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Energia

Japão aposta em turbinas flutuantes para turbinar a energia limpa

O NEDO seleciona projetos de construção em mar profundo, com participação de gigantes da construção, visando reduzir custos e acelerar a adoção de energia eólica offshore

Nikkei xTECH

A crescente demanda por energias renováveis está reconfigurando o setor elétrico global. Enquanto os parques eólicos em terra já consolidadam sua presença, a marinha oferece um potencial ainda maior. A capacidade de ventos em águas profundas, onde as turbinas podem operar a maiores alturas e velocidades, torna os sistemas flutuantes a solução mais promissora para países com extensos recifes e leitos marinhos, como o Japão. Recentemente, o New Energy and Industrial Technology Development Organization (NEDO) – órgão governamental japonês responsável por impulsionar inovações no setor de energia – anunciou a seleção de cinco projetos de pesquisa para demonstrar e reduzir os custos da tecnologia de turbinas eólicas flutuantes.

O que exatamente a NEDO pretende atingir? A resposta está em três pilares: construção autônoma em águas profundas, redução de custos na fabricação de plataformas flutuantes e desenvolvimento de tecnologias de junção robustas. Os três projetos que envolveram as construtoras mais tradicionais do Japão – Obayashi, Taisei e Shimizu – representam um marco, pois trazem a experiência de engenharia civil de larga escala para o desafio de montar e operar turbinas em mar aberto.

**Construção autônoma em mar profundo**

Tradicionalmente, a construção de turbinas offshore envolve uma série de etapas logísticas complexas: montagem de plataformas de apoio, uso de navios de içamento e operações manuais em condições climáticas adversas. A inovação proposta pelo projeto do NEDO visa a automatizar, e até mesmo despersonalizar, grande parte dessas tarefas. Utilizando veículos autônomos de superfície e subaquáticos, drones de inspeção e robôs de montagem, as construtoras pretendem reduzir o tempo de instalação de turbinas em 40% e eliminar a necessidade de tripulação em mar aberto. Em 2023, os custos associados a uma turbina de 5 MW em mar profundo ultrapassaram 2,5 bilhões de ienes, em grande parte por causa de deslocamentos de pessoal e logística. A automatização promete não apenas cortes de custos, mas também melhorias significativas na segurança do trabalho.

**Redução de custos na fabricação de plataformas flutuantes**

Os custos de fabricação das plataformas são a principal barreira para a adoção em massa das turbinas flutuantes. O projeto da NEDO pretende reestruturar a cadeia de produção, introduzindo materiais de alta resistência a corrosão, processos de fabricação em massa e montagem modular. Por exemplo, a aplicação de ligas de alumínio de alta resistência e a integração de painéis solares nos próprios decks das plataformas podem reduzir o peso em 15% e, consequentemente, os custos de transporte. Além disso, a utilização de sistemas de pré-montagem em terra, que permitem a montagem parcial das turbinas antes de seu deslocamento para o mar, reduz drasticamente o tempo de instalação.

**Desenvolvimento de tecnologias de junção**

Para garantir que as turbinas se mantenham estáveis sob ondas e ventos extremos, a integração entre o eixo do rotor e a plataforma flutuante precisa ser perfeita. Os projetos selecionados buscam desenvolver sistemas de junção que combinam soldagem a laser de alta precisão com juntas de amortecimento de última geração, reduzindo a vibração e aumentando a durabilidade da estrutura. Testes em escala piloto já indicam uma melhoria de 25% na resistência à fadiga, o que se traduz em menos manutenções e, portanto, em economia a longo prazo.

**Impacto no mercado japonês e global**

O Japão já é o quarto maior mercado de energia eólica offshore do mundo, com 1,8 GW de capacidade instalada em 2023. No entanto, a maioria dessas turbinas está localizada em águas rasas. A adoção de turbinas flutuantes permite explorar as áreas mais profundas da costa japonesa, onde os ventos são mais intensos e constantes. O Instituto Internacional de Energia (IEA) projeta que a capacidade instalada de turbinas flutuantes no mundo ultrapasse 50 GW até 2040, com o Japão capturando até 12 GW desse segmento. Economizar 20% nos custos de instalação e manutenção pode tornar os projetos flutuantes financeiramente viáveis em regiões onde antes eram considerados inviáveis.

**O caso brasileiro**

O Brasil tem um potencial similar em suas águas profundas, sobretudo na costa do Nordeste. Projetos como o Tamoios, de 2,7 GW, já estão em fase de licitação, mas a tecnologia de turbinas flutuantes ainda é rara no país. A experiência japonesa, especialmente em automação e redução de custos, pode servir como modelo. Em 2024, o Ministério de Minas e Energia (MME) anunciou incentivos fiscais para projetos de energia offshore, incentivando a adoção de tecnologias avançadas. A colaboração entre empresas brasileiras e japonesas, através de joint ventures de pesquisa e desenvolvimento, pode acelerar a transição para turbinas flutuantes no Brasil, gerando empregos, reduzindo a emissão de carbono e fortalecendo a posição do país como exportador de energia limpa.

**Perspectivas econômicas e geopolíticas**

Do ponto de vista econômico, a adoção de turbinas flutuantes pode reduzir a dependência de importação de combustíveis fósseis em países que possuem longas extensões marítimas. A redução de custos de produção e montagem pode criar um mercado de serviços de instalação que beneficie portos, empresas de construção e fornecedores de materiais. Em termos geopolíticos, a independência energética pode alterar as alianças tradicionais, tornando países como o Brasil mais autossuficientes e capazes de negociar acordos energéticos mais equilibrados.

**Desafios a serem superados**

Embora a promessa de redução de custos seja grande, ainda existem barreiras técnicas significativas. A corrosão marinha continua sendo um problema crítico; os sistemas de monitoramento contínuo de integridade estrutural e os materiais de proteção avançados ainda precisam ser validados em escala real. Além disso, a regulação de construção em águas internacionais requer acordos multilaterais, especialmente quando as turbinas se estendem além da zona econômica exclusiva de cada país. O Japão, por sua vez, tem trabalhado em estreita colaboração com a Organização das Nações Unidas e a Organização Marítima Internacional para criar marcos regulatórios que permitam a expansão segura de projetos flutuantes.

**Conclusão**

A iniciativa do NEDO, com a participação de grandes construtoras, marca um salto decisivo na evolução da energia eólica offshore. Ao focar em automação, redução de custos e tecnologia de junção, o Japão está se posicionando como pioneiro na construção de turbinas flutuantes mais eficientes e acessíveis. Para países emergentes como o Brasil, que contam com extensas águas profundas, a transferência de conhecimento e tecnologia pode acelerar a adoção de energia limpa e fortalecer a segurança energética regional. O futuro da energia offshore parece, portanto, flutuante e promissor, pronto para ser explorado por países visionários e empresas que reconhecem que a inovação deve ir além do mar.

Fonte original

Nikkei xTECH
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