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Clube dos Proprietários de Lojas promove encontro em Sendai para debater desafios do varejo regional

Gestores de pequenas e médias redes de comércio se reúnem para trocar experiências, analisar impactos da pandemia e traçar estratégias digitais para revitalizar a economia local

ASCII.jp

A manhã de 26 de novembro ficou marcada no calendário de quem dirige um comércio em Sendai, a capital da província de Miyagi, com a realização da primeira edição do encontro promovido pelo Clube dos Proprietários de Lojas (CPL). Organizado por uma associação que reúne pequenos e médios varejistas de todo o Tohoku, o evento contou com a presença de mais de cinquenta gestores, representantes de cadeias regionais, consultores de transformação digital e autoridades municipais. O objetivo declarado foi "compartilhar os desafios de gestão específicos da região" – uma missão que ganha ainda mais urgência num país que ainda sente os efeitos econômicos da crise sanitária e das mudanças estruturais no consumo.

O contexto regional de Sendai é particularmente revelador. Antes da pandemia, a cidade registrava um crescimento anual do PIB per capita de 1,8%, impulsionado por setores como tecnologia da informação, turismo de inverno e comércio de produtos locais, como o famoso "zunda" (pasta de soja verde). Em 2020, porém, a taxa de ocupação de lojas no centro histórico caiu 12%, segundo dados da Câmara de Comércio de Sendai. Esse declínio refletiu não apenas a diminuição de fluxo de turistas, mas também a migração de consumidores para plataformas online, que registraram um aumento de 35% nas compras digitais na região durante o mesmo período. O CPL, portanto, buscou entender como esses números se traduzem em desafios operacionais – desde a gestão de estoque até a retenção de clientes.

Um dos painéis mais aguardados do encontro abordou a escassez de mão‑de‑obra, um problema que afeta todo o Japão, mas que tem nuances particulares no Tohoku. O envelhecimento demográfico é ainda mais acentuado ali: cerca de 28% da população de Miyagi tem mais de 65 anos, o que reduz drasticamente a oferta de trabalhadores jovens para o varejo. O diretor de Recursos Humanos da rede de conveniência FamilyMart em Sendai apresentou um estudo interno que mostrou que 47% das lojas da região enfrentavam dificuldade para preencher vagas de caixa e reposição de mercadorias. Como resposta, o CPL está incentivando programas de treinamento conjunto entre escolas técnicas e lojistas, além da adoção de tecnologias de autoatendimento baseadas em IA que podem reduzir a dependência de operadores humanos.

A digitalização forçada pela pandemia foi outro ponto central da agenda. Durante a sessão "Do físico ao digital: caminhos possíveis para o varejo local", a consultora de transformação digital da Accenture Japão, Hiroko Tanaka, demonstrou como ferramentas de análise preditiva podem otimizar o sortimento de produtos. Ela citou um caso de sucesso de uma loja de artigos esportivos em Sendai que, ao integrar seu sistema de ponto de venda (POS) a uma plataforma de inteligência artificial, reduziu o desperdício de estoque em 22% e aumentou a margem bruta em 5 pontos percentuais em apenas seis meses. O uso de sensores IoT para monitorar o fluxo de clientes dentro das lojas também foi discutido, destacando que a combinação de dados de contagem de pessoas com algoritmos de recomendação pode criar campanhas de marketing hiper‑personalizadas, aumentando a taxa de conversão em até 8%.

Além das soluções tecnológicas, o encontro dedicou tempo à análise de políticas públicas que podem apoiar os pequenos varejistas. O prefeito de Sendai, Hiroshi Takahashi, anunciou um pacote de incentivos fiscais de até 15% para estabelecimentos que investirem em tecnologias verdes, como iluminação LED e sistemas de refrigeração com baixo consumo energético. Essa medida tem o duplo objetivo de reduzir custos operacionais e alinhar o comércio local às metas de neutralidade de carbono estabelecidas pelo governo nacional para 2050. O CPL, por sua vez, pretende criar um fundo colaborativo de até 200 milhões de ienes para financiar projetos de renovação de lojas, permitindo que pequenos comerciantes compartilhem recursos e expertise.

Do ponto de vista econômico mais amplo, o evento destacou que a revitalização do varejo em Sendai tem implicações que vão além das fronteiras municipais. A região de Tohoku tem lutado historicamente para atrair investimento em comparação com áreas como Kanto e Kansai. Ao melhorar a competitividade dos negócios locais, a cidade pode reverter a tendência de êxodo de jovens talentos para os grandes centros, estimulando um círculo virtuoso de consumo, geração de empregos e arrecadação fiscal. Analistas do Bank of Japan estimam que, se a taxa de adoção de soluções digitais no varejo de Sendai alcançar 70% até 2025, o PIB regional poderia crescer entre 0,8% e 1,2% ao ano, o que representaria cerca de 45 bilhões de ienes adicionais em produção econômica.

A perspectiva latino‑americana, especialmente a brasileira, surge como uma oportunidade de intercâmbio de experiências. O varejo brasileiro tem passado por transformações similares nos últimos cinco anos, com a explosão do e‑commerce e a necessidade de integrar canais físicos e digitais (omnichannel). Em entrevista exclusiva para a GostarTech, a presidente da Associação Brasileira de Lojas de Conveniência (ABLC), Fernanda Ribeiro, ressaltou que "as lições do Japão – sobretudo no que tange à adoção rápida de IA e IoT em pequenas lojas – podem servir de blueprint para cidades brasileiras como Recife e Fortaleza, que também enfrentam escassez de mão‑de‑obra e necessidade de modernização". Ela sugeriu que programas de intercâmbio técnico entre as duas nações poderiam acelerar a curva de aprendizado dos varejistas brasileiros.

No aspecto social, o encontro trouxe à tona a importância de manter o comércio de bairro como elemento de coesão comunitária. Pesquisas realizadas pelo Instituto de Pesquisa de Consumidor de Miyagi apontam que 62% dos residentes consideram a presença de lojas de bairro essencial para a qualidade de vida, pois elas funcionam como pontos de encontro e oferecem produtos frescos que não são facilmente encontrados em grandes redes. Assim, a modernização proposta pelo CPL não busca apenas lucro, mas também a preservação de um tecido social que tem valor cultural e histórico.

Ao encerrar o dia, os participantes assinaram uma carta de intenções que inclui metas claras: alcançar 30% de digitalização de processos até o final de 2024, implementar ao menos cinco projetos-piloto de automação de atendimento até 2025 e criar um portal colaborativo onde os lojistas possam compartilhar boas práticas, fornecedores e oportunidades de financiamento. Essa agenda demonstra que o clube não pretende ser apenas um fórum de discussão, mas um motor de ação concreta.

Em síntese, o encontro de Sendai ilustra como um grupo de empresários locais pode transformar desafios estruturais – demográficos, tecnológicos e financeiros – em oportunidades de inovação. Ao combinar políticas públicas, tecnologia de ponta e colaboração intersetorial, o CPL está traçando um roteiro que pode ser replicado em outras cidades japonesas e até em mercados emergentes da América Latina. O futuro do varejo regional dependerá, em última análise, da capacidade de integrar tradição e modernidade, mantendo o vínculo com a comunidade enquanto abraça as ferramentas que o mundo digital oferece. O caminho está traçado, e os próximos meses serão decisivos para validar se as ambições do Clube dos Proprietários de Lojas se transformarão em resultados tangíveis para Sendai e, possivelmente, para todo o setor varejista global.

Fonte original

ASCII.jp
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