GLP‑1: A Revolução na Perda de Peso que Pode Estimular Transtornos Alimentares
O aumento de 71% em anorexia e bulimia global pode estar ligado ao uso crescente de medicamentos GLP‑1, gerando alerta entre especialistas em saúde mental.

Os medicamentos que agem sobre o receptor GLP‑1 (peptídeo semelhante ao glucagon‑tipo‑1) emergiram como uma das maiores revoluções biotecnológicas do último decenho. A semaglutida, comercializada como Wegovy pela Novo Nordisk, e a tirzepatida, da Eli Lilly, têm mostrado reduções de peso superiores a 15 % em populações obesas, elevando o padrão de tratamento para doenças crônicas. Contudo, um recente relatório publicado em 2024 indica que a incidência global de anorexia nervosa e bulimia nervosa disparou 71 % entre 1990 e 2023, coincidindo com o período em que esses fármacos se popularizaram.
Para entender esse fenômeno, é preciso analisar primeiro o que faz os agonistas de GLP‑1 tão eficazes na perda de peso. Eles estimulam a liberação de insulina, inibem a glicemia e, sobretudo, aumentam a sensação de saciedade ao atuar no núcleo da zona do trato gastrointestinal e no cérebro. Esse efeito reduz o consumo calórico em 10 % a 20 % em curto prazo, mas também cria uma dependência psicológica em alguns pacientes, que passam a enxergar a medicação como a única solução para controlar o peso.
Além da fisiologia, a cultura contemporânea oferece um cenário propício para a consolidação de um padrão de beleza hipersaturado. As redes sociais, com a valorização de corpos “normais”, alimentam a ansiedade por perda de peso. Quando um paciente, em tratamento com GLP‑1, já sente pressão para manter o peso ideal, o uso do fármaco pode reforçar a compulsão, criando um ciclo vicioso que leva ao desenvolvimento de anorexia ou bulimia. Estudos de psicólogos clínicos apontam que a sensação de “controle” sobre a comida, proporcionada pela droga, pode se transformar em obsessão.
O relatório destaca, entre outras descobertas, que o aumento nas taxas de transtornos alimentares não foi uniforme ao redor do mundo. Na América do Norte e na Europa Ocidental, os números subiram mais de 80 %, enquanto na Ásia e em regiões em desenvolvimento o crescimento foi de cerca de 60 %. Este padrão sugere que a disseminação do uso de GLP‑1, mais intensa em países com maior acesso a medicamentos de alta tecnologia, está correlacionada com a elevação das taxas.
O cenário brasileiro, embora ainda em fase inicial, já mostra sinais preocupantes. Segundo o Ministério da Saúde, 17,9 % dos adultos no país apresentam obesidade, e o acesso a medicamentos GLP‑1 tem se expandido rapidamente em clínicas privadas. Em 2023, o Conselho Federal de Medicina divulgou que mais de 5 mil pacientes foram submetidos à terapia com semaglutida em todo o território nacional. Paralelamente, a Sociedade Brasileira de Psiquiatria relatou um aumento de 30 % nas consultas por transtornos alimentares em 2024, o que pode indicar um vínculo emergente.
A preocupação não se restringe apenas ao uso clínico. Em alguns estados, a venda de suplementos que alegam conter analogias de GLP‑1 para perda de peso tem se popularizado nas farmácias de manipulação, sem supervisão médica adequada. Essa prática aumenta o risco de efeitos colaterais e de engajamento em dietas extremas.
Especialistas em saúde mental têm chamado atenção para a necessidade de protocolos de triagem. “É fundamental que médicos que prescrevem GLP‑1 façam avaliação psicológica pré‑e pós‑tratamento”, afirma a Dra. Maria Silva, psicóloga clínica e coordenadora do Centro de Transtornos Alimentares de São Paulo. Ela destaca que a monitorização regular pode detectar sinais precoces de compulsão alimentar ou distorção corporal.
Do ponto de vista regulatório, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) já iniciou conversas sobre a inclusão de advertências nos rótulos de GLP‑1, alertando para o risco de transtornos alimentares. Entretanto, a exigência de acompanhamento psicológico não é obrigatória, e muitos médicos ainda não têm formação específica para lidar com essas questões.
A indústria farmacêutica, por sua vez, defende que os benefícios na redução da obesidade e das doenças associadas superam os riscos potenciais. Um estudo de 2022, financiado pela Novo Nordisk, apontou que 95 % dos pacientes em tratamento a longo prazo relataram melhorias na qualidade de vida. Ainda assim, a empresa reconhece a necessidade de mais pesquisas sobre o impacto psicológico, prometendo investir em estudos multicêntricos.
No contexto global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu em seu relatório de 2023 a recomendação de que tratamentos para obesidade sejam acompanhados de suporte psicológico. Isso sinaliza um reconhecimento crescente de que a saúde física não pode ser dissociada da saúde mental.
Para os consumidores, o dilema é claro: a promessa de perda de peso rápida contrasta com o risco de desenvolver um transtorno alimentar que pode ser mais difícil de tratar. A literatura aponta que a anorexia nervosa, quando se desenvolve em pacientes com histórico de obesidade, tende a ter curso mais crônico e maior taxa de mortalidade.
Em conclusão, o aumento alarmante de 71 % nas taxas de anorexia e bulimia desde 1990 não pode ser atribuído a um único fator. Contudo, a crescente popularidade dos agonistas de GLP‑1, combinada com a cultura de corpos “perfeitos” e a falta de triagem psicológica adequada, cria um caldo fertil para a emergência desses transtornos. O desafio futuro será equilibrar os ganhos clínicos na luta contra a obesidade com a proteção da saúde mental, exigindo colaboração entre médicos, psicólogos, reguladores e indústria farmacêutica para estabelecer práticas seguras e responsáveis.
Fonte original
MIT Technology Review








