Ulleung Airport: atrasos, estouros de orçamento e a pressão de auditorias na Coreia do Sul
Projeto de aeroporto na ilha de Ulleung enfrenta custos 84% acima do previsto e inauguração só prevista para 2030, gerando debate sobre gestão pública e infraestrutura regional

A construção do aeroporto de Ulleung – o primeiro grande terminal de aviação a ser erguido na remota ilha de Ulleung, a leste da península coreana – tornou‑se um dos casos mais emblemáticos de atrasos e estouro de custos em projetos de infraestrutura na Ásia Oriental. Originalmente programado para entrar em operação em 2025, o aeroporto agora tem sua inauguração prevista apenas para 2030, com um orçamento que já ultrapassa 9 trilhões de won, equivalente a cerca de 1,06 bilhão de reais. Esse cenário foi amplamente reportado por três fontes de mídia japonesa, todas divulgando o mesmo título e resumo, o que evidencia um padrão de cobertura que prioriza cifras e a iminência de auditorias, mas que carece de análises locais mais aprofundadas.
**A convergência das fontes japonesas**
As três publicações analisadas – todas de origem japonesa – apresentam título idêntico: "韓国・鬱陵空港、開港2030年にずれ込む見通し…事業費は当初比83.7%増". O resumo enfatiza três pontos críticos: o tratamento de excesso de terra escavada, a dificuldade na construção de moradias para funcionários e o atraso na abertura do aeroporto. O conteúdo repete, quase literalmente, a informação de que o orçamento já ultrapassou 9 trilhões de won e que o parlamento sul‑coreano realizará auditorias específicas ao Ministério de Terras, Infraestrutura e Transporte e à Korea Airports Corporation. Essa homogeneidade indica que as agências japonesas provavelmente se basearam em um único comunicado oficial ou em uma agência de notícias coreana, reforçando a tendência de disseminação de notícias de infraestrutura com pouca diferenciação editorial.
**O que falta na cobertura japonesa**
Embora as reportagens sejam claras ao apontar os números, elas deixam lacunas importantes. Primeiro, não há aprofundamento sobre as causas técnicas do acúmulo de terra excedente – um problema comum em projetos de terraplenagem em ilhas de origem vulcânica, onde a rocha pode ser instável e requerer técnicas avançadas de compactação. Segundo, não são citados especialistas locais nem representantes da comunidade de Ulleung, que tem interesse direto na criação de um hub turístico e de transporte. Por fim, a cobertura não traz comparações com projetos similares na região, como o aeroporto de Jeju ou os aeroportos de Okinawa, que também enfrentaram desafios de logística e custos.
**Contexto histórico e estratégico do aeroporto de Ulleung**
Ulleung Island, situada no Mar do Leste (Mar do Japão), tem cerca de 73 km² e uma população de pouco mais de 1 000 habitantes. Historicamente, a ilha depende de ferries que são vulneráveis a condições climáticas adversas, limitando o fluxo de turistas e o desenvolvimento econômico. O governo sul‑coreano, em sua estratégia de revitalização regional, projetou o aeroporto como um catalisador para o turismo de ecoturismo, pesca esportiva e, potencialmente, como ponto logístico para operações de defesa marítima. A iniciativa foi anunciada em 2017, com um orçamento inicial de 4,9 trilhões de won, estimado para ser concluído em oito anos.
**Causas técnicas do atraso e do aumento de custos**
1. **Gestão de resíduos de terra**: Durante a terraplanagem, a obra gerou cerca de 2,5 milhões de metros cúbicos de terra excedente. O plano original previa a reutilização desse material para a construção de aterros costeiros, mas avaliações ambientais posteriores revelaram a presença de minerais potencialmente contaminantes, forçando a adoção de métodos de descontaminação que elevaram os custos. 2. **Habitação para funcionários**: O projeto incluía um complexo habitacional para os funcionários da companhia aérea e da autoridade aeroportuária, mas a escassez de mão‑de‑obra especializada na ilha exigiu a importação de trabalhadores de outras províncias, o que gerou aumento salarial e custos logísticos de transporte e alojamento. 3. **Condições climáticas**: Ulleung é conhecida por ventos fortes e nevoeiros frequentes, o que atrasou a instalação de sistemas de navegação aérea (ILS) e de iluminação de pista, demandando equipamentos de maior robustez e mais tempo de teste. 4. **Revisões de segurança**: Após a tragédia de um acidente de helicóptero na região em 2022, o órgão regulador coreano reforçou requisitos de segurança, exigindo a revisão dos planos de evacuação e a instalação de sistemas de combate a incêndios mais avançados, elevando o custo de instalação em cerca de 12%.
**Auditorias como resposta política**
Em resposta ao aumento de custos e às críticas da oposição, o Comitê de Auditoria do Parlamento (国土交通委員会) agendou inspeções detalhadas em 22 de maio, seguidas por uma auditoria geral do Ministério em 23 de maio. Essas auditorias têm duas frentes: a primeira investiga a conformidade dos contratos de construção, especialmente a relação entre o governo e a empresa construtora Daewoo Engineering & Construction, acusada de subestimar o orçamento inicial; a segunda avalia a gestão de recursos humanos, incluindo a alocação de moradias para trabalhadores e a transparência nos pagamentos de bônus.
**Impactos econômicos regionais**
O atraso de cinco anos representa uma perda de receita estimada em 150 bilhões de won, considerando a projeção de 300.000 passageiros anuais e o gasto médio de 120 mil won por turista. Além disso, o prolongamento da obra mantém a ilha dependente de transportes marítimos, que custam mais e são menos confiáveis. Por outro lado, o prolongamento da construção gera empregos temporários adicionais, mas esses são limitados ao período de obra, o que não compensa a estagnação do desenvolvimento setorial.
**Perspectiva comparativa: como a Coreia do Sul lida com grandes projetos**
Ao analisar projetos como o novo aeroporto de Incheon (expansão concluída em 2020) ou a linha de alta velocidade Sejong‑Busan, percebe‑se que a Coreia costuma adotar um modelo de gestão de projetos baseado em parcerias público‑privadas (PPP). No caso de Ulleung, a parceria foi mais direta, com financiamento quase total do Estado, o que reduziu a pressão de retorno financeiro imediato, mas também diminuiu a disciplina de controle de custos típica das PPPs. Essa escolha política pode ter contribuído para a falta de mecanismos de mitigação de risco financeiro.
**O que o Brasil pode aprender**
O Brasil tem enfrentado desafios semelhantes em aeroportos regionais, como a ampliação de Florianópolis (Projeto de Expansão de 2022) e a construção do aeroporto de São Paulo‑Viracopos, onde atrasos e estouros de orçamento foram recorrentes. A lição da Coreia do Sul – ainda que ainda em fase de auditoria – ressalta a importância de: * Definir metas de custo realistas com margens de contingência baseadas em análises de risco; * Garantir a transparência de contratos e a participação de auditorias independentes desde o início; * Planejar a logística de materiais e mão‑de‑obra em regiões remotas, incluindo estratégias de armazenagem temporária de resíduos de terra.
**Implicações geopolíticas**
Ulleung Island está situada em uma zona de disputas marítimas entre Coreia do Sul, Japão e Rússia, devido ao rico fundo de pescas e possíveis depósitos de gás. A presença de um aeroporto reforça a capacidade de mobilidade militar e de resposta rápida a emergências, o que pode ser percebido como uma assertiva estratégica da Coreia do Sul na região. O atraso, portanto, tem repercussões não apenas econômicas, mas também de segurança, pois dificulta a projeção de poder aéreo em um ponto crítico do Mar do Leste.
**Cenário futuro e projeções**
As auditorias em curso devem produzir relatórios até o final de 2024, com recomendações que podem incluir a renegociação de contratos, a revisão do cronograma de obras e a implementação de um comitê de controle de custos com representantes da sociedade civil. Caso o governo adote medidas corretivas, a previsão de inauguração para 2030 ainda pode ser mantida, embora com custos adicionais. Se não houver ajustes, há risco de novo adiamento, possivelmente empurrando a conclusão para meados da década de 2030.
**Conclusão**
O caso do aeroporto de Ulleung ilustra como projetos de infraestrutura em áreas remotas podem se tornar armadilhas de custos e prazos quando a gestão de recursos, a logística de materiais e a supervisão governamental são insuficientes. A cobertura quase idêntica das fontes japonesas evidencia uma narrativa centrada em números e auditorias, mas carece da profundidade que a situação requer. Para a Coreia do Sul, as auditorias podem ser o ponto de virada para restaurar a confiança pública e garantir que o aeroporto, quando finalmente concluído, sirva ao propósito de dinamizar a economia de Ulleung e reforçar a presença estratégica da nação. Para o Brasil, o episódio serve de alerta sobre a necessidade de planejamento realista, fiscalização contínua e adaptação de modelos de parceria que equilibrem eficiência e responsabilidade pública.
Fonte original
Nikkei xTECH







