Russia Constrói Centros de Dados Subterrâneos para Resistir a Ataques de Drones Ucranianos
A guerra digital atinge novos níveis quando o exército ucraniano direciona drones contra infraestruturas de TI russas, forçando a Rússia a reimaginar a segurança de seus centros de dados

No cenário atual de conflito entre Rússia e Ucrânia, a guerra tem se expandido para além dos campos de batalha tradicionais. Desde o início da invasão em 2022, a Ucrânia tem empregado ataques de drones para atingir alvos estratégicos de infraestrutura digital na Rússia, incluindo centros de dados que hospedam serviços de telecomunicações, serviços financeiros e sistemas governamentais. Esses ataques demonstraram a vulnerabilidade de ativos críticos quando a guerra se torna cada vez mais orientada para a tecnologia.
Para contrapor essa ameaça, autoridades russas têm acelerado a construção de centros de dados subterrâneos. A ideia é simples, mas tecnicamente desafiadora: proteger a infraestrutura de TI em ambientes escavados, longe dos alcance de drones e de ataques diretos. Essa estratégia não é inédita; países como Israel e Emirados Árabes Unidos já adotaram instalações subterrâneas para salvaguardar dados sensíveis contra ameaças físicas e climáticas.
### Por que os centros de dados são alvos estratégicos?
Os centros de dados são o coração da economia digital moderna. Eles armazenam grandes volumes de dados, hospedam serviços em nuvem e garantem a conectividade necessária para praticamente qualquer atividade econômica. Quando esses pontos são comprometidos, os efeitos podem ser profundos: interrupções em serviços bancários, falhas em sistemas de saúde, até a perda de controle de infraestrutura crítica.
Em um conflito que se baseia em informações, destruir a infraestrutura digital de um adversário pode isolar rapidamente seu governo e suas forças armadas. Assim, os drones ucranianos, equipados com armamentos leves, têm sido usados para atacar torres de transmissão, data centers e até mesmo pontos de distribuição de energia que alimentam esses centros.
### Desafios da construção subterrânea
Construir um centro de dados no subsolo envolve uma série de desafios. Primeiro, a necessidade de refrigeração. Centros de dados geram grandes quantidades de calor, e manter temperaturas operacionais adequadas em ambientes subterrâneos requer sistemas de ar-condicionado de alta potência, além de isolamento térmico adicional. Isso implica custos de energia mais altos e maior complexidade na arquitetura de refrigeração.
Segundo, a conexão de rede. A infraestrutura de fibra óptica precisa ser redirecionada para o subsolo, com conexões de alta velocidade que resistam a interferências externas. Isso pode exigir novos contratos com provedores de telecomunicações e a instalação de linhas de fibra óptica resistentes a sabotagem.
Terceiro, a logística de construção. Escavar grandes cavernas e reforçá‑las contra possíveis explosões ou impactos de drones exige materiais de construção especializados, como aço de alta resistência e concreto armado, além de sistemas de monitoramento em tempo real para evitar colapsos.
A combinação desses fatores eleva significativamente o custo de implantação. No entanto, o argumento de segurança supera os custos, especialmente quando se considera a perda potencial de dados, a interrupção de serviços e a reputação de um país.
### Consequências econômicas e geopolíticas
Para a Rússia, a decisão de investir em centros de dados subterrâneos pode ter efeitos econômicos de longo prazo. O país já enfrenta sanções que limitam o acesso a tecnologias avançadas de refrigeração e equipamentos de rede de fabricantes ocidentais. Construir infraestruturas domésticas robustas pode ser uma forma de mitigar esses bloqueios, promovendo a indústria de TI local.
No entanto, o alto investimento pode também pressionar as finanças públicas, especialmente em meio a uma economia já sob pressão de sanções e de guerra. Além disso, ao demonstrar vulnerabilidade a ataques de drones, a Rússia reforça a percepção global de que suas infraestruturas críticas não estão totalmente protegidas.
Em um contexto geopolítico, o desenvolvimento de centros de dados subterrâneos pode ser visto como um sinal de resiliência digital. Enquanto os países ocidentais têm investido em cibersegurança, a Rússia tenta demonstrar que pode resistir a ataques físicos, o que pode influenciar a percepção de seus aliados e adversários sobre sua capacidade de sustentar uma guerra prolongada.
### Lições para a América Latina
Para a América Latina, especialmente para o Brasil, que tem crescido sua infraestrutura de TI, a situação na Ucrânia oferece lições valiosas. Embora a maioria dos centros de dados na região ainda esteja localizada em áreas expostas, a ameaça de ataques cibernéticos ou físicos — seja por terrorismo, desastres naturais ou conflito internacional — pode tornar a segurança de dados ainda mais crítica.
Investir em centros de dados subterrâneos pode ser uma estratégia de longo prazo para reduzir a dependência de infraestrutura externa e aumentar a resiliência de serviços críticos. Países como Chile e Argentina já têm planos de expansão de data centers que consideram fatores climáticos e de segurança, mas ainda pouco exploram a opção subterrânea.
Além disso, a experiência russa destaca a importância de integrar redes de fibra óptica robustas e sistemas de energia de backup confiáveis. No Brasil, onde a energia elétrica ainda pode ser instável em regiões remotas, garantir um fornecimento constante de energia para data centers subterrâneos exigiria parcerias público‑privadas e inovação em fontes renováveis.
### O futuro da proteção de dados em tempos de guerra
O fenômeno dos centros de dados subterrâneos pode se tornar mais comum à medida que os conflitos evoluem para o domínio digital. À medida que as tecnologias de drones se tornam mais acessíveis, ataques a infraestruturas críticas podem se intensificar. Por outro lado, a evolução das tecnologias de resfriamento, como sistemas de água a temperatura ambiente e energia solar distribuída, pode tornar a construção subterrânea mais viável e economicamente atrativa.
Além disso, a tendência global de “data sovereignty” — a busca por controle total sobre os dados de um país — pode impulsionar o desenvolvimento de centros de dados internos, reduzindo a necessidade de dependência de provedores estrangeiros.
Em suma, a resposta russa aos ataques de drones ucranianos sinaliza um novo capítulo na guerra digital, onde a proteção física de infraestruturas digitais torna-se tão crucial quanto a segurança cibernética tradicional. Para o Brasil e para a América Latina, a lição é clara: proteger a infraestrutura de dados requer planejamento estratégico que vai além da simples adoção de tecnologias de rede, contemplando também aspectos de engenharia civil, energia, logística e política.
O futuro da segurança digital pode estar no subsolo, e aqueles que conseguirem combinar inovação tecnológica com engenharia robusta estarão melhor posicionados para resistir a ataques que transcendem o espaço aéreo e se estendem ao coração das operações de TI.
Fonte original
Ars Technica








