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Inteligência Artificial

Engenheiros civis japoneses criam 11 apps com IA generativa e reduzem 80% da burocracia

Sem experiência em programação, profissionais da construção de Hiroshima desenvolvem soluções digitais que prometem transformar a gestão de obras no Japão e inspirar o Brasil

Nikkei xTECH

A construção civil, historicamente marcada por processos manuais e papelada excessiva, está atravessando uma revolução silenciosa impulsionada pela inteligência artificial. No coração dessa mudança, está a Koji-gumi, uma empresa de médio porte com sede em Hiroshima, que, nos últimos seis meses, viu um grupo de engenheiros civis sem nenhuma formação em programação transformar seu cotidiano ao desenvolver, com apoio de IA generativa, onze aplicativos web focados na gestão de obras e na automação de documentos. A consequência imediata foi a redução de até 80% das tarefas burocráticas que antes consumiam grande parte do tempo dos profissionais de campo, permitindo que eles se dedicassem mais à tomada de decisões técnicas e à supervisão de obras.

O ponto de partida da iniciativa foi a percepção de que a equipe de campo da Koji-gumi enfrentava gargalos recorrentes: preenchimento de relatórios diários, controle de materiais, atualização de cronogramas e geração de documentos regulatórios exigiam horas de trabalho repetitivo. Tradicionalmente, a solução seria contratar desenvolvedores de software ou terceirizar a criação de sistemas sob medida, um investimento que muitas vezes ultrapassa o orçamento de empresas de porte regional. Contudo, o avanço dos modelos de linguagem grande (LLMs), como o ChatGPT, Gemini ou Claude, trouxe à tona a possibilidade de que profissionais de áreas não técnicas pudessem, com orientação adequada, gerar código funcional a partir de descrições em linguagem natural.

A primeira fase do projeto consistiu em capacitar os engenheiros com prompts específicos para a IA. Por exemplo, ao precisar de um formulário que coletasse a quantidade de concreto entregue ao canteiro, o engenheiro descrevia a necessidade em português ou japonês e solicitava ao modelo a criação de um aplicativo em React com backend em Node.js. A IA devolvia o código completo, incluindo a interface, a lógica de validação e a integração com o banco de dados MySQL. O engenheiro revisava, testava e ajustava pequenos detalhes, sem precisar conhecer a fundo a sintaxe da linguagem. Esse método de "programação assistida por IA" reduziu o tempo de desenvolvimento de um aplicativo de semanas para algumas horas.

Ao longo de seis meses, a equipe entregou onze ferramentas distintas: (1) um painel de controle de cronograma que atualiza automaticamente o Gantt a partir de marcos inseridos pelos mestres de obra; (2) um gerador de relatórios diários que compila fotos, medições e observações em PDF; (3) um rastreador de materiais que alerta quando o consumo ultrapassa os limites previstos; (4) um sistema de aprovação de mudanças de projeto que registra assinaturas digitais; (5) um dashboard de segurança que consolida incidentes e inspeções; (6) um aplicativo de check‑list de inspeção de qualidade; (7) um módulo de cálculo de custos operacionais em tempo real; (8) um portal de comunicação entre equipe de campo e escritório; (9) um gerador de documentos de conformidade ambiental; (10) um controle de horas trabalhadas integrado ao payroll; e (11) um sistema de gestão de sub‑contratados com avaliação de desempenho. Cada solução foi criada a partir de prompts iterativos, testada em ambiente de teste e, após validação, implantada no servidor da empresa.

Os resultados quantitativos são impressionantes. Segundo a própria Koji-gumi, o tempo médio gasto pelos engenheiros em tarefas administrativas caiu de 12 horas semanais para cerca de 2,5 horas, representando uma redução de 80%. A economia de horas se traduziu em cerca de ¥15 milhões (aproximadamente US$ 110 mil) por ano, considerando salários e custos operacionais. Além da economia direta, a qualidade dos documentos melhorou, com menos erros de digitação e maior padronização, o que reduziu a necessidade de retrabalho em auditorias internas e inspeções governamentais.

Do ponto de vista técnico, a experiência evidencia a viabilidade da chamada "programação low‑code impulsionada por IA" em ambientes industriais. Enquanto plataformas low‑code tradicionais exigem conhecimento de fluxos de trabalho e, muitas vezes, de lógica de negócios, a IA generativa elimina a barreira de sintaxe, permitindo que o especialista em domínio – no caso, o engenheiro civil – descreva exatamente o que precisa e receba código pronto para uso. Essa abordagem também reduz o risco de dependência de fornecedores externos, já que o código é mantido internamente e pode ser ajustado rapidamente conforme as normas de construção evoluem.

A história da Koji-gumi não ocorre isolada. No Japão, a escassez de mão‑de‑obra qualificada nas áreas de TI, combinada com o envelhecimento da força de trabalho da construção, tem pressionado empresas a buscar soluções automatizadas. Dados da Ministry of Land, Infrastructure, Transport and Tourism (MLIT) indicam que, entre 2015 e 2023, a taxa de adoção de BIM (Building Information Modeling) nas obras japonesas subiu de 15% para quase 45%, mas ainda há resistência em setores de pequenas e médias empresas que não dispõem de recursos para contratar equipes de desenvolvimento.

A estratégia adotada pela Koji-gumi serve como modelo para o Brasil e demais países da América Latina, onde a construção civil representa cerca de 6% do PIB e enfrenta desafios semelhantes: baixa produtividade, alta informalidade e escassez de profissionais de TI. No Brasil, iniciativas de transformação digital ainda se concentram em grandes empreiteiras, enquanto a maioria das construtoras regionais opera com processos analógicos. A experiência japonesa demonstra que a barreira de entrada pode ser superada com ferramentas de IA acessíveis, sobretudo quando combinadas com treinamento focado em prompts e validação de código.

Especialistas brasileiros já apontam para o potencial de replicação. Segundo a professora Ana Lúcia Ferreira, do Programa de Engenharia de Software da USP, "a adoção de IA generativa permite que engenheiros de campo criem soluções sob medida sem precisar contratar desenvolvedores, o que democratiza a inovação dentro da cadeia da construção". Ela ressalta que, para que o modelo funcione, é essencial estabelecer boas práticas de revisão de código, controle de versão e segurança da informação, evitando que aplicações criadas de forma rápida se tornem vetores de vulnerabilidades.

Além dos benefícios operacionais, a iniciativa tem implicações econômicas mais amplas. Ao reduzir custos administrativos, as empresas podem investir mais em tecnologia de obra, como sensores IoT e drones de monitoramento, criando um ciclo virtuoso de digitalização. No cenário geopolítico, a capacidade de inovar internamente pode tornar as companhias mais resilientes a flutuações cambiais e a restrições de importação de software estrangeiro, um aspecto relevante para países que buscam maior autonomia tecnológica.

Entretanto, nem tudo são flores. O uso intensivo de IA generativa levanta questões sobre propriedade intelectual do código gerado, responsabilidade por bugs e conformidade com normas de segurança de dados, sobretudo quando informações sensíveis de projetos são processadas por serviços de nuvem externos. A Koji-gumi, por exemplo, adotou políticas internas que exigem a revisão de todo código por um engenheiro de software parceiro, garantindo que padrões de segurança e privacidade sejam atendidos antes da implantação.

Em termos de futuro, a empresa planeja ampliar o portfólio de aplicativos, incluindo módulos de análise preditiva de risco que utilizam aprendizado de máquina para antecipar atrasos e sobrecargas de custos. Essa evolução demonstra que a IA não se limita à automação de tarefas repetitivas, mas pode evoluir para suporte à decisão estratégica, alinhando-se à tendência global de "construção inteligente". Para o Brasil, a lição é clara: ao capacitar profissionais de campo a dialogar diretamente com ferramentas de IA, abre‑se caminho para que a construção civil alcance níveis de eficiência comparáveis aos de setores mais avançados tecnologicamente.

Em suma, a experiência da Koji-gumi evidencia que a combinação de conhecimento de domínio com IA generativa pode romper a dependência de desenvolvedores especializados, gerar economia substancial e criar um ecossistema de inovação interno. Se replicada com adaptações locais, essa abordagem tem o potencial de transformar a produtividade da construção civil no Brasil, reduzir custos e melhorar a qualidade dos projetos, contribuindo para um setor mais competitivo e sustentável.

Fonte original

Nikkei xTECH
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