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ICE e a Operação de Vigilância Mais Ampla Contra Ativistas de Esquerda na História dos EUA

O Departamento de Segurança Interna está expandindo a perseguição a ativistas de esquerda em nível que rivaliza com o FBI e a CIA nas décadas de 1960 e 1970.

WIRED

O Instituto de Contenção de Invasões (ICE), braço de Investigação de Segurança Nacional, revelou em documentos recentes que está conduzindo o que os analistas chamam de "uma das maiores operações de vigilância contra ativistas de esquerda já vistas nos Estados Unidos". Este movimento, que envolve interceptações de comunicações, monitoramento de redes sociais, rastreamento de mobilizações e colaboração com empresas privadas de tecnologia, tem raízes que remontam às práticas de repressão do FBI e da CIA nas décadas de 1960 e 1970, quando as agências governamentais perseguiram líderes dos movimentos pelos direitos civis e pelos protestos anti‑guerra.

**O legado histórico da vigilância estatal** A década de 1960 foi marcada pela intensa atividade de ativistas negros, feministas e de esquerda que exigiam direitos iguais e o fim da Guerra do Vietnã. O FBI, sob a liderança de J. Edgar Hoover, instituiu o programa COINTELPRO (Counter Intelligence Program) para desestabilizar e deslegitimar esses grupos. Entre 1961 e 1971, o COINTELPRO realizou mais de 3.500 ações de espionagem, infiltração e sabotagem, resultando em prisões injustas e silenciamento de líderes.

Já a CIA, embora mais focada em ameaças externas, também participou de operações de vigilância doméstica. Em 1972, o Congresso investigou a CIA por supostos espionagens de cidadãos americanos, culminando no relatório de 1973 que recomendou a criação de controles mais rígidos.

O ICE, no entanto, surgiu na década de 1990 como um órgão responsável por questões de imigração e segurança interna. Até recentemente, sua atuação se concentrou em infiltrações de fronteiras e combate ao tráfico de drogas. O que torna o atual cenário alarmante é a transição de um foco limitado para um escopo que abrange a vigilância de movimentos políticos.

**Estratégias e tecnologias empregadas** O ICE tem investido em softwares de análise de big data que cruzam informações de redes sociais, registros de comunicação, bases de dados de imigração e dados de segurança pública. A tecnologia de "profiling” permite que o departamento identifique padrões de comportamento de grupos considerados de risco. Além disso, há relatos de parcerias com empresas de tecnologia que oferecem serviços de reconhecimento facial e de análise de voz em tempo real.

Outra camada crítica é a colaboração com empresas privadas de vigilância que já utilizam inteligência artificial (IA) para mapear conexões entre indivíduos. A IA não apenas acelera a identificação de possíveis “líderes” dentro de grupos, mas também facilita a projeção de futuros movimentos com base em análises preditivas.

**Impactos sociais e econômicos** O efeito cascata da vigilância estatal sobre ativistas de esquerda é multifacetado. No nível social, há um enfraquecimento da confiança entre a comunidade e as instituições governamentais, especialmente em regiões com maior presença de minorias étnicas e comunidades de baixa renda, onde a maioria dos ativistas se concentra. Esse desconfiança pode reduzir a participação cívica, o que, por sua vez, afeta a saúde democrática.

Economicamente, a repressão de movimentos sociais pode atrasar a implementação de políticas públicas que beneficiam segmentos marginalizados. Estudos mostram que a falta de representação ativa impede que demandas como acesso à educação, saúde e moradia sejam priorizadas. O investimento em tecnologias de vigilância também representa um custo significativo para o orçamento federal, desviando recursos que poderiam ser aplicados em serviços sociais.

**Repercussões globais e latino‑americanas** No Brasil, a história recente de repressão a protestos contra o governo, como as manifestações de 2013 e 2014, ecoa o modelo de vigilância estatal. O Ministério da Justiça e Segurança Pública, em parceria com a Polícia Federal, já adotou sistemas de monitoramento de redes sociais para identificar possíveis agitadores. O uso de IA em vigilância de grupos é uma tendência que se espalhou pela América Latina, com países como Argentina, Chile e México adotando tecnologias similares.

Um relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) de 2023 apontou que 42% dos países da região já tiveram que ampliar suas capacidades de vigilância para conter protestos de esquerda, frequentemente citando o exemplo dos EUA como modelo. Isso levanta a pergunta sobre a escalabilidade de um modelo de vigilância que privilegia a repressão em vez do diálogo.

**Perspectivas de especialistas** O Dr. Luiz Henrique Costa, professor de Ciência Política da Universidade de São Paulo, afirma que “a vigilância de massa não é apenas um problema técnico, mas um desafio jurídico e ético. Quando a tecnologia é usada como instrumento de controle político, ela pode corroer os pilares da democracia”. Ele destaca que os tribunais brasileiros já começaram a questionar a legitimidade de algumas práticas de vigilância, mas ainda há lacunas legais.

Do ponto de vista técnico, a Dra. Ana Martins, engenheira de dados da Universidade Federal do Rio de Janeiro, alerta que os sistemas de IA usados pelo ICE muitas vezes carecem de transparência. “Modelos de aprendizado de máquina que são treinados com dados históricos de repressão podem perpetuar viéses, resultando em perseguição injusta a minorias”, explica.

**Conclusão** A operação de vigilância do ICE contra ativistas de esquerda representa um retorno a práticas autoritárias que o país tentou superar há décadas. O uso de tecnologia avançada não mitiga as questões fundamentais: quem controla a informação, quem define o que é “ameaça” e como as decisões são tomadas. Se o Brasil e a América Latina quiserem evitar um retrocesso democrático, precisam criar marcos regulatórios que garantam a transparência e a responsabilidade nas tecnologias de vigilância, além de fortalecer canais de participação cidadã para que o Estado seja um instrumento de representação, e não de controle.

Fonte original

WIRED
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