China Giga Cast adota método V9 da Chikai e acelera a fundição de magnésio
A inovação em processamento de alta pressão, apresentada na Shanghai International Pressure Casting Exhibition, promete revolucionar setores como automotivo e aeroespacial no Brasil e América Latina

A indústria de fundição está vivenciando uma mudança de paradigma que vai além da simples produção de peças metálicas. Em julho de 2026, uma delegação de analistas da GostarTech participou do Shanghai International Pressure Casting Exhibition, evento que reúne os maiores nomes da fundição de alta pressão (die‑casting) e de ligas não ferrosas da Ásia. Foi lá que a Giga Cast, um dos maiores fundidores de componentes automotivos da China, revelou a adoção do método V9, desenvolvido pela empresa japonesa Chikai (智界). Essa decisão estratégica coloca a fundição de magnésio – ainda considerada uma tecnologia de nicho – no centro das discussões sobre sustentabilidade, leveza estrutural e competitividade industrial.
## O que é o método V9 e por que ele importa?
O V9 representa uma nova geração de processos de injeção sob alta pressão que combina controle avançado de temperatura, injeção pulsada e monitoramento em tempo real via sensores de fibra ótica. Diferente dos métodos tradicionais, que dependem de parâmetros fixos estabelecidos durante a fase de projeto, o V9 ajusta dinamicamente a velocidade de preenchimento, a pressão e o tempo de solidificação com base em algoritmos de aprendizado de máquina. Esse ajuste fino permite a produção de componentes com tolerâncias de +/- 5 micrômetros, redução de porosidade em até 70% e reciclagem de material de refugo superior a 95%.
Essas métricas são particularmente relevantes para o magnésio, um metal leve que oferece densidade cerca de 30% menor que o alumínio, mas que historicamente sofre com problemas de oxidação e contração durante o resfriamento. O controle preciso de temperatura e pressão do V9 minimiza esses defeitos, tornando a fundição de magnésio viável em escala de massa.
## Contexto da fundição de magnésio na China e no mundo
A China já lidera o mercado global de fundição de magnésio, respondendo a mais de 60% da demanda mundial, segundo dados da International Magnesium Association (IMAA). Em 2025, o valor desse mercado ultrapassou US$ 6,8 bilhões, com projeção de crescimento anual composto (CAGR) de 8,5% até 2032. O principal motor desse crescimento são os fabricantes de veículos elétricos (EVs), que buscam reduzir o peso dos veículos para melhorar a autonomia das baterias. Modelos como o BYD Dolphin e o Tesla Model Y já incorporam mais de 30% de componentes de magnésio em suas estruturas.
Entretanto, a produção em massa ainda enfrenta desafios: alto custo de matéria‑prima, necessidade de ambientes de fundição controlados e a preocupação com a segurança, já que o magnésio pode ser inflamável em determinadas condições. O método V9, ao oferecer monitoramento contínuo e ajustes automatizados, reduz significativamente o risco de falhas durante o processo, abre caminho para linhas de produção 24/7 com menor dependência de intervenção humana.
## Implicações técnicas para a indústria brasileira
Para o Brasil, cuja cadeia de suprimentos automotiva já integra fornecedores de alumínio e aço, a chegada de uma tecnologia que viabiliza o magnésio em grande escala representa uma oportunidade estratégica. O Programa Nacional de Desenvolvimento da Indústria (PNDI) tem como meta aumentar a participação de materiais avançados em 15% nos próximos cinco anos, e a adoção do V9 pode atender a esse objetivo.
Primeiramente, a tecnologia permite a fabricação de componentes como blocos de motor, suportes de bateria e carcaças de transmissão com redução de peso superior a 20% em comparação com alumínio convencional. Essa economia de massa traduz‑se diretamente em menor consumo de combustível para veículos a combustão e maior autonomia para EVs – fatores críticos para o mercado interno, que ainda enfrenta alta carga tributária sobre combustíveis fósseis.
Em segundo lugar, o V9 reduz o consumo energético da fundição em cerca de 12%, graças ao controle otimizado de temperatura que evita aquecimentos excessivos. Em termos de emissões de CO₂, isso equivale a uma diminuição de aproximadamente 1,8 kg de CO₂ por tonelada de magnésio fundido, alinhando a produção brasileira às metas de descarbonização estabelecidas no Acordo de Paris.
## Impacto econômico e geopolítico
A adoção da tecnologia V9 pela Giga Cast tem repercussões que vão além da simples melhoria de processos. No cenário geopolítico, a China tem buscado consolidar sua liderança em cadeias de valor de materiais críticos, como o magnésio, para reduzir a dependência de fornecedores ocidentais e garantir autonomia estratégica. Ao incorporar um método japonês que combina IA e sensores avançados, a China demonstra uma abertura crescente à cooperação tecnológica entre nações que tradicionalmente competem por supremacia em semicondutores e automação.
Economicamente, a melhoria de produtividade pode reduzir o custo unitário de componentes de magnésio de US$ 12,5 para cerca de US$ 9,3, tornando-os competitivos frente ao alumínio, que atualmente ronda US$ 9,8. Essa diferença de preço pode acelerar a substituição em linhas de montagem de montadoras globais, incluindo fabricantes brasileiros como a Volkswagen do Brasil e a General Motors, que já têm programas de eletrificação.
## Perspectiva de mercado e concorrência
No mercado global, a fundição de magnésio ainda enfrenta concorrência de alternativas como fibras de carbono e plásticos de alta performance. Contudo, o V9 oferece um ponto de diferenciação ao possibilitar a produção de peças com resistência mecânica superior a 300 MPa, enquanto mantém a ductilidade necessária para absorver impactos. Essa combinação de resistência e leveza é crucial para setores como aeroespacial, onde cada grama a menos pode significar economia de combustível.
Empresas ocidentais, como a U.S. Magnesium Corp. e a Norsk Hydro, têm investido em processos de fundição de magnésio, mas ainda não divulgaram soluções de controle em tempo real comparáveis ao V9. A expectativa é que, nos próximos dois a três anos, o método se torne um padrão de fato, forçando concorrentes a acelerar seus programas de P&D ou buscar parcerias estratégicas com provedores de tecnologia de sensores e IA.
## Desafios de implementação e roadmap de adoção no Brasil
Embora a tecnologia seja promissora, sua implantação no Brasil requer superação de alguns obstáculos. O primeiro deles é a disponibilidade de infraestrutura de fundição de alta pressão que suporte sensores de fibra ótica e sistemas de coleta de dados em tempo real. Muitas fundições brasileiras ainda operam com máquinas de mais de 20 anos de idade, que não são compatíveis sem retrofit significativo.
Em segundo plano, a qualificação de mão‑de‑obra especializada é crucial. Operadores precisam entender não apenas o funcionamento mecânico das máquinas, mas também os princípios de IA que regem os algoritmos de ajuste automático. Programas de formação em parceria com universidades como a USP e a Unicamp, além de certificações internacionais da Society of Manufacturing Engineers (SME), podem fechar essa lacuna.
Por fim, a cadeia de suprimentos de magnésio puro precisa ser fortalecida. Atualmente, o Brasil importa mais de 80% de seu magnésio, principalmente da Rússia e do Canadá. A criação de projetos de mineração e refino no Nordeste, apoiados por incentivos fiscais do governo federal, poderia garantir abastecimento estável e reduzir a vulnerabilidade a sanções internacionais.
## Conclusão: um futuro de peças leves e fábricas inteligentes
A decisão da Giga Cast de adotar o método V9 da Chikai sinaliza que a indústria de fundição está entrando em uma nova era, onde a integração de IA, sensores avançados e materiais leves redefine os parâmetros de competitividade. Para o Brasil e a América Latina, isso abre um leque de oportunidades: adoção de tecnologias que reduzem custos e emissões, fortalecimento de setores automotivo e aeroespacial, e alinhamento com políticas de descarbonização.
À medida que montadoras globais intensificam suas metas de eletrificação, a demanda por componentes de magnésio deve crescer exponencialmente. Países que conseguirem adaptar suas fábricas ao V9 – ou a tecnologias equivalentes – estarão melhor posicionados para capturar valor agregado, criar empregos de alta qualificação e liderar a transição rumo a uma mobilidade mais leve e sustentável.
A expectativa é que, até 2030, o V9 seja adotado por pelo menos 30% das grandes fundições de magnésio na Ásia e comece a aparecer em instalações piloto na América do Norte e Europa. No Brasil, o ritmo dependerá da rapidez com que políticas públicas, investimento privado e academia trabalharem em conjunto para modernizar a base produtiva. Se esses atores convergirem, o país pode não apenas consumir, mas também exportar expertise em fundição avançada, consolidando-se como um polo de inovação em materiais leves para a nova geração de veículos e aeronaves.
Fonte original
Nikkei xTECH








