RIPPLESCAPE traz ao público brasileiro a energia das ondas em experiência imersiva no TechnoFair 2026
Instalação interativa da Chubu Electric Power demonstra o potencial da energia oceânica e abre caminho para novos projetos no Brasil e América Latina

Em maio de 2026, o TechnoFair organizado pela Chubu Electric Power – uma das maiores concessionárias de energia do Japão – recebeu a instalação interativa "RIPPLESCAPE", um projeto que coloca a energia das ondas (波力発電) no centro da experiência dos visitantes. Mais que um simples expositor, RIPPLESCAPE propõe ao público encarnar o ciclo de geração, transmissão e consumo de energia a partir dos movimentos marítimos, usando sensores, realidade aumentada e protótipos em escala real. O timing do evento não poderia ser mais adequado: o Japão, ainda se recuperando dos abalos da crise energética pós‑Fukushima, tem buscado diversificar sua matriz com fontes renováveis, e a energia das ondas surge como uma alternativa ainda pouco explorada, mas com potencial para complementar solar e eólica em regiões costeiras.
A origem da energia das ondas remonta às décadas de 1970, quando países com longas linhas costeiras iniciaram pesquisas sobre conversores de energia oceânica (Wave Energy Converters – WECs). No Japão, o Instituto de Energia Oceânica da Universidade de Tóquio e a Agência de Energia Renovável (JRE) lançaram, na década de 1990, programas-piloto para testar dispositivos de flutuação e de coluna oscilante. Contudo, o alto custo de instalação, a corrosão salina e a variabilidade das ondas impediram uma escala comercial. Apenas nos últimos cinco anos, avanços em materiais compósitos, sistemas de monitoramento em tempo real e algoritmos de otimização de potência reduziram o custo nívelizado de energia (LCOE) das ondas para cerca de US$ 0,18/kWh, ainda acima da energia eólica onshore, mas competitivo para nichos como ilhas isoladas e instalações industriais costeiras.
RIPPLESCAPE incorpora esses avanços ao apresentar réplicas em miniatura de três tipos de WECs: o dispositivo de ponto flutuante de coluna oscilante (Oscillating Water Column – OWC), a bóia de absorção de energia (Point Absorber) e o sistema de pistão de superfície (Surface-Piercing Wave Power). Cada módulo permite ao visitante ajustar parâmetros como altura da onda, período e ângulo de incidência, observando em tempo real a geração de energia em kilowatts. Sensores de pressão e acelerômetros enviam os dados a um painel de controle visual que traduz a energia mecânica em elétrons, simulando a integração ao grid da Chubu Electric. Essa abordagem pedagógica cumpre dois objetivos: desmistificar a tecnologia para leigos e gerar um banco de dados experimental que pode alimentar modelos preditivos de desempenho.
Do ponto de vista técnico, a instalação destaca desafios críticos da energia das ondas: a necessidade de dispositivos robustos contra a fadiga estrutural, a gestão de energia intermitente e a adaptação a condições marítimas extremas. Os engenheiros da Chubu Electric explicaram que a escolha dos materiais compósitos de fibra de vidro reforçada com resina epóxi foi decisiva para prolongar a vida útil dos protótipos, reduzindo a taxa de falhas em até 30 % em testes de laboratório. Além disso, o uso de conversores de potência híbridos – que combinam retificadores de alta frequência com sistemas de armazenamento em baterias de íons de lítio – permite suavizar a curva de saída, tornando a energia das ondas mais previsível para os operadores de rede.
A presença da instalação no TechnoFair tem implicações de mercado relevantes. O Japão tem investido, nos últimos dois anos, mais de US$ 2 bilhões em projetos-piloto de energia oceânica, atraindo empresas como a Ocean Power Technologies (EUA) e a Siemens Gamesa (Espanha). A visibilidade gerada por RIPPLESCAPE serve como vitrine para investidores globais, que avaliam a viabilidade econômica de parques de ondas de médio porte. Analistas da BloombergNEF estimam que, até 2035, a capacidade instalada mundial de energia das ondas pode alcançar 30 GW, impulsionada por políticas de descarbonização da União Europeia e da Ásia‑Pacífico. O Japão, com mais de 30 000 km de costa, tem o potencial de contribuir com até 5 GW, o que representaria aproximadamente 0,5 % da demanda nacional – um número modesto, mas estratégico para reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados.
No cenário brasileiro, a energia das ondas ainda está em fase embrionária, apesar de o país possuir mais de 7 500 km de litoral e áreas de alto potencial, como a costa de São Paulo, Rio de Janeiro e o Nordeste. Estudos do Ministério de Minas e Energia (MME) indicam que a região Nordeste, particularmente a zona entre Fortaleza e Recife, apresenta recursos de onda com períodos médios de 8‑10 segundos e alturas de 2‑3 metros, condições ideais para ponto absorventes. A iniciativa brasileira mais avançada é o projeto piloto da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que instalou um ponto absorvente de 500 kW em 2022. Contudo, barreiras regulatórias, falta de financiamento e o desconhecimento do público ainda limitam a expansão.
A exposição de RIPPLESCAPE pode inspirar iniciativas semelhantes no Brasil. A própria Chubu Electric já anunciou interesse em parcerias internacionais para testar tecnologias de WECs em águas brasileiras, citando a necessidade de diversificar a matriz energética e atender às metas de 2030 de 45 % de renováveis. Uma cooperação bilateral poderia envolver a transferência de know‑how em engenharia de materiais, bem como a adaptação de plataformas de monitoramento para as condições tropicais. Além disso, a proposta de criar centros de experiência ao público — similares ao TechnoFair — nas capitais brasileiras poderia acelerar a aceitação social, que é crucial em projetos de infraestrutura marítima.
Do ponto de vista econômico, a energia das ondas oferece vantagens comparativas para comunidades costeiras isoladas. Ao contrário da energia solar, que depende de luz direta, as ondas são menos afetadas por variações climáticas diurnas, oferecendo geração mais constante ao longo do dia. Para regiões como o arquipélago de Fernando de Noronha ou as comunidades de pescadores da Baía de Todos‑os‑Santos, um pequeno parque de ondas de 5 MW poderia suprir até 30 % da demanda local, reduzindo custos com diesel e melhorando a segurança energética. O custo de capital (CAPEX) desses sistemas ainda é alto — estimado entre US$ 3.000 e US$ 5.000 por kilowatt instalado —, mas a perspectiva de financiamento verde por bancos de desenvolvimento (BNDES, CAF) e fundos climáticos internacionais pode viabilizar projetos piloto.
Geopoliticamente, a expansão da energia oceânica tem implicações estratégicas. O controle de zonas econômicas exclusivas (ZEE) ricas em recursos de onda pode gerar novas rotas de exportação de tecnologia. Países como a Coreia do Sul, o Reino Unido e a Nova Zelândia já firmaram acordos bilaterais para compartilhar dados de medição de ondas e padrões de certificação. O Japão, ao demonstrar liderança em instalações interativas como RIPPLESCAPE, reforça sua posição como inovador em energia limpa, potencialmente influenciando normas internacionais de segurança marítima e integração de redes.
No Brasil, a adaptação desses padrões exigirá ajustes regulatórios. A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) ainda não possui normas específicas para a conexão de energia das ondas ao grid nacional, o que pode atrasar a comercialização. Contudo, projetos piloto podem operar sob regimes especiais de pesquisa, como o Programa de Apoio à Energia Marinha (PAEM), que já contempla incentivos fiscais e linhas de crédito. A experiência japonesa mostra que a criação de marcos regulatórios claros — definindo requisitos de certificação, responsabilidade ambiental e tarifação — acelera a atração de investimentos privados.
A dimensão social da energia das ondas não pode ser ignorada. A instalação RIPPLESCAPE, ao envolver crianças e estudantes em atividades de montagem de mini‑WECs, promove a alfabetização energética e desperta interesse por carreiras STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). No Brasil, onde a escassez de profissionais qualificados em energia renovável ainda é um obstáculo, programas educativos semelhantes podem suprir a demanda por engenheiros marítimos, técnicos de manutenção e cientistas de dados especializados em modelagem oceânica.
Em síntese, a apresentação de RIPPLESCAPE no TechnoFair 2026 representa um ponto de inflexão tanto para o Japão quanto para países emergentes interessados em energia oceânica. O projeto demonstra que a tecnologia de geração de energia das ondas está pronta para deixar o laboratório e entrar no mercado, oferecendo uma fonte limpa, previsível e potencialmente rentável. Para o Brasil, a lição é clara: aproveitar o know‑how japonês, adaptar a regulação e investir em centros de experiência pública pode transformar o vasto potencial costeiro em realidade econômica, contribuindo para a descarbonização e para a resiliência energética da região.
Olhar para o futuro, a tendência é que os custos de produção continuem caindo à medida que a escala de implantação aumente e que a digitalização – com sensores IoT, inteligência artificial para otimização de operação e blockchain para rastreamento de créditos de carbono – torne a energia das ondas ainda mais competitiva. Se a comunidade científica, as empresas e os governos alinharem esforços, a energia oceânica pode, dentro da próxima década, representar um pilar sólido da matriz renovável brasileira, complementando solar, eólica e hidrelétrica, e reforçando a liderança da América Latina na transição energética global.
Fonte original
ASCII.jp







