Scheme”, que oferece até 30% de subsídio para projetos de captura e reutilização de CO₂ que atendam a critérios de eficiência e escalabilidade. A TBM e a Sotas já indicaram que pretendem se inscrever no programa, o que pode reduzir significativamente o custo de produção dos primeiros lotes de GX Chemicals. Além disso, a parceria buscará certificação de sustentabilidade junto à International Organization for Standardization (ISO) 14044, que garante que o ciclo de vida dos produtos tenha impactos reduzidos em todas as etapas.</p><p>O impacto econômico esperado é expressivo. A consultoria McKinsey projeta que, até 2035, o mercado global de produtos químicos verdes pode atingir US$ 250 bilhões, crescendo a uma taxa anual composta (CAGR) de 12%. No Japão, a participação desse segmento pode alcançar US$ 30 bilhões, representando cerca de 5% da produção total da indústria química nacional. A TBM, ao alavancar sua capacidade de produção, poderia captar até 20% desse volume, gerando receitas adicionais de aproximadamente US$ 6 bilhões ao longo da próxima década.</p><p>Do ponto de vista geopolítico, a iniciativa reforça a estratégia do Japão de reduzir a dependência de matérias‑primas importadas, sobretudo do Oriente Médio. Atualmente, cerca de 70% dos insumos de base da indústria química japonesa são importados como petróleo e gás natural. Ao substituir parte desses insumos por CO₂ capturado localmente – seja em instalações industriais, seja em projetos de captura em larga escala – o país fortalece sua segurança energética e diminui vulnerabilidades a choques de preço no mercado internacional.</p><p>Para a América Latina, e especialmente para o Brasil, a parceria TBM‑Sotas abre portas para cooperação tecnológica e comercial. O Brasil possui abundante potencial de energia renovável – solar e eólica – que pode ser utilizada para gerar a eletricidade necessária aos processos eletroquímicos de redução de CO₂. Além disso, o país tem avançado na captura de CO₂ em usinas de bioenergia, como os projetos de captura em usinas de etanol de cana‑de‑açúcar. Essa combinação de recursos pode tornar o Brasil um fornecedor de CO₂ “verde” para as fábricas japonesas, bem como um mercado consumidor de plásticos biodegradáveis produzidos a partir de GX Chemicals.</p><p>Empresas brasileiras já demonstraram interesse. A Braskem, maior petroquímica da América Latina, anunciou em 2023 um plano de investimento de US$ 1,5 bilhão para desenvolver polímeros de base biológica, e tem buscado parceiros tecnológicos no Japão. Segundo o diretor de Inovação da Braskem, Dr. Carlos Eduardo Silva, “a expertise japonesa em catalisadores e a nossa capacidade de produção de matéria‑prima renovável podem gerar sinergias únicas para criar uma cadeia de valor verdadeiramente sustentável”.</p><p>Além das oportunidades comerciais, a colaboração pode influenciar políticas públicas. O Ministério da Economia do Brasil tem divulgado a Estratégia Nacional de Hidrogênio Verde, que inclui metas de produção de hidrogênio a partir de energia renovável até 2030. A integração de projetos de hidrogênio com a produção de GX Chemicals poderia criar um hub de química verde binacional, facilitando o intercâmbio de know‑how, investimentos e créditos de carbono.</p><p>Entretanto, desafios permanecem. A logística de transporte de CO₂ capturado entre continentes ainda é cara, e requer infraestrutura de compressão e transporte que ainda está em fase de desenvolvimento. Também há a necessidade de criar normas internacionais que reconheçam a origem “verde” dos produtos químicos, de modo a garantir que consumidores e reguladores possam rastrear a pegada de carbono ao longo da cadeia de suprimentos.</p><p>Em síntese, o acordo entre TBM e Sotas simboliza uma nova fase da indústria química, onde a inovação tecnológica se entrelaça com estratégias de descarbonização e criação de valor de mercado. O sucesso da parceria dependerá da capacidade de reduzir custos operacionais, de obter apoio regulatório e de integrar a cadeia de valor global. Caso esses fatores se alinhem, o Japão poderá liderar a produção de GX Chemicals, ao mesmo tempo em que abre caminho para colaborações estratégicas com a América Latina, impulsionando uma transição verde mais rápida e economicamente viável.</p><p>O futuro aponta para um cenário em que plásticos, fertilizantes e outros produtos químicos essenciais serão fabricados a partir de CO₂ reciclado, reduzindo drasticamente a dependência de combustíveis fósseis. A iniciativa TBM‑Sotas pode, assim, tornar‑se um modelo replicável para outras economias avançadas e emergentes, sinalizando que a química verde já não é mais uma promessa distante, mas uma realidade em construção.</p>

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ASCII.jp