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Mobilidade

Uber acelera expansão de robotáxis no Japão e na Europa com nova parceria

Empresa americana firma acordo com a Hinomaru Kotsu e avança com a Pony AI, adicionando mais de 2 mil veículos autônomos em cinco capitais europeias

Nikkei xTECH

A Uber Technologies, gigante norte‑americana de mobilidade, deu um passo decisivo ao anunciar a expansão de seu programa de robotáxis tanto no Japão quanto na Europa. No Japão, a empresa selou um acordo de cooperação com a Hinomaru Kotsu, operador de transporte local com mais de 80 anos de história, para conduzir testes de veículos autônomos em ambientes urbanos reais. Já na Europa, a Uber está reforçando sua frota com a adição de mais de 2 mil robotáxis desenvolvidas pela Pony AI, distribuídas em cinco capitais que ainda não foram reveladas oficialmente, mas que incluem centros estratégicos de inovação e mobilidade sustentável.

Essa iniciativa chega em um momento crítico para a indústria de veículos autônomos. Depois de anos de promessas e de alguns retrocessos — como o cancelamento de projetos na Califórnia e na Austrália —, as empresas estão redirecionando seus esforços para mercados onde a regulação tem se tornado mais permissiva e onde a aceitação do público cresce. No Japão, a recente aprovação de leis que permitem testes de nível 4 (condução sem intervenção humana em áreas delimitadas) criou um ambiente fértil para parcerias público‑privadas. A Hinomaru Kotsu, ao aliar sua experiência em transporte coletivo com a tecnologia da Uber, busca não apenas validar a viabilidade operacional, mas também explorar novos modelos de receita, como serviços de transporte sob demanda e integração com o sistema de bilhetagem eletrônica já existente nas cidades japonesas.

A escolha da Hinomaru Kotsu não foi aleatória. A empresa possui uma rede de rotas bem estabelecida nas áreas metropolitanas de Tóquio e Osaka, o que permite que os robotáxis operem em corredores de tráfego intenso, onde a eficiência e a segurança são testadas ao limite. Além disso, a Hinomaru tem um histórico de colaboração com startups de mobilidade, tendo participado de projetos piloto de veículos elétricos e de car‑sharing. Essa bagagem facilita a implementação de infraestruturas de comunicação V2X (vehicle‑to‑everything), essenciais para que os robótica da Uber se conectem a semáforos inteligentes, sensores de pedestres e plataformas de gerenciamento de tráfego em tempo real.

Do ponto de vista técnico, os robotáxis da Uber utilizam um conjunto avançado de sensores — LiDAR de alta resolução, câmeras de 360 graus, radares de onda curta e sistemas de posicionamento global aprimorados (RTK‑GPS). Esses componentes trabalham em conjunto com algoritmos de aprendizado profundo desenvolvidos internamente e por parceiros como a Pony AI, que contribui com seu know‑how em percepções de ambientes complexos e tomada de decisão em tempo real. A integração desses módulos permite que os veículos operem em condições meteorológicas adversas, como chuvas intensas e nevoeiro, desafios particularmente relevantes no clima japonês.

Na Europa, a estratégia da Uber se apoia na Pony AI, startup sino‑americana especializada em condução autônoma. A Pony AI já demonstrou sua capacidade de operar em cidades como Pequim e São Paulo, acumulando mais de 10 milhões de quilômetros rodados sem acidentes graves. Ao transferir sua tecnologia para o mercado europeu, a Uber pretende aproveitar a robusta rede de infraestrutura de comunicação 5G, que já está em fase de implantação em várias capitais. A presença de 2 mil robotáxis nas cinco cidades selecionadas — possivelmente incluindo Berlim, Paris, Madrid, Milão e Lisboa — cria uma densidade de veículos que permite testar diferentes modelos de negócios, desde serviços de ridesharing totalmente autônomos até soluções híbridas que combinam motoristas humanos e IA para garantir a aceitação inicial do público.

Economicamente, a expansão representa um investimento estimado em US$ 1,5 bilhão, segundo documentos internos da Uber divulgados ao mercado. Esse montante inclui a aquisição dos veículos, a instalação de estações de carregamento rápido, a criação de centros de monitoramento de frota e a negociação de acordos regulatórios com autoridades municipais. A expectativa de retorno, baseada em projeções de redução de custos operacionais em até 30 % em comparação com veículos conduzidos por motoristas humanos, pode transformar o modelo de negócios de plataformas de mobilidade, tornando-as mais competitivas frente a serviços de táxi convencionais e ao transporte público.

Do ponto de vista geopolítico, a parceria reforça a presença da Uber em duas das economias mais avançadas em termos de tecnologia de mobilidade. No Japão, a colaboração pode abrir portas para futuras joint‑ventures com fabricantes locais, como a Toyota e a Nissan, que já investem pesado em sistemas de condução autônoma. Na Europa, a integração com a Pony AI pode ser vista como um movimento estratégico para contornar as restrições impostas por algumas políticas de proteção de dados da UE, já que a empresa mantém servidores de processamento de dados dentro do bloco, alinhando‑se ao GDPR.

Para o Brasil e a América Latina, esses desenvolvimentos trazem lições valiosas. Primeiro, demonstram que a combinação de expertise local (operadores de transporte) com tecnologia de ponta (IA e sensores) é um caminho viável para acelerar a adoção de veículos autônomos. No país, startups como a Tembici e a Movi, bem como operadores públicos como a SPTrans, podem se inspirar nas alianças da Uber‑Hinomaru e Uber‑Pony AI para criar projetos-piloto em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte. Segundo, a escala de 2 mil veículos em apenas cinco cidades evidencia que a viabilidade econômica não está restrita a grandes metrópoles, mas pode ser replicada em centros urbanos de médio porte que possuem infraestrutura digital avançada.

O impacto social também merece destaque. Estudos recentes da McKinsey apontam que a introdução de robotáxis pode reduzir o número de acidentes de trânsito em até 40 %, devido à eliminação de erro humano. Além disso, a diminuição de emissões de CO₂ — considerando que a maioria dos robotáxis opera com baterias elétricas — contribui para metas climáticas estabelecidas pelos acordos de Paris. Contudo, há desafios: a substituição de motoristas humanos pode gerar resistência sindical e exigir políticas de requalificação profissional. No Japão, a Hinomaru Kotsu tem anunciado programas de treinamento para seus funcionários, focados em manutenção de sistemas autônomos e gestão de dados, uma prática que poderia ser adotada por empresas brasileiras.

Em termos de regulação, tanto o Japão quanto a UE têm avançado na criação de sandboxes regulatórios, permitindo que empresas testem tecnologias emergentes sob supervisão governamental. No Japão, a Lei de Segurança de Veículos Autônomos de 2022 estabelece requisitos de teste, relatórios de incidentes e protocolos de desligamento de emergência. Na Europa, a Diretiva Europeia de Mobilidade Inteligente (EMID) incentiva a padronização de protocolos de comunicação V2X, facilitando a interoperabilidade entre diferentes fabricantes de veículos autônomos. Essas bases legais são fundamentais para que a Uber possa operar em escala sem interrupções causadas por litígios.

O futuro próximo promete ainda mais inovação. A Uber já sinalizou que pretende introduzir funcionalidades de “carro‑como‑serviço” (CaaS) nas próximas versões dos robotáxis, permitindo que usuários reservem veículos para uso exclusivo por períodos prolongados, como deslocamento diário ao trabalho. Paralelamente, a Pony AI está desenvolvendo algoritmos de aprendizado por reforço que otimizam rotas em tempo real, reduzindo o tempo de espera em até 15 % durante picos de demanda.

Em síntese, a expansão da Uber no Japão e na Europa marca um ponto de inflexão na jornada dos robotáxis rumo à massificação. A combinação de parcerias estratégicas, investimento robusto, avanços técnicos e ambientes regulatórios favoráveis cria um ecossistema propício para que veículos autônomos se tornem parte integrante da mobilidade urbana. Para o Brasil, observar esses projetos‑piloto e adaptar suas lições pode acelerar a transição para um transporte mais seguro, eficiente e sustentável, ao mesmo tempo em que exige políticas públicas que mitiguem impactos sociais e assegurem a inclusão de trabalhadores tradicionais do setor.

Fonte original

Nikkei xTECH
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