O Peixe Robótico que Navega em Todos os Tamanhos: A Revolução da ScaFi
O novo robô de EPFL, com propulsão biomimética, quebra limites dos veículos à hélice, abrindo portas para monitoramento ambiental em rios, lagos e oceanos.

A pesquisa em ecossistemas aquáticos enfrenta um dilema clássico: como observar a vida submersa sem perturbá‑la? Os veículos subaquáticos de propulsão por hélice – desde os simples drones até os complexos ROVs de exploração oceânica – têm sido pilares da investigação marítima. No entanto, sua mecânica inerente, com pás giratórias, cria turbulência, agita sedimentos, atrapalha vegetação rasteira e pode espantar a própria fauna que se deseja estudar.
Em 2026, o CREATE Lab da EPFL (Instituto Federal de Tecnologia Suíça) lançou a ScaFi, um robô de escala flexível que resolve esses problemas usando propulsão biomimética. Diferente das hélices tradicionais, a ScaFi possui uma cauda ondulante que imita a locomoção de peixes, gerando correntes suaves e silenciosas. Essa inovação não só permite operar em rios estreitos e águas rasas, mas também oferece eficiência energética superior em ambientes profundos.
O design da ScaFi é modular. A estrutura base pode ser aumentada ou reduzida conforme a missão, permitindo que um mesmo modelo seja usado em rios de 2 m de profundidade ou em lagos de 50 m. Para isso, a equipe desenvolveu um sistema de atuadores flexíveis que reproduzem o movimento ondulante da cauda de um peixe. Esse movimento é controlado por sensores de pressão e câmeras subaquáticas, permitindo ajuste em tempo real de velocidade, direção e ângulo de ataque. Em testes de campo em rios do Vale do Jequitinhonha, a ScaFi manteve uma velocidade de 1,2 m/s, enquanto um drone convencional com hélice produzia turbulência que agitava o sedimento e alterava a observação.
Além da propulsão, a ScaFi incorpora um conjunto de sensores avançados. Um conjunto de câmeras de alta resolução captura imagens em 4K, enquanto sensores acústicos e de temperatura monitoram parâmetros críticos para ecossistêmicos. O robô também pode transportar módulos de análise química, como espectrômetros de fluorescência, permitindo detecção de contaminantes em tempo real. Todos esses dados são transmitidos via modem acústico de baixa potência, garantindo comunicação constante sem sobrecarregar a bateria.
A eficiência energética é outro ponto de destaque. A propulsão por cauda reduz o consumo em até 40 % comparado a veículos à hélice de tamanho equivalente. Em uma missão típica de 12 h de operação, a ScaFi consome 30 Wh, enquanto um ROV com hélice de mesmo tamanho consome mais que o dobro. Isso abre a possibilidade de missões prolongadas sem necessidade de reabastecimento frequente, algo crucial em regiões remotas como a Amazônia.
No mercado de pesquisa científica, a ScaFi está conquistando rapidamente adoções internacionais. Em 2027, universidades dos EUA, Reino Unido e Índia já solicitaram licenças de uso. No Brasil, a Fundação Nacional de Amparo à Pesquisa (FAPESP) financiou um projeto piloto para monitoramento de manguezais no litoral do Rio de Janeiro, destacando a capacidade do robô de operar em águas turvas e com vegetação densa.
Além da pesquisa, há um potencial comercial significativo. Empresas de monitoramento de águas residuais, de inspeção de infraestruturas subaquáticas e de aquicultura podem aproveitar a ScaFi para inspeções em ambientes sensíveis. A versatilidade de tamanho permite que empresas pequenas adaptem o robô para pequenos tanques, enquanto grandes corporações possam operar unidades maiores em lagos industriais.
A perspectiva brasileira é promissora. A vastidão de rios e a necessidade de monitoramento ambiental para cumprimento de normas como o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) criam demanda por soluções que não perturbem ecossistemas frágeis. O robô pode ser usado em projetos de conservação, como acompanhamento de peixes migratórios, medição de qualidade da água em barragens e monitoramento de poluição em áreas urbanas.
Geopoliticamente, a adoção da ScaFi reforça a posição da América Latina como região emergente em tecnologia de monitoramento subaquático. Países com grande extensão de recursos hídricos, como México, Colômbia e Peru, podem usar a tecnologia para otimizar recursos de inspeção e reduzir custos de operação. Isso também cria oportunidades de cooperação internacional, com universidades latino-americanas desenvolvendo adaptações específicas para suas realidades.
Apesar de todas as vantagens, desafios permanecem. O custo inicial da ScaFi ainda é elevado, em torno de US$ 30.000 para a unidade de 10 m de comprimento. No entanto, o retorno sobre investimento pode ser rápido, considerando a redução de custos de operação e o aumento de produtividade. Outra questão é a necessidade de manutenção especializada para os atuadores flexíveis, que exigem técnicos treinados.
Por fim, a ScaFi representa um marco na evolução de robôs subaquáticos: ao combinar a flexibilidade de escala, propulsão biomimética, sensores avançados e eficiência energética, ela abre novas fronteiras para a pesquisa ambiental, a conservação e a indústria. O que era impensável em 2020, hoje é realidade, e a tecnologia promete transformar a maneira como interagimos com os ecossistemas aquáticos em todo o mundo.
Fonte original
Robohub







