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Indústria

Chaminé tombada simboliza a decadência da base industrial japonesa após o terremoto de Kumamoto

O colapso da estrutura da fábrica da Nissho Paper revela vulnerabilidades históricas e desafios de revitalização em um país que lidera a tecnologia, mas convive com instalações envelhecidas

Nikkei xTECH

No entardecer de 30 de julho de 2026, quando os raios de sol ainda cintilavam sobre a estrada que leva ao complexo industrial de Yatsushiro, na província de Kumamoto, a silhueta de uma chaminé partida se destacou contra o céu. O colapso da estrutura, que fazia parte da planta da Nissho Paper – uma das maiores produtoras de papel do Japão –, foi rapidamente capturado por repórteres que chegavam ao local para cobrir o terremoto de magnitude 6,5 que registrou o maior sismo do país em cinco anos. Mais do que um acidente isolado, a chaminé caída tornou‑se um símbolo visual da fragilidade de um parque industrial que, embora tecnicamente avançado, carrega o peso de décadas de operação sem renovação substancial.

A ocorrência aconteceu dois dias depois do choque sísmico, quando equipes de bombeiros e socorristas ainda circulavam pelos arredores da fábrica. Enquanto o fogo de busca e salvamento era mantido, a comunidade local se deparava com uma realidade que vai além da tragédia imediata: a infraestrutura de produção japonesa, em especial nas regiões fora dos grandes centros metropolitanos, está envelhecendo em ritmo acelerado. Dados do Ministério da Economia, Comércio e Indústria (METI) apontam que a idade média das fábricas de processos pesados no Japão ultrapassa 34 anos, e que cerca de 48% das instalações industriais foram construídas antes da década de 1990. Essa estatística, embora pareça meramente numérica, tem implicações diretas na capacidade de resistir a eventos naturais, como terremotos, tsunamis e tufões, que historicamente desafiam o arquipélago.

O caso da Nissho Paper ilustra bem esse ponto. A planta de Yatsushiro, inaugurada em 1978, foi projetada em uma época em que as normas sísmicas japonesas ainda eram menos rigorosas que as atuais. Embora tenha passado por reformas ao longo dos anos, a estrutura da chaminé nunca recebeu uma revisão completa de resistência sísmica. Quando o tremor de 2026 atingiu, as forças horizontais geradas excederam a capacidade de absorção da construção, resultando na deformação visível e, finalmente, no colapso parcial da torre. Essa falha evidencia a necessidade de uma abordagem sistemática de avaliação de risco, que vá além de inspeções pontuais e incorpore tecnologias emergentes como sensores de vibração em tempo real e modelos digitais (digital twins) que simulam o comportamento estrutural sob diferentes cenários de carga.

Do ponto de vista econômico, o impacto imediato de um evento como esse pode ser mensurado em perdas diretas de produção, custos de reparo e interrupção de cadeias de suprimentos. A Nissho Paper, responsável por cerca de 12% da produção nacional de papel kraft, viu sua capacidade operativa reduzir em 35% nas primeiras semanas após o terremoto. Estimativas preliminares sugerem que o prejuízo direto pode chegar a 250 bilhões de ienes (aproximadamente 1,8 bilhão de dólares), sem contar os efeitos indiretos sobre fornecedores de matéria‑prima, transportadoras e clientes finais, que incluem indústrias de embalagens e impressão.

Além do aspecto financeiro, há implicações geopolíticas que merecem atenção. O Japão, tradicionalmente visto como um bastião de excelência industrial e tecnológica, tem sido alvo de críticas por parte de investidores estrangeiros que apontam a vulnerabilidade de suas instalações como risco de investimento. Em 2025, o Fundo de Pensões da Noruega retirou 0,5% de seus ativos de empresas japonesas de manufatura, citando “preocupações com a resiliência física dos ativos”. Essa decisão, embora pequena em termos de volume, sinaliza uma mudança de postura global em relação à sustentabilidade estrutural como critério de avaliação de risco.

No cenário nacional, a resposta do governo japonês tem sido rápida, mas ainda insuficiente para solucionar o problema de base. O Plano de Revitalização da Indústria, anunciado em março de 2025, destinou 10 trilhões de ienes (cerca de 73 bilhões de dólares) para a modernização de equipamentos, substituição de componentes críticos e implementação de sistemas de monitoramento sísmico avançado. Contudo, críticos apontam que a maior parte dos recursos está direcionada a setores de alta tecnologia, como semicondutores e robótica, deixando as indústrias tradicionais, como papel e aço, em segundo plano.

Especialistas como a professora Hiroko Tanaka, do Instituto de Tecnologia de Tóquio (Tokyo Tech), argumentam que a solução exige uma abordagem holística. "Não basta reforçar uma chaminé ou instalar sensores; precisamos de uma estratégia de gestão de ativos que considere o ciclo de vida completo das instalações, integrando manutenção preditiva, renovação de design e, sobretudo, um marco regulatório que torne obrigatória a certificação sísmica a cada 10 anos", afirma Tanaka. Ela ainda destaca que a cooperação entre universidades, startups de IoT e grandes conglomerados pode acelerar a adoção de tecnologias como o Machine Learning para prever falhas estruturais antes que ocorram.

Para o Brasil, a história da Nissho Paper oferece lições valiosas. Nosso país possui uma base industrial que, em muitas regiões, também supera a idade média de 30 anos, especialmente nos setores de siderurgia, mineração e produção de celulose. A falta de investimentos em modernização e em sistemas de monitoramento de risco tem sido apontada como um dos principais gargalos para a competitividade global. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 42% das fábricas brasileiras foram construídas antes de 1990, e apenas 18% passaram por avaliações estruturais nos últimos cinco anos. O risco sísmico, embora menos frequente que no Japão, não pode ser descartado, sobretudo nas áreas da Cordilheira dos Andes, onde a atividade tectônica é significativa.

Adotar as práticas que o Japão está começando a implementar pode representar um diferencial competitivo para o Brasil. A implantação de sensores de vibração, a criação de gêmeos digitais das instalações e a exigência de certificações periódicas são medidas que podem reduzir perdas potenciais em desastres naturais e melhorar a confiança de investidores internacionais. Além disso, políticas públicas que ofereçam linhas de crédito específicas para a renovação de ativos industriais podem estimular a modernização sem sobrecarregar as empresas, que muitas vezes operam com margens apertadas.

O cenário internacional também indica que a questão da resiliência industrial está se tornando um tema central em fóruns como o G7 e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em sua última reunião, os líderes do G7 destacaram a necessidade de criar "infraestruturas críticas resilientes" como prioridade estratégica, propondo a criação de um fundo de 30 bilhões de dólares para apoiar projetos de modernização em países membros e parceiros estratégicos. O Japão, ainda que reconheça suas deficiências, comprometeu‑se a liderar a iniciativa, o que pode abrir portas para cooperação bilateral com nações emergentes, incluindo o Brasil.

Em termos de futuro, a tendência aponta para uma convergência entre a digitalização da indústria (Indústria 4.0) e a necessidade de robustez física. Soluções como o uso de drones para inspeção de estruturas, análise de imagens por IA para detecção de fissuras e a integração de dados de sensores em plataformas de gestão de ativos prometem reduzir custos de manutenção e aumentar a segurança. No caso da Nissho Paper, a empresa já anunciou um projeto piloto que utiliza aprendizado de máquina para analisar vibrações de equipamentos críticos, visando detectar anomalias com antecedência de até 30 dias. Se bem‑sucedido, o modelo poderá ser replicado em outras fábricas japonesas e, potencialmente, em instalações latino‑americanas.

A conclusão inevitável é que a chaminé partida em Yatsushiro não é apenas um detalhe visual de uma tragédia natural; é um alerta sobre o estado de uma infraestrutura que sustenta a economia de um dos países mais avançados tecnologicamente. O caminho para a recuperação exige investimentos maciços, inovação tecnológica e, sobretudo, vontade política para transformar a abordagem de manutenção de ativos industriais. Para o Brasil, observar e adaptar essas lições pode ser a chave para evitar que nossos próprios símbolos de decadência apareçam nas manchetes nos próximos anos.

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Nikkei xTECH
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