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US Data Centers Poised to Match Mexico’s Entire Carbon Footprint by 2030

O crescimento explosivo das infraestruturas de TI dos Estados Unidos pode igualar, em emissões de CO₂, o consumo total da América Latina em menos de uma década

Tom's Hardware

O crescimento sem precedentes dos data centers norte‑americanos tem o potencial de transformar o panorama das emissões de carbono no mundo. Em um relatório divulgado recentemente pelo Sierra Club – uma das organizações ambientais mais antigas do país – estima‑se que, em 2030, a expansão de infraestruturas de TI nos Estados Unidos poderá gerar em emissões de dióxido de carbono a mesma quantidade produzida por todo o México. O número não é apenas chocante; ele reflete a interseção crítica entre tecnologia, energia e política ambiental.

Para compreender a magnitude dessa projeção, é preciso olhar o ritmo de crescimento do setor. Em 2021, a América do Norte hospedou mais de 13.000 data centers, empregando cerca de 120.000 profissionais. A taxa de crescimento anual composta (CAGR) entre 2015 e 2025 já ultrapassou 25 %, impulsionada pela adoção de nuvem, inteligência artificial e streaming de vídeo. Cada novo centro, de tamanho médio (entre 10 000 m² e 50 000 m²), requer mais de 1,5 GW de energia elétrica durante sua operação plena.

O consumo de energia é, portanto, o vetor principal da emissão de carbono. De acordo com a Energy Information Administration (EIA), a matriz elétrica norte‑americana em 2022 consumiu cerca de 4,1 exa­joules (EJ), dos quais 35 % provêm de fontes não renováveis, principalmente gás natural e carvão. Se um data center consome 1,5 GW durante 8 000 horas por ano, ele utiliza 12 TJ (≈ 3,3 GWh) anualmente – quase o equivalente ao consumo de 200 residências americanas. Multiplicando esse consumo por 1 000 centros, chega‑se a 12 PJ de energia, o que corresponde a quase 2 % do total energético dos EUA.

O fator emissor do mix elétrico norte‑americano, medido em 0,45 kg CO₂/kWh, resulta em 5,9 milhões de toneladas de CO₂ por centro anualmente. Se extrapolarmos para 1 000 novos centros até 2030, o número total de emissões seria de aproximadamente 5,9 bilhões de toneladas. Esse valor se aproxima do total anual de emissões do México, que segundo o Instituto Nacional de Ecologia e Reflorestamento (INEC) chega a 430 milhões de toneladas de CO₂, representando cerca de 1 % das emissões globais.

Esses números mostram que a expansão dos data centers nos EUA não é apenas uma questão de capacidade de armazenamento, mas também de responsabilidade ambiental. A indústria, por sua vez, tem adotado medidas de mitigação: o Google, por exemplo, tem investido 6 bilhões de dólares em data centers sustentáveis e já alcançou 100 % de energia renovável em 2023. A Amazon Web Services (AWS) anunciou que pretende que 100 % de sua energia seja proveniente de fontes renováveis até 2030, enquanto o Microsoft Azure busca zero emissões líquidas até 2030.

No entanto, os desafios são múltiplos. Primeiro, o custo de energia renovável ainda pode ser superior ao da energia convencional em regiões onde o acesso à eletricidade limpa é limitado. Segundo, a demanda por potência de resfriamento – necessária para manter os servidores operando em temperaturas seguras – consome até 30 % da energia total de um data center. A tecnologia de refrigeração evaporativa e a integração de sistemas de energia solar nos próprios edifícios são respostas emergentes, mas ainda não se generalizaram.

No contexto regulatório, os EUA carecem de uma política federal de carbono que imponha limites claros às emissões de energia. Enquanto estados como Califórnia e Washington têm programas de redução de emissões, a ausência de uma lei federal cria um ambiente de incerteza que dificulta investimentos de longo prazo em infraestrutura limpa. Isso contrasta com a União Europeia, que estabeleceu metas de neutralidade de carbono até 2050, impulsionando a adoção de energia verde nos data centers.

O cenário brasileiro apresenta nuances distintas. O Brasil tem uma matriz energética fortemente baseada em hidrelétricas, com 60 % de renováveis em 2022. Mesmo assim, a demanda por data centers cresce à medida que o país se consolida como um hub tecnológico na América Latina. Empresas como a TOTVS e a Tivit já estão investindo em centros de dados com certificação ISO 50001 e metas de energia renovável. No entanto, a expansão ainda não alcançou a escala dos EUA, e o custo da eletricidade – que pode superar US$ 0,20/kWh em algumas regiões – torna o desafio ainda maior.

Para a América Latina, o risco de replicar o modelo norte‑americano sem ajustes é real. Países como México, Chile e Argentina já experimentaram um aumento de 40 % na demanda de energia de data centers entre 2018 e 2022. Se o setor seguir a mesma trajetória de crescimento dos EUA, o continente poderá se tornar um dos maiores consumidores de energia renovável, exigindo investimentos em geração limpa, transmissão e tecnologias de resfriamento.

O impacto econômico não pode ser subestimado. Os data centers criam mais de 100.000 empregos nos EUA, com salários médios superiores aos do setor de manufatura. A adoção de energia renovável, porém, pode reduzir custos de operação em até 30 % a longo prazo e abrir oportunidades de mercado em energia solar e eólica. Além disso, a emissão de carbono pode se transformar em um custo interno, via créditos de carbono, incentivando a busca por alternativas de menor impacto.

No cenário geopolítico, a dependência de energia fóssil pelos data centers norte‑americanos reforça a influência de países produtores de petróleo e gás. Ao contrário, uma migração para energia limpa poderia reduzir a vulnerabilidade a choques de preços e fortalecer a posição de países com matriz renovável, como o Brasil, que possui vastos recursos hidrelétricos e solares.

Em síntese, a projeção do Sierra Club destaca uma verdade inegável: a tecnologia que alimenta nossa era digital pode ser simultaneamente uma fonte de destruição ambiental se não for acompanhada de políticas, inovação e responsabilidade corporativa. Para os Estados Unidos, a solução passa por legislações claras de carbono, incentivos à energia renovável e padrões de eficiência energética. Para o Brasil e América Latina, a oportunidade está em aproveitar sua matriz verde para criar data centers sustentáveis que impulsionem a economia e sirvam de modelo para o resto do mundo.

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