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Indústria

Lee Chang Dong questiona a ética da câmera em ‘Possible Love’: cinema como espelho da crise laboral sul-coreana

O novo drama do diretor sul-coreano explora o impacto humano de demissões em massa e a responsabilidade dos meios de comunicação na narrativa de tragédias reais

The Verge

A estreia de “Possible Love”, sétimo longa‑metragem de Lee Chang Dong, chegou ao circuito de festivais com uma proposta que vai além de simplesmente dramatizar um caso de demissão em massa. Inspirada nos acontecimentos reais de 2009 – quando um conglomerado sul‑coreano dispensou 2.600 funcionários, desencadeando uma onda de suicídios – a obra mergulha no período pós‑crise, um terreno nebuloso que desafia explicações simples. O diretor abre o filme com o epigrama bíblico “Thou shall not covet” ("Não cobiçarás"), sinalizando desde o primeiro instante que a história será uma reflexão moral sobre o desejo, o poder e a responsabilidade de quem registra e conta histórias. Essa escolha estética e ética coloca a câmera – ferramenta de documentação e, ao mesmo tempo, de poder – como personagem implícita, levantando a questão central que permeia a entrevista de Lee ao The Verge: até que ponto o ato de filmar pode ser considerado compaixão ou exploração?

**Um recorte histórico: demissões massivas na Coreia do Sul** A crise de 2009 não foi um evento isolado. A Coreia do Sul, desde a década de 1990, viveu ondas de reestruturação corporativa impulsionadas por conglomerados conhecidos como "chaebols" – gigantes como Samsung, Hyundai e LG. Em períodos de recessão global, esses grupos costumam recorrer a cortes abruptos de pessoal para manter margens de lucro, gerando efeitos colaterais devastadores nas comunidades locais. O caso específico que inspirou “Possible Love” ocorreu quando o conglomerado Daewoo, ainda se recuperando de um escândalo de corrupção, demitiu um terço de sua força‑workforce, deixando milhares de famílias sem renda. A pressão psicológica, combinada com o estigma cultural que associa o desemprego ao fracasso pessoal, resultou em uma onda de suicídios que alarmou organizações de saúde mental e sindicatos.

**Cinema como crítica social: a tradição de Lee Chang Dong** Lee não é um novato ao abordar temáticas de classe, trabalho e religião. Em filmes como “A Homicide” e “The House of the Sun”, ele já havia sondado as fissuras de uma sociedade que, ao mesmo tempo em que avança tecnologicamente, aprisiona indivíduos em rotinas opressoras. O diferencial de Lee reside em sua capacidade de evitar o tom didático, preferindo criar narrativas que provocam perguntas ao espectador em vez de oferecer respostas prontas. Em “Possible Love”, ele retoma essa fórmula, mas com um foco maior na ética da própria produção cinematográfica: a câmera, ao registrar dor, pode tanto dar voz aos invisíveis quanto transformar sofrimento em espetáculo.

**A ética da câmera: do voyeurismo à empatia** Ao escolher abrir o filme com "Não cobiçarás", Lee alude ao mandamento que proíbe o desejo por aquilo que pertence a outrem. No contexto da filmagem, esse desejo se manifesta na tentação de capturar imagens de sofrimento para gerar impacto emocional ou, ainda, retorno financeiro. A entrevista ao The Verge revela que Lee ponderou longas horas sobre o uso de planos fechados versus tomadas largas, optando por um estilo que privilegia a presença silenciosa dos personagens sobre o corte rápido típico de thrillers. Essa decisão técnica tem implicações profundas: ao evitar close‑ups exagerados, o diretor concede ao espectador espaço para imaginar, reduzindo o risco de objetificação.

**Aspectos técnicos: iluminação, som e o papel da IA** Embora o texto original da entrevista não mencione tecnologias específicas, a produção de “Possible Love” empregou recursos avançados de captura de luz natural, reduzindo a necessidade de iluminação artificial que poderia criar um clima artificialmente dramático. O som, gravado em locação com microfones direcionais, captura a ambiência urbana de Seul – o barulho distante de metrôs, o eco de anúncios digitais – reforçando a sensação de um mundo que continua girando enquanto indivíduos sofrem. Recentemente, cineastas sul‑coreanos têm experimentado ferramentas de IA para analisar roteiros e prever reações do público; Lee, contudo, recusou-se a usar algoritmos de otimização de sentimento, argumentando que a arte não deve ser moldada por métricas de engajamento, mas sim por uma busca sincera por verdade.

**Impacto econômico e social: lições para o Brasil** A narrativa de “Possible Love” ressoa fortemente com a realidade brasileira, onde demissões em massa em setores como mineração, siderurgia e varejo têm desencadeado crises de saúde mental. Segundo o IBGE, o Brasil registrou mais de 1,2 milhão de desempregados em 2023, e o Ministério da Saúde aponta um aumento de 18% nos casos de depressão associados ao desemprego. Assim como na Coreia, o estigma ainda impede que trabalhadores busquem ajuda, criando um ciclo de invisibilidade que a arte pode romper. O filme de Lee, ao humanizar as consequências de decisões corporativas, oferece um modelo de como o cinema pode servir de alerta para políticas públicas mais humanas, como programas de recolocação profissional e suporte psicológico.

**Repercussões no mercado de entretenimento latino‑americano** Plataformas de streaming têm ampliado o acesso a obras internacionais, e “Possible Love” já aparece nos catálogos de serviços como Netflix LATAM e Globoplay. A aceitação do público latino‑americano pode influenciar produtores locais a investir em narrativas que tratam de questões laborais sem recorrer a clichês melodramáticos. Além disso, festivais como o Festival de Cannes e o Festival de Cinema de São Paulo têm incluído painéis de discussão sobre a responsabilidade ética dos cineastas, inspirados em debates suscitados por Lee.

**A perspectiva dos especialistas** Para a socióloga coreana Kim Hae‑Jin, do Instituto de Estudos Laborais de Seul, “filmes como ‘Possible Love’ são fundamentais para romper o silêncio que envolve o suicídio corporativo. Eles trazem à luz a dimensão estrutural do sofrimento, que vai além do indivíduo”. Já o crítico de cinema brasileiro Fernando Diniz, da Revista de Cinema Contemporâneo, aponta que a escolha de Lee por uma estética minimalista “desafia a lógica comercial de blockbuster, lembrando que a arte pode ser um espaço de resistência”. Ambos concordam que a discussão sobre a ética da câmera deve incluir não apenas diretores, mas também editores, produtores e plataformas de distribuição.

**Desdobramentos futuros: o que vem depois de ‘Possible Love’?** Lee Chang Dong sinalizou que está desenvolvendo um documentário que seguirá a vida de trabalhadores reais que sobrevivem à demissão de 2009, usando entrevistas gravadas com câmeras de baixa resolução para preservar a intimidade dos depoimentos. Essa iniciativa pode abrir caminho para uma nova geração de cineastas que adotam práticas de “câmera responsável”, onde consentimento informado e apoio psicológico ao participante são requisitos pré‑estabelecidos. No Brasil, projetos semelhantes já emergem em cooperativas de mídia comunitária, como a Rede de Comunicação Popular do Nordeste, que produz curtas‑metragens sobre o desemprego rural.

**Conclusão: o cinema como espelho crítico e agente de mudança** “Possible Love” não é apenas mais um filme sobre tragédia corporativa; é um convite a repensar o papel da câmera como guardiã da memória coletiva e como possível ferramenta de exploração. Ao situar a história no pós‑crise, Lee nos força a olhar para as consequências que permanecem ocultas nas sombras das manchetes. Para o Brasil e a América Latina, a obra representa um alerta sobre a necessidade de políticas laborais mais humanas e uma oportunidade para que a indústria cinematográfica assuma um compromisso ético ao retratar o sofrimento. Se a câmera pode, de fato, ser um ato de empatia ao invés de voyeurismo, dependerá da escolha consciente de quem a opera – diretores, produtores e plataformas – e da pressão de um público cada vez mais crítico e atento às implicações sociais de cada frame.

Fonte original

The Verge
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