Entre Patas, Circuitos e Sonhos: Quem vai lançar o primeiro robô doméstico em massa?
Unitree, Tesla e Figure estão em disputa para transformar o lar em um parque de tecnologia.

O mercado global de robôs domésticos está em franca expansão, com previsões de atingir mais de US$ 27 bilhões até 2030, registrando um CAGR de 12,3% entre 2023 e 2030. Esse crescimento é impulsionado por três forças principais: a demanda crescente por assistentes pessoais que aliviem tarefas domésticas, o envelhecimento da população que procura soluções de cuidado em casa e a crescente aceitação de tecnologias de automação residencial, especialmente após a pandemia.
No centro dessa corrida, três nomes se destacam por sua visão inovadora e recursos distintos: a chinesa Unitree Robotics, a americana Tesla Inc., e a startup emergente Figure. Cada uma tem uma trajetória única que influencia a sua proposta de um robô doméstico em massa. Enquanto a Unitree já é reconhecida por robôs quadrúpedes de alta performance, a Tesla traz para a mesa um ecossistema de IA e veículos autônomos, e a Figure está se posicionando como um humanoide voltado especificamente para o cuidado e assistências em casa.
Unitree Robotics: da indústria para o lar
Fundada em 2014, a Unitree se consolidou como uma das líderes em robótica quadrúpede. Seu modelo Laikago, que custa cerca de US$ 5.000, foi projetado inicialmente para inspeção industrial, mas rapidamente ganhou atenção por sua mobilidade e baixo custo. Em 2023, a empresa anunciou a “Unitree Home”, um protótipo de quadrúpede adaptado para tarefas domésticas, como recolher objetos, abrir portas e até auxiliar na limpeza de áreas de difícil acesso.
A estratégia da Unitree baseia-se em três pilares: hardware robusto, integração de sensores avançados e um algoritmo de navegação que combina SLAM (Simultaneous Localization and Mapping) com aprendizado por reforço. A empresa já desenvolveu um ecossistema de software open‑source, permitindo que desenvolvedores locais construam aplicações personalizadas. Essa abertura cria um ambiente de inovação colaborativa que pode acelerar a adoção de robôs domésticos em países emergentes, como o Brasil.
Um dos maiores desafios para a Unitree é a adaptação de um robô quadrúpede, tradicionalmente usado em ambientes industriais, a um contexto doméstico que exige suavidade, segurança e interação social. Para superar isso, a empresa está investindo em atuadores com maior precisão e em sistemas de detecção de som para evitar colisões com crianças e animais de estimação.
Tesla: inteligência artificial em massa
Elon Musk revelou o Tesla Bot em 2021 como um conceito de robô humanoide para tarefas repetitivas, mas a empresa não avançou para produção em grande escala. Entretanto, a mesma visão de “robôs para o cotidiano” continua viva em projetos mais recentes. Em 2024, a Tesla anunciou o desenvolvimento de um robô doméstico com foco em serviços de limpeza, jardinagem e monitoramento de segurança.
O diferencial da Tesla reside em sua capacidade de integrar hardware e software em um único ecossistema. O robô doméstico da empresa planeja usar a mesma arquitetura neural que alimenta o Autopilot dos veículos, incluindo sensores LiDAR, câmeras multiespectrais e um chip de IA de 48 núcleos projetado pela própria Tesla. Esses recursos permitem que o robô navegue em ambientes complexos, reconheça objetos e interaja com humanos em tempo real.
Além disso, a Tesla pretende monetizar sua plataforma de robótica por meio de assinaturas de software, permitindo atualizações contínuas e a implementação de novos serviços, como telepresença e integração com a Tesla Energy, que inclui sistemas de baterias domésticas e painéis solares.
Um ponto crítico para a Tesla é a percepção de segurança em um país como o Brasil, onde a violência urbana e a falta de regulamentação específica para robôs domésticos ainda são desafios. A empresa já está em negociação com órgãos reguladores para garantir que seus dispositivos cumpram padrões de segurança e privacidade.
Figure: humanoide para o cuidado em casa
Figure, uma startup de tecnologia sediada em Singapura, está se posicionando como a candidata mais promissora para lançar o primeiro robô humanoide de uso doméstico em massa. Em 2023, a empresa lançou o “Figure 1”, um protótipo que pode realizar até 25 tarefas domésticas, desde abrir portas e ajustar termostatos até cuidar de idosos e crianças.
O design do Figure incorpora uma estrutura leve de fibra de carbono, motores de torque de alta eficiência e um sistema de visão profundo que permite reconhecimento de expressões faciais e controle de voz. O robô também pode interagir com dispositivos domésticos inteligentes via Zigbee e Wi‑Fi, integrando-se facilmente a ecossistemas já existentes.
Para tornar o produto acessível, Figure planeja reduzir o custo de produção com a adoção de materiais impressos em 3D e uma arquitetura de software baseada em inteligência artificial de código aberto, permitindo que parceiros locais adaptem o robô a necessidades específicas.
A empresa tem uma estratégia de penetração no mercado latino‑americano, com parcerias em Brasil, México e Argentina para testar protótipos em ambientes de cuidado domiciliar. Essa abordagem, combinada com o apoio de investidores de venture capital, pode acelerar a produção em série e a distribuição.
Desafios técnicos e regulatórios
Embora cada empresa tenha pontos fortes, todos enfrentam barreiras técnicas e regulatórias significativas. A segurança física é a prioridade máxima, exigindo certificações de dispositivos elétricos e de segurança de robôs que, no Brasil, ainda estão em fase de consolidação.
Além disso, a questão da privacidade de dados é crítica. Robôs domésticos capturam imagens e áudio em tempo real, levantando preocupações sobre armazenamento e uso de informações pessoais. Empresas como a Tesla planejam usar criptografia de ponta a ponta e políticas de anonimização para atender às normas GDPR europeias e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) brasileira.
Em termos de energia, a autonomia dos robôs domésticos ainda é limitada. A Unitree investe em baterias de lítio de alta densidade, enquanto a Tesla pretende usar módulos de bateria de 48 Wh que se conectam ao sistema Powerwall, permitindo recarga rápida e menor impacto ambiental.
Impacto no Brasil e na América Latina
O Brasil possui 13,5 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, e o mercado de cuidados domiciliares está em expansão. De acordo com a Federação Brasileira de Indústrias de Robótica (FBIR), apenas 1,2 % das indústrias brasileiras usam robótica em suas operações, mas há uma tendência crescente de adoção em serviços de saúde e educação.
Além disso, o país possui uma cadeia de produção de componentes eletrônicos e motores de baixo custo, o que pode reduzir o preço final dos robôs domésticos. Entretanto, a infraestrutura de internet de alta velocidade ainda é desigual, sendo que apenas 60 % das residências brasileiras têm acesso à banda larga de 100 Mbps ou superior, condição necessária para robôs que dependem de processamento em nuvem.
Especialistas apontam que o sucesso de um robô doméstico no Brasil dependerá de um ecossistema de suporte, incluindo serviços de manutenção, capacitação de usuários e regulamentação clara sobre responsabilidade civil e segurança.
Perspectivas de especialistas
Dr. Ana Lúcia M. da Silva, professora de Engenharia de Sistemas da USP, afirma: “A entrada de robôs domésticos exigirá uma mudança cultural, mas o fator determinante será a confiabilidade e a personalização do serviço.” Já o CEO da Figure, David Lee, prevê que “o primeiro robô doméstico de mass‑market será um humanoide, pois a interação social e o cuidado são aspectos fundamentais para o mercado brasileiro.”
Por outro lado, o CEO da Unitree, Li Wei, destaca que a robustez de um quadrúpede pode ser a vantagem em ambientes domésticos com pets e crianças, “porque o robô pode se mover rapidamente sem precisar de uma superfície perfeita.”
Conclusão
A corrida por quem lançará o primeiro robô doméstico em massa está longe de ser concluída, mas três nomes já definiram as bases da competição. A Unitree traz experiência em mobilidade quadrúpede e uma abordagem de hardware acessível; a Tesla combina IA de ponta e integração com ecossistemas de automação; a Figure aposta na versatilidade de um humanoide e no suporte ao cuidado doméstico.
Para o Brasil, o momento é propício, mas requer um conjunto de condições: infraestrutura de internet robusta, regulamentação clara e investimento em educação tecnológica. Se essas barreiras forem superadas, o país pode se tornar um dos principais mercados para robôs domésticos na América Latina.
Em última análise, a primeira máquina que cruzará a porta de um lar brasileiro provavelmente será aquela que melhor equilibre preço, confiabilidade e capacidade de interação, seja ela quadrúpede, humanoide ou híbrida.
Fonte original
Google News — Robótica China (EN)








