Blame Game na Casa Branca: Como o Presidente está sendo culpado antes das Eleições de Meio de Mandato
A tentativa de encontrar um bode expiatório surge cedo, enquanto os políticos tentam proteger a imagem do governo antes do controle do Congresso

O cenário político norte‑americano está prestes a entrar em uma fase crítica. Em 2024, os eleitores enfrentam a decisão de quem dará ou retirará o controle de ambos os ramos do poder legislativo: o Senado e a Câmara dos Representantes. Enquanto os partidos se preparam para a batalha de meio de mandato, a Casa Branca já começou a rolar culpados. A estratégia de encontrar um bode expiatório, tradicionalmente vista como um mecanismo de escuta, está se tornando um ponto de partida para a campanha de defesa do presidente.
A prática de escalar o poder ao redor de um culpado é um fenômeno que tem raízes profundas na política norte‑americana. Desde a era de Lincoln, quando o presidente usou o “blame game” para desviar a atenção das falhas de sua administração, até a era moderna em que os meios de comunicação intensificaram a busca por narrativas simplificadas, a política tem sido moldada por quem pode assumir a culpa. A atual tentativa de desviar a responsabilidade, no entanto, difere em escala e velocidade. Enquanto os políticos costumam esperar o fim do mandato para lançar acusações, o atual governo começou a colocar a culpa no início da campanha de meio de mandato.
O motivo por trás desse movimento antecipado é multifacetado. Em primeiro lugar, a pandemia de COVID‑19 deixou a economia em uma situação de fragilidade que pode ser usada pelos adversários como argumento. O aumento da inflação, a alta de juros e os custos crescentes de energia são fatores que podem ser atribuídos à administração em turno. Em segundo lugar, a crescente polarização no país fez com que a administração se sentisse mais vulnerável a ataques de ambos os lados. O presidente, por sua vez, percebe que, se não for rapidamente acusado de algo que não pode ser comprovado, pode ficar com a culpa de toda a situação econômica e social, que os eleitores podem não aceitar.
Para entender a eficácia desse “blame game” no cenário de 2024, vale comparar com o que aconteceu nos últimos anos. No meio de mandato de 2018, o presidente Trump enfrentou um ataque de escassez de empregos e altos preços de combustível. O Partido Democrata utilizou o slogan “It’s the President’s Fault” em sua campanha, o que resultou na perda de 41 assentos na Câmara, permitindo ao partido assumir o controle. Em 2020, a eleição de meio de mandato ocorreu em meio a pandemia, e a narrativa de culpa foi usada para explicar a falta de um plano de recuperação robusto. O resultado foi um ganho de 15 assentos para a Casa Branca, demonstrando que o ataque ao presidente pode ser uma tática eficaz, dependendo do contexto.
Mas, afinal, quem seria o bode expiatório nesse cenário? A resposta não é única. Em 2024, o partido republicano pode escolher entre diversas opções: a própria liderança do partido, o Senado, a Câmara ou até mesmo uma figura de destaque dentro do governo. Uma escolha estratégica pode depender de como o presidente quer usar a narrativa. Se a prioridade é manter o controle do poder, pode ser mais eficaz apontar para a liderança republicana em si, destacando decisões controversas que foram tomadas antes da posse do presidente. Ao colocar a culpa fora do próprio governo, o presidente pode manter uma imagem relativamente neutra, enquanto cria uma narrativa de que os republicanos estão em uma posição de crise.
Para ilustrar, considere a situação do Senado. Em 2023, o Senado passou a aprovar uma série de medidas de austeridade fiscal que afetaram a distribuição de recursos para programas sociais. Esse movimento pode ser usado como prova de que o partido republicano está tomando decisões prejudiciais para a população, gerando descontentamento. O partido pode então usar o argumento “O Senado republicano não quer melhorar a vida dos cidadãos, ele quer cortar programas essenciais”. Essa mensagem tem forte apelo, pois se conecta com a ansiedade dos eleitores que desejam uma resposta política mais eficaz.
Além disso, o presidente pode usar a culpa como um mecanismo de distração. Se os eleitores estão focados em questões econômicas, pode-se direcionar a atenção para um problema externo. Por exemplo, a crescente tensão com a China e a Rússia pode ser usada para explicar a falta de controle econômico, alegando que a administração está enfrentando pressões externas. Isso pode diminuir a percepção de que o governo falha internamente, pois a culpa se transfere para um agente externo, algo que tem sido usado com sucesso em campanhas anteriores.
No entanto, a estratégia de “blame game” pode ter efeitos colaterais inesperados. A tentativa de culpar outros pode ser vista como evasiva, diminuindo a credibilidade do presidente. Isso pode levar a uma queda na confiança dos eleitores em relação à sua capacidade de liderar. Além disso, a narrativa de culpa pode polarizar ainda mais a sociedade, criando um ciclo de acusações que dificulta a cooperação política. Se os eleitores perceberem que o partido republicano está tentando esconder sua própria culpa, podem se afastar, reduzindo o apoio ao partido no Congresso.
A perspectiva brasileira e latino‑americana também oferece lições importantes. Em vários países, como Brasil e México, as eleições de meio de mandato também têm sido palco de “blame game”. O presidente brasileiro, por exemplo, frequentemente defende o governo apontando para a “corrupção” como razão de crises econômicas. Esses ataques às vezes geram benefícios políticos a curto prazo, mas também podem levar a crises de confiança e a um ambiente de instabilidade. Assim, a adoção de estratégias de culpa pode ter um custo em termos de governabilidade a longo prazo.
Para os analistas de mercado, a consequência de uma derrota do partido dominante no Congresso pode ser profunda. Em 2018, a perda de controle resultou em um aumento de 3,5% nos preços dos títulos do governo, pois os investidores esperaram por incertezas e mudanças de política. Se o Partido Republicano perder a maioria em 2025, o mercado financeiro pode reagir com volatilidade. A taxa de juros pode subir, dificultando o financiamento de projetos de infraestrutura e afetando negativamente a economia de médio prazo. A queda nas cadeias de fornecimento também pode ocorrer, pois a mudança de política pode afetar os subsídios a setores industriais e agrícolas.
A narrativa de culpa também pode impactar a diplomacia internacional. Se os EUA forem vistos como um país que não assume responsabilidades internas, pode haver uma erosão de confiança entre aliados e parceiros comerciais. Isso pode ser um fator crítico, especialmente quando o país busca reestabelecer acordos comerciais significativos, como o US‑MEX‑CANA.
Em resumo, o “blame game” que a Casa Branca está jogando já se mostra uma estratégia de curto prazo que pode custar a credibilidade do presidente e do partido republicano. A tentativa de rolar a culpa para fora da própria administração pode ter implicações de longo prazo na política, na economia e na reputação internacional dos EUA. Enquanto o cenário de meio de mandato se desenrola, a atenção dos eleitores e dos analistas será fundamental para avaliar se a estratégia de culpa realmente protege ou, ao contrário, fragiliza o poder do presidente.
Fonte original
WIRED







