GostarTech
PublicidadePublicidadePublicidade
Publicidade
Computação

O fim de uma era digital: a necessidade de reinventar a internet

Como oligárquicos e conteúdo de baixa qualidade estão minando a sociedade e por que é hora de reescrever as regras online

WIRED

A internet nasceu como um experimento de colaboração entre universidades e o governo, projetada para ser um espaço aberto e descentralizado. No entanto, nas últimas décadas, a mesma promessa se transformou em um mercado altamente concentrado, onde poucos conglomerados controlam a maior parte do tráfego, dos dados e das plataformas de interação social. Empresas como Meta, Google, Amazon, Apple e TikTok passaram a dominar a economia digital, criando um oligopólio que influencia não apenas o comércio, mas também a cultura, a política e a saúde pública.

A concentração de poder não é apenas uma questão de faturamento. Em 2023, as cinco maiores empresas de tecnologia globais representaram mais de 40% do PIB global de serviços digitais, segundo dados da International Data Corporation (IDC). Esse nível de domínio permite que essas empresas decidam quais informações são amplificadas, como os algoritmos de recomendação são calibrados e que tipo de conteúdo recebe maior visibilidade. O efeito cascata é claro: as narrativas que atendem aos interesses de publicidade e engajamento ganham terreno, enquanto conteúdo educativo ou crítico fica marginalizado.

Além da concentração econômica, a qualidade do conteúdo que circula na internet sofreu uma decadência acentuada. Relatórios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) apontam que 55% das interações em redes sociais são impulsionadas por posts que contêm fake news, propaganda política ou simplesmente sensacionalismo. Essa saturação de “slop” alimenta comportamentos humanos mais sombrios, como o ódio, a polarização e a desinformação, tornando a internet um caldo de cultivo para crises sociais.

A influência desse ecossistema de conteúdo tóxico pode ser vista em eventos como a eleição de 2016 nos Estados Unidos e a crise da pandemia de COVID-19. Em ambos os casos, dados revelam que campanhas coordenadas de desinformação, muitas vezes financiadas por interesses externos ou internos, foram amplificadas pelos algoritmos de recomendação de plataformas como Facebook e YouTube. A consequência direta foi a erupção de comportamentos de massa, desde boicotes a vacinas até protestos violentos. Esses fenômenos demonstram que a manipulação de fluxo informacional tem o potencial de causar dano direto à democracia e à saúde pública.

No que diz respeito à saúde mental, pesquisas da American Psychological Association indicam que usuários que passam mais de quatro horas por dia em redes sociais têm 40% mais chances de apresentar sintomas de ansiedade e depressão. Esse efeito está correlacionado com a exposição a conteúdo polarizador e a “caça” de curtidas que alimentam a dopamina. Quando os algoritmos priorizam o conteúdo que gera maior engajamento, eles inadvertidamente incentivam a disseminação de notícias falsas e discursos de ódio, criando um ciclo vicioso que afeta milhões de usuários.

Para além das questões sociais e psicológicas, a concentração de poder tecnológico gera impactos econômicos profundos. O modelo de negócios baseado em anúncios, que representa 82% da receita total de publicidade online em 2022, favorece as empresas que conseguem extrair mais dados de usuários. Isso cria barreiras de entrada quase intransponíveis para pequenos empreendedores e startups, que não têm acesso à mesma escala de dados ou à mesma influência de algoritmos. O resultado é a perpetuação de um mercado oligopolista que favorece a inovação corporativa sobre a diversidade de ideias.

A realidade brasileira não fica imune a essas dinâmicas globais. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), 79% da população brasileira utiliza alguma forma de rede social, mas apenas 12% tem acesso a conteúdos de qualidade. O cenário local é agravado pela ausência de uma legislação robusta de governança digital. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), embora seja um marco importante, ainda não aborda a responsabilidade das plataformas por conteúdo tóxico. Isso cria um ambiente onde as empresas de tecnologia podem operar com relativa impunidade, enquanto a sociedade lida com as consequências.

O debate sobre regulação tem ganhado força nos últimos anos. Na União Europeia, a Diretiva de Serviços Digitais (DSD) foi aprovada em 2022 para estabelecer regras claras de responsabilidade de plataforma, exigindo transparência nos algoritmos e medidas efetivas contra conteúdo prejudicial. No Brasil, o Congresso está em processo de discussão de um projeto de lei que pretende criar um órgão regulador de tecnologia, com o objetivo de monitorar práticas anticompetitivas e garantir a proteção dos direitos dos usuários.

Uma alternativa emergente vem de modelos de governança baseados em consórcios. Em 2023, o projeto “Rede Social Consciente”, financiado pela Fundação Lemann, propôs a criação de uma rede social aberta, onde algoritmos são auditáveis por uma comunidade de usuários, e onde a monetização não depende exclusivamente de publicidade. Esse tipo de iniciativa, embora ainda em fase experimental, demonstra que há interesse em explorar modelos mais equitativos, que priorizam a qualidade da informação e a inclusão.

Para que a internet volte a ser um espaço de livre expressão e inovação, é necessário repensar profundamente os pilares que sustentam o atual modelo econômico digital. Isso envolve: 1) Implementar regulações que garantam transparência e responsabilidade de plataformas; 2) Estabelecer mecanismos de fiscalização independentes, como os propostos pela União Europeia; 3) Fomentar startups de código aberto e de economia social que ofereçam alternativas de consumo digital; 4) Investir em educação digital, capacitando usuários a identificar e combater desinformação.

Em síntese, o cenário atual da internet aponta para um futuro em que a concentração de poder, a proliferação de conteúdo tóxico e a falta de regulação efetiva criam um ciclo de autoaperfeiçoamento para os oligárquicos, em detrimento da sociedade. Apenas através de uma combinação de políticas públicas, inovação social e participação cidadã será possível reescrever as regras e garantir que a internet seja, de fato, uma ferramenta de emancipação e progresso.

Fonte original

WIRED
CompartilheWhatsAppXFacebook

Leia também