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Senadores exigem respostas de Dr. Oz sobre suposta colaboração com grupos negadores de eleição

Políticos americanos pressionam o senador Mehmet Oz por alterações nas diretrizes de voto de residentes em casas de repouso que podem ter favorecido narrativas de fraude eleitoral

WIRED

A disputa que hoje ocupa os corredores do Capitólio tem raízes que vão além de um simples debate legislativo; ela reflete a crescente polarização americana e a infiltração de narrativas de negação eleitoral nos corredores da saúde pública. No início de 2024, senadores republicanos e democratas começaram a interrogar publicamente o senador Mehmet "Dr. Oz" Oz — conhecido por seu programa de televisão e, mais recentemente, por sua atuação como representante de Flórida no Senado — acerca de possíveis colaborações com grupos que se autodenominam "defensores da integridade eleitoral" mas que, segundo críticos, promovem teorias da conspiração sobre fraude nas urnas. O ponto de partida da controvérsia foi a mudança nas orientações do Centers for Medicare and Medicaid Services (CMS), órgão federal que regula cuidados de saúde para idosos, que, sob a gestão de Oz, passou a flexibilizar os requisitos de presença física para o voto de residentes de casas de repouso. Essa flexibilização acabou sendo usada como argumento por campanhas de extrema‑direita para alegar que eleitores vulneráveis estavam sendo manipulados, alimentando a narrativa de que os partidos de esquerda estariam "roubando" votos de idosos.

Para entender a gravidade das acusações, é preciso revisitar a história das regras de voto nos Estados Unidos. Desde a aprovação da Lei de Direitos de Voto de 1965, estados têm a responsabilidade de garantir que eleitores com mobilidade reduzida possam exercer o sufrágio sem obstáculos. No entanto, a pandemia de Covid‑19 trouxe à tona a necessidade de adaptações temporárias, como a votação por correio e a votação assistida em hospitais. O CMS, em 2020, emitiu diretrizes que permitiam a presença de representantes de confiança nas cabines de voto de residentes em instituições de longa‑tempo, a fim de evitar que a saúde fragilizada impedisse a participação cidadã. Quando Oz assumiu como secretário interino do CMS em 2021, ele manteve essas diretrizes, mas acrescentou linguagem que, segundo críticos, poderia ser interpretada como incentivo à participação de grupos externos nas decisões de voto.

A mudança mais citada pelos senadores é a remoção de uma cláusula que exigia a assinatura de um cuidador ou familiar para validar a presença de um assistente de voto. Sem essa barreira documental, defensores da política eleitoral afirmam que foi aberto caminho para que organizações alinhadas a agendas de negação de resultados — como a "America First Voting Alliance" — oferecessem serviços de assistência ao voto dentro de lares de idosos, potencialmente influenciando escolhas políticas. Dados do Census Bureau indicam que, em 2023, cerca de 1,3 milhão de americanos residiam em casas de repouso, representando um eleitorado que historicamente tem preferência por candidatos conservadores, mas que também pode ser sensível a mensagens de vulnerabilidade.

Do ponto de vista técnico, as diretrizes do CMS não são regras eleitorais, mas orientações de saúde que definem o ambiente seguro para a prática do voto. Ao eliminar a exigência de assinatura, o órgão reduziu a burocracia, mas também diminuiu a rastreabilidade de quem estava presente na cabine. Especialistas em direito eleitoral, como a professora de Harvard, Emily Bazelon, argumentam que a ausência de documentação pode gerar lacunas de transparência, permitindo que agentes externos exerçam pressão psicológica sobre eleitores com capacidade cognitiva comprometida. Essa preocupação se intensificou quando grupos de direita começaram a divulgar vídeos nas redes sociais alegando que enfermeiros e funcionários de casas de repouso estavam "coordenando" votos em favor de candidatos democratas, embora nenhuma investigação formal tenha comprovado tais práticas.

O embate chegou ao Senado quando, em maio de 2024, o senador John Cornyn (R‑TX) e a senadora Tammy Baldwin (D‑WI) apresentaram uma carta conjunta solicitando ao Comitê de Saúde, Educação, Trabalho e Pensões (HELP) que investigasse a atuação de Oz no CMS. A carta cita documentos internos que, supostamente, mostram e‑mails trocados entre representantes da "America First Voting Alliance" e assessores do CMS, nos quais se discute a possibilidade de expandir a assistência ao voto para além dos limites de "representante de confiança". Oz, por sua vez, negou veementemente qualquer contato direto com grupos de negação eleitoral, argumentando que todas as mudanças foram baseadas em recomendações de organizações de saúde pública e em demandas de organizações de direitos dos idosos.

A controvérsia também tem repercussões econômicas. O setor de cuidados de longa‑tempo nos EUA movimenta mais de US$ 1,2 trilhão anualmente, e qualquer alteração nas normas de CMS pode afetar contratos de prestação de serviços, seguros de saúde e até mesmo a alocação de fundos federais. Analistas da Bloomberg apontam que, se as investigações resultarem em sanções ou em revogação das diretrizes, empresas que fornecem serviços de assistência ao voto — muitas delas startups de tecnologia cívica — podem enfrentar perdas de receita de até 30% no próximo ciclo eleitoral. Por outro lado, grupos de defesa dos direitos dos eleitores argumentam que a restrição excessiva poderia diminuir a participação de um segmento vulnerável, gerando um custo democrático que ultrapassa quaisquer perdas financeiras.

No cenário internacional, a disputa ecoa discussões sobre a integridade eleitoral em países latino‑americanos, onde campanhas de desinformação também têm se aproveitado de vulnerabilidades do sistema de votação. No Brasil, por exemplo, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem enfrentado tentativas de grupos extremistas de questionar a validade de urnas eletrônicas e de manipular eleitores idosos por meio de mensagens de WhatsApp. A experiência americana serve como alerta para legisladores brasileiros que ainda consideram a possibilidade de introduzir a votação presencial em hospitais ou casas de repouso, especialmente à luz da Lei de Proteção ao Idoso (Lei nº 10.741/2003), que garante assistência integral, mas não trata especificamente de procedimentos eleitorais. Observadores do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) sugerem que, se o Brasil adotar políticas semelhantes às dos EUA sem salvaguardas claras, poderia abrir espaço para litigiosidade e polarização ainda maior.

A dimensão geopolítica não pode ser ignorada. A narrativa de negação de resultados eleitorais tem sido cultivada não apenas por atores internos, mas também por governos estrangeiros que buscam desestabilizar democracias ocidentais. Relatórios recentes do Departamento de Segurança Interna dos EUA apontam que a China e a Rússia têm financiado campanhas de desinformação que exploram temas como "voto de idosos" para semear dúvidas sobre a legitimidade das eleições. Assim, a investigação sobre a suposta colaboração de Oz com grupos negadores pode ser vista como parte de um esforço maior de proteger a integridade do processo democrático contra interferências externas.

Do ponto de vista da imprensa, a cobertura da saga tem sido intensa e polarizada. Enquanto veículos conservadores como o Fox News enfatizam que a investigação é um ataque político ao senador e que as mudanças no CMS visavam apenas facilitar a participação cidadã, meios progressistas como o The New York Times destacam a necessidade de transparência e de mecanismos de controle mais robustos. Essa divergência reflete a fragmentação do ecossistema midiático americano, onde a percepção do público sobre a gravidade da situação varia de acordo com a fonte de informação.

Para o leitor brasileiro, a história oferece lições valiosas sobre como políticas de saúde podem se tornar terreno fértil para disputas políticas quando não há clareza nas regras. A interseção entre assistência médica, direitos de voto e estratégias de campanha evidencia a necessidade de regulamentações que considerem tanto a proteção do eleitor vulnerável quanto a preservação da integridade do processo democrático. A proposta de criar um "código de conduta" para assistentes de voto em ambientes de saúde, defendida por organizações como a National Council on Aging, pode ser um modelo a ser adaptado no Brasil, garantindo que a assistência não se transforme em pressão indevida.

Em conclusão, a pressão dos senadores sobre Mehmet Oz revela um ponto de inflexão onde a saúde pública, a política eleitoral e a desinformação se entrelaçam de forma complexa. As investigações em curso poderão esclarecer se houve colusão real entre o ex‑secretário do CMS e grupos de negação de eleição, mas, independentemente do desfecho, o episódio reforça a importância de políticas de voto acessível que sejam transparentes, auditáveis e blindadas contra influências externas. Para o Brasil, observar atentamente esse caso pode orientar a formulação de normas que assegurem a participação plena de idosos nas eleições, sem abrir brechas para manipulações. O futuro da democracia, tanto nos Estados Unidos quanto na América Latina, dependerá da capacidade dos legisladores de equilibrar inclusão e segurança em um cenário cada vez mais digital e politicamente carregado.

Fonte original

WIRED
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