Euro NCAP dá cinco estrelas a Audi Q7, Kia EV2 e Xpeng X9, mas destaca risco de controles por tela sensível
Avaliação revela que o predomínio de interruptores virtuais nos veículos chineses reduz a nota de operação, apontando desafios de usabilidade e segurança na transição digital dos carros

A Euro NCAP – a organização independente que testa e classifica a segurança veicular na Europa – divulgou recentemente os resultados de seus testes de colisão para três SUVs que vêm despertando atenção em diferentes continentes. O tradicional Audi Q7, o recém‑lançado Kia EV2, que representa a crescente aposta da coreana em eletrificação, e o Xpeng X9, a mais recente oferta da montadora chinesa Xpeng, foram submetidos aos mesmos protocolos rígidos de avaliação de choque frontal, lateral e de capotamento. Todos os três modelos alcançaram a nota máxima de cinco estrelas no critério global de segurança, um reconhecimento que atesta a eficácia das estruturas de carroceria, dos airbags e dos sistemas de assistência avançada ao motorista (ADAS). Contudo, ao aprofundar a análise das subcategorias, a Euro NCAP destacou um ponto de divergência crucial: a operação de condução, medida pela facilidade e segurança de uso dos controles durante a pilotagem. Enquanto o Q7 manteve um desempenho robusto em todas as dimensões, o EV2 e o X9 sofreram penalizações significativas devido ao uso intensivo de "touch‑screen switches", ou seja, botões virtuais exibidos em telas sensíveis ao toque. Essa escolha de design, embora ofereça um interior moderno e reduzido em botões físicos, compromete a ergonomia e a rapidez de acesso a funções críticas, como controle de climatização, ajustes de iluminação e, sobretudo, operação de sistemas de emergência.
Para entender por que a Euro NCAP penaliza a operabilidade, é preciso revisitar a metodologia da agência. Desde 2018, a entidade introduziu o "Safety Assist" (Assistência de Segurança), que avalia não apenas a capacidade de absorver energia em um acidente, mas também a probabilidade de o motorista cometer erros ao interagir com o veículo. Estudos comportamentais conduzidos por universidades europeias mostram que, em situações de alta carga cognitiva – como manobras evasivas ou frenagens bruscas – motoristas que dependem de telas táteis tendem a desviar a atenção da via por períodos mais longos, aumentando o risco de colisões secundárias. A Euro NCAP quantifica esse risco em um índice que varia de 0 a 5; o Audi Q7 registrou 4,7, enquanto o Kia EV2 e o Xpeng X9 ficaram em 3,2 e 3,0, respectivamente.
Essa diferença de pontuação tem implicações diretas no mercado automobilístico global. As montadoras chinesas, que nos últimos cinco anos elevaram suas exportações em cerca de 35 % – impulsionadas por políticas de incentivo à eletrificação e acordos comerciais com a UE – estão tentando posicionar seus modelos como alternativas mais acessíveis e tecnologicamente avançadas aos veículos europeus. No entanto, ao priorizar interfaces digitais em detrimento de controles físicos, correm o risco de encontrar resistência não apenas dos reguladores, mas também dos consumidores que valorizam a “sensação tátil” tradicional. Em mercados como o brasileiro, onde a taxa de sinistralidade rodoviária já supera 25 % das ocorrências globais, a percepção de segurança na operação do veículo pode ser decisiva para a escolha do comprador. Pesquisas do IPEA indicam que 68 % dos motoristas brasileiros consideram “facilidade de uso dos controles” um critério essencial ao adquirir um carro novo.
Do ponto de vista técnico, a transição para interfaces totalmente digitais envolve desafios complexos. Primeiro, a latência de resposta das telas – mesmo que medidos em milissegundos – pode ser percebida como atraso pelo usuário, sobretudo em ambientes de luz solar intensa, onde o brilho da tela diminui a legibilidade. Segundo, a falta de feedback tátil (haptics) reduz a confirmação sensorial de que um comando foi efetivamente acionado. Algumas montadoras, como a Tesla, mitigam esse problema ao integrar botões físicos dedicados a funções críticas (por exemplo, acionamento de emergência) mesmo em painéis dominados por telas. A Kia e a Xpeng ainda não adotaram essa abordagem híbrida, o que explica parte da avaliação negativa.
O caso da Audi Q7 ilustra uma filosofia de design que combina tecnologia avançada com a manutenção de controles analógicos. Embora o Q7 inclua uma central multimídia de 10,1 polegadas, ele preserva botões físicos para climatização, iluminação e funções de assistência, permitindo que o motorista ajuste rapidamente esses parâmetros sem desviar o olhar da estrada. Essa estratégia reflete uma tendência observada entre marcas premium europeias, que têm investido em pesquisa de usabilidade para equilibrar a estética futurista com a segurança prática.
Ao analisar o panorama da indústria, vale notar que a regulamentação de segurança veicular na União Europeia está se tornando cada vez mais exigente. A proposta de atualização da Diretiva de Segurança de Veículos (2025) inclui requisitos explícitos de “interatividade intuitiva”, que poderão exigir a presença de controles físicos para funções essenciais. Essa mudança pressiona os fabricantes chineses a adaptar seus projetos ou enfrentar barreiras de entrada mais rígidas nos mercados ocidentais.
No contexto latino‑americano, a situação ganha contornos ainda mais críticos. Países como México, Argentina e Chile têm demonstrado interesse crescente em veículos elétricos chineses, atraídos pelos preços competitivos e pela oferta de tecnologia de ponta. Contudo, as agências de homologação locais ainda não possuem protocolos tão detalhados quanto a Euro NCAP, o que pode gerar disparidades de segurança percebida. Se os consumidores latino‑americanos adotarem veículos com interfaces predominantemente digitais sem a devida adaptação cultural e educacional, pode haver um aumento nos incidentes de distração ao volante. Programas de treinamento de condução, como os promovidos pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), precisarão incorporar módulos específicos sobre uso de telas sensíveis em veículos.
A resposta das montadoras chinesas a essas críticas já está em curso. Em seu último relatório anual, a Xpeng anunciou um investimento de US$ 150 milhões em desenvolvimento de sistemas de controle háptico e a introdução de botões físicos retráteis em modelos futuros. A Kia, por sua vez, revelou um plano de co‑desenvolvimento com a empresa alemã Continental para criar “painéis de toque adaptativo”, que ajustam automaticamente o brilho e a sensibilidade ao ambiente externo, além de incorporar feedback vibrotátil. Essas iniciativas demonstram que a indústria está atenta às demandas de segurança e usabilidade, e que a convergência entre design digital e ergonomia tradicional ainda tem muito espaço para evoluir.
Economicamente, a penalização na nota de operação pode influenciar diretamente as decisões de compra corporativa e de frota. Empresas que gerenciam grandes frotas de veículos, como locadoras e serviços de entrega, costumam priorizar classificações de segurança em seus critérios de aquisição. Um score de operação abaixo de 3,5 pode excluir um modelo de processos de licitação, reduzindo as vendas potenciais em mercados críticos. Além disso, seguradoras europeias já utilizam as pontuações da Euro NCAP para calibrar prêmios de seguro; veículos com notas de operação mais baixas podem gerar tarifas mais altas, impactando a competitividade de preço dos modelos chineses.
Geopoliticamente, a diferença de avaliação pode reforçar a narrativa de que a tecnologia chinesa ainda precisa se adequar aos padrões ocidentais de segurança. Em meio a tensões comerciais e debates sobre propriedade intelectual, a Europa tem usado o Euro NCAP como ferramenta de soft power para definir benchmarks de qualidade. A crítica à predominância de telas sensíveis pode ser vista como um incentivo para que fabricantes chineses alinhem seus processos de design às expectativas europeias, facilitando acordos de livre‑comércio e reduzindo barreiras tarifárias.
Para o leitor brasileiro, o recado é claro: ao considerar um veículo importado, sobretudo de origem chinesa, é fundamental analisar não apenas a nota global de segurança, mas também a subcategoria de operação de condução. Test‑drives presenciais, avaliações de ergonomia e comparativos de interface são ferramentas essenciais para garantir que a inovação tecnológica não venha à custa da atenção e da capacidade de resposta do motorista.
Em síntese, a Euro NCAP reafirma que a segurança veicular vai além da resistência a impactos; ela inclui a interação humana com o veículo. Enquanto o Audi Q7 demonstra que é possível combinar tecnologia avançada e controles intuitivos, o Kia EV2 e o Xpeng X9 evidenciam que o caminho para a digitalização completa ainda tem obstáculos a superar. O futuro próximo deverá trazer soluções híbridas que mantenham a estética minimalista sem sacrificar a resposta tátil, atendendo às exigências regulatórias europeias e às expectativas dos consumidores latino‑americanos. A tendência aponta para veículos que oferecem interfaces adaptativas, feedback háptico aprimorado e, possivelmente, a reintegração de botões físicos estratégicos – um equilíbrio que, se bem alcançado, poderá consolidar a liderança das montadoras chinesas nos mercados globais de mobilidade sustentável.
Fonte original
Nikkei xTECH







