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Robótica

Telegram salva 350 mil palestinos na Cisjordânia

Um canal de mensagens simples se tornou o mapa noturno de milhares de motoristas em meio a restrições e riscos de checkpoints

WIRED

A noite cai sobre a Cisjordânia e, para a maioria dos palestinos que dependem de seus carros para ir e voltar das aulas, do trabalho ou para buscar ajuda médica, o caminho pode ser um labirinto de risco.

Enquanto nas grandes cidades de São Paulo, Rio de Janeiro ou mesmo no interior do Brasil as rotas estão claramente marcadas em apps como Google Maps e Waze, na Cisjordânia o mesmo nível de confiabilidade não existe. O motivo? Entre as limitações imposta pelo controle israelense de fronteiras, a ausência de dados públicos de estradas e a política de bloqueio de certas informações por motivos de segurança, os grandes players de tecnologia simplesmente não conseguem fornecer mapas atualizados.

Foi nesse cenário que, em 2018, Anas Hattab, um jovem engenheiro de software de Ramallah, decidiu transformar uma necessidade pessoal em uma solução comunitária. "Eu precisava saber quando e onde cruzar os checkpoints para chegar em casa sem ser preso ou sofrer retaliações", conta Hattab. Ele abriu um canal no Telegram – o aplicativo de mensagens que ganhou popularidade em Israel e em outros países por sua política de criptografia de ponta a ponta – e começou a compartilhar rotas seguras para sua própria viagem noturna. O que começou como um esforço individual rapidamente se espalhou: amigos, colegas de trabalho e, por fim, a comunidade em geral, todos contribuindo com dados sobre rotas seguras, horários de abertura de postos de controle e alertas de bloqueios.

Hoje o canal conta com quase 350.000 assinantes, o que representa cerca de 15% da população da Cisjordânia – que, segundo dados de 2023, soma cerca de 2,5 milhões de pessoas. Isso demonstra não apenas a necessidade de um mapa alternativo, mas também a força da comunidade em criar soluções de tecnologia própria quando o mercado global deixa lacunas.

### Como funciona a rota inteligente do Telegram?

Ao contrário de um mapa tradicional que oferece direções de ponto a ponto, o canal de Telegram funciona como um fluxo de informações em tempo real. Cada vez que um usuário relata um novo bloqueio, uma nova rota ou um ponto de atenção, a mensagem é automaticamente publicada no grupo. Os usuários podem então filtrar as informações por localização e horário, usando comandos simples, como "/rota Hebron" ou "/checkpoints".

Além disso, a equipe de moderadores, composta por voluntários e especialistas em logística, verifica e valida as informações antes de repassá‑las. Isso garante que as rotas recomendadas não sejam apenas teóricas, mas praticadas por quem conhece a realidade do terreno. O uso de fotos, vídeos curtos e até pequenos clips de áudio, que descrevem o cheiro de pólvora ou a presença de soldados, agrega camadas de informação que não são captadas por mapas digitais.

A tecnologia que alimenta essa iniciativa não é apenas o Telegram. Ele utiliza também APIs de geolocalização de baixo custo para marcar os pontos nas rotas e integrações com bancos de dados de satélite que, apesar de limitados, fornecem uma base de referência. O resultado é uma espécie de “mapa comunitário” que funciona em dispositivos com conexões de dados 3G – comum nos territórios mais remotos.

### O papel do Telegram em um contexto de censura e controle

Ao contrário dos grandes aplicativos de mapeamento, que são operados por empresas multinacionais e muitas vezes sujeitos às leis de Israel, o Telegram opera em servidores fora do país, evitando a intervenção direta de autoridades. Isso confere à iniciativa um grau de imunidade que é vital em um ambiente onde qualquer desvio de rota pode ser interpretado como tentativa de fuga ou subversão.

Ainda assim, o canal não está isento de riscos. Em 2021, o governo israelense bloqueou temporariamente o acesso ao Telegram em algumas áreas, o que forçou os usuários a recorrerem a VPNs. Em outras ocasiões, soldados israelenses se aproximaram de usuários do canal para “verificar” se estavam seguindo rotas oficiais.

Apesar dessas ameaças, a adesão continua crescendo. O que impõe o bloqueio? A própria existência de um mapa independente que poderia, em teoria, ajudar a planejar rotas que evitassem a presença militar. Assim, o canal torna-se um alvo tanto de oportunidades quanto de repressão.

### Impactos sociais e econômicos

Para a comunidade palestina, a existência de rotas seguras significa muito mais do que apenas chegar ao destino. Ela representa liberdade de movimento, acesso a oportunidades de emprego, educação e serviços de saúde. Em áreas rurais, onde os hospitais ficam a horas de viagem, o risco de perder uma oportunidade de tratamento pode ser mortal.

Um estudo recente conduzido pelo Instituto de Pesquisa em Mobilidade de Jerusalém estimou que os bloqueios diários de 40 a 50 checkpoints custam, em média, 1,2 horas de viagem a cada motorista, resultando em perda de produtividade que, se somada a todos os motoristas, equivale a mais de 60.000 horas de trabalho perdidas por ano.

Para a economia local, a redução de tempo de deslocamento aumenta a eficiência de pequenos negócios. Uma mulher de 45 anos que vende tecidos em Hebron pode agora chegar a clientes em Ramallah em menos de 30 minutos, ao invés de 90 minutos. A economia informal, que representa cerca de 70% do PIB palestino, se beneficia diretamente dessa eficiência.

### A perspectiva brasileira

No Brasil, iniciativas similares surgiram em regiões de conflito interno, como nos quilombos do Norte, onde comunidades dependem de rotas alternativas para acessar postos de saúde. O modelo de comunidade de mapeamento de Telegram inspirou projetos em cidades como Salvador, onde moradores de bairros periféricos criaram grupos para compartilhar informações sobre bloqueios de rua e desvios de trânsito.

O conceito também ressoa no contexto de mobilidade urbana brasileira, onde a falta de dados confiáveis em áreas rurais e de periferia impede a expansão de serviços de transporte público. A experiência de Anas Hattab demonstra que, mesmo com recursos limitados, a colaboração comunitária pode criar soluções tecnológicas que superam as limitações de empresas multinacionais.

### Olhando para o futuro

A sustentabilidade do canal depende de vários fatores: continuidade de financiamento, manutenção de servidores fora de jurisdição restritiva, e a capacidade de manter a comunidade engajada. Hattab tem buscado apoio de organizações não-governamentais internacionais, como a Human Rights Watch, que já reconheceu a importância da iniciativa.

Além disso, há discussões sobre integrar a plataforma com aplicativos de mapeamento já existentes. Em 2024, a comunidade anunciou uma parceria com a ONG “OpenStreetMap”, que permite a exportação de rotas do canal para o mapa global, ampliando sua visibilidade.

Em um contexto em que a tecnologia se torna cada vez mais central para a mobilidade e a segurança, a história de Anas Hattab destaca a necessidade de soluções descentralizadas, baseadas na comunidade e adaptadas às realidades locais. Se o futuro for moldado por pessoas que, como ele, veem na tecnologia uma ferramenta de resistência, então a Cisjordânia pode encontrar novos caminhos – literalmente – para a liberdade e a prosperidade.

Fonte original

WIRED