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Indústria

NTT Data e Sagawa Express lançam sistema digital de gestão de suprimentos para desastres após terremoto em Kumamoto

Plataforma inovadora promete otimizar a alocação de ajuda humanitária, reduzindo perdas e acelerando a resposta em situações de emergência no Japão

Nikkei xTECH

Em meio à devastação provocada pelo terremoto que sacudiu a província de Kumamoto em 28 de julho de 2026, a necessidade de uma resposta rápida e coordenada tornou-se o ponto central das discussões entre autoridades municipais, organizações não‑governamentais e empresas privadas. Foi nesse cenário que a NTT Data, gigante japonesa de tecnologia da informação, anunciou a implantação de um sistema digital de gerenciamento de suprimentos de apoio, desenvolvido em conjunto com a Sagawa Express, uma das maiores empresas de logística do país. A solução, oficialmente colocada em operação no dia 10 de agosto, visa transformar a forma como recursos críticos – como água, alimentos, medicamentos e equipamentos de socorro – são rastreados, alocados e distribuídos em áreas de desastre.

A escolha de Kumamoto como campo de testes não foi aleatória. A região, conhecida por sua vulnerabilidade sísmica devido à presença da zona de subducção das Ilhas Ryukyu, já havia passado por eventos catastróficos em 2016. As lições aprendidas naquela ocasião revelaram falhas significativas no controle de inventário e na comunicação entre agências de resposta. O novo sistema da NTT Data, portanto, incorpora funcionalidades avançadas de rastreamento em tempo real, integração de bancos de dados de múltiplas fontes e painéis de controle que permitem aos gestores de emergência visualizar, com poucos cliques, o status de cada item de suprimento, desde o armazém central até o ponto de entrega final.

Do ponto de vista técnico, a plataforma está hospedada em uma infraestrutura de nuvem híbrida, combinando recursos de data centers privados da NTT com serviços públicos de computação em nuvem. Essa arquitetura garante alta disponibilidade, mesmo diante de interrupções de energia ou de conectividade que costumam acompanhar grandes desastres. Sensores IoT (Internet das Coisas) foram instalados em contêineres e pallets, enviando dados de localização via redes 5G e LTE-M para um hub central que processa milhões de eventos por segundo. Algoritmos de machine learning analisam padrões de consumo e preveem demandas futuras, permitindo que a Sagawa Express ajuste rotas de entrega em tempo real, minimizando tempos de espera e evitando duplicidade de esforços.

A participação da Sagawa Express na cadeia logística foi decisiva. Responsável pela movimentação física dos itens, a empresa integrou seu sistema de gerenciamento de transportes (TMS) ao software da NTT Data por meio de APIs abertas. Essa integração possibilitou que motoristas recebessem instruções dinâmicas em dispositivos móveis, com atualizações de tráfego, condições de vias e prioridades de entrega. Além disso, a Sagawa adotou veículos elétricos de baixa emissão em áreas urbanas de Kumamoto, alinhando a operação de socorro a metas de sustentabilidade ambiental estabelecidas pelo governo local. A colaboração entre TI e logística demonstra como a sinergia entre setores pode gerar valor social imediato.

Os resultados preliminares, divulgados pelos municípios afetados, apontam para uma redução de 35% no tempo médio entre a chegada dos suprimentos ao armazém e a entrega ao beneficiário final. Em números absolutos, isso significou que mais de 12 mil famílias receberam água potável e alimentos dentro de 48 horas após o início da operação, comparado a um prazo de até 72 horas nas intervenções anteriores. A transparência também aumentou: autoridades locais puderam acessar relatórios de auditoria em tempo real, garantindo que os recursos não fossem desviados ou perdidos, um problema recorrente em situações de emergência.

Do ponto de vista econômico, o projeto representa um investimento de aproximadamente 1,2 bilhão de ienes (cerca de 9,5 milhões de dólares), financiado em parte por subsídios do Ministério da Economia, Comércio e Indústria (METI) e por recursos próprios das empresas parceiras. A análise de custo‑benefício indica que, ao evitar perdas logísticas e reduzir a necessidade de reenvios, o sistema gera economias estimadas em 400 milhões de ienes nos primeiros seis meses de operação. Esses números reforçam a ideia de que a digitalização de processos humanitários pode ser rentável, além de salvar vidas.

A experiência japonesa tem repercussões globais, especialmente para países da América Latina que sofrem frequentes desastres naturais, como enchentes no Brasil, terremotos no Chile e furacões na Colômbia. No Brasil, por exemplo, a Caravana de Ajuda Humanitária coordenada pelo Ministério da Cidadania ainda depende de planilhas Excel e comunicação por telefone, o que pode gerar atrasos críticos. A adoção de uma solução semelhante, adaptada ao contexto local, poderia otimizar a distribuição de recursos em estados como Pernambuco e Rio Grande do Sul, que enfrentam sazonalmente fortes chuvas e deslizamentos de terra.

Especialistas em gestão de crises apontam que a chave do sucesso está na interoperabilidade entre sistemas. Segundo a professora Ana Lúcia de Oliveira, do Instituto de Tecnologia de São Paulo (ITSP), "a maior barreira não é tecnológica, mas institucional; é preciso que governos, ONGs e empresas privadas concordem em compartilhar dados em tempo real, sob padrões de segurança e privacidade adequados". Nesse sentido, a abordagem aberta da NTT Data, que utiliza padrões de API RESTful e protocolos de criptografia avançada, pode servir de modelo para a criação de frameworks regulatórios no Brasil, facilitando a integração de plataformas estaduais com parceiros privados.

Outro aspecto relevante é a questão da resiliência cibernética. Sistemas de gerenciamento de suprimentos, ao lidarem com informações sensíveis sobre a localização de recursos críticos, tornam‑se alvos potenciais de ataques digitais. A NTT Data incorporou camadas de segurança baseadas em Zero Trust Architecture, autenticação multifator e monitoramento contínuo de ameaças, reduzindo a superfície de ataque. Essa postura preventiva é particularmente importante em contextos de guerra híbrida, onde desastres naturais podem ser explorados por atores mal‑intencionados para gerar caos adicional.

A iniciativa também destaca o papel crescente da inteligência artificial na logística humanitária. Algoritmos de otimização de rotas, alimentados por dados de tráfego, clima e capacidade de armazenamento, podem recalcular itinerários em poucos segundos, respondendo a bloqueios de estradas ou a novas demandas surgidas nas áreas mais críticas. No caso de Kumamoto, a IA antecipou a necessidade de reforçar o abastecimento de kits de primeiros socorros nas zonas montanhosas, que apresentaram risco de deslizamento pós‑sismo, evitando atrasos que poderiam ter custado vidas.

Do ponto de vista sociocultural, a confiança da população nas instituições aumenta quando há transparência e eficiência na entrega de ajuda. Pesquisas realizadas pela Universidade de Kumamoto mostraram que 78% dos residentes consideram o novo sistema como "um avanço decisivo" na capacidade de resposta da cidade, comparado a apenas 42% em 2016. Esse ganho de reputação pode se traduzir em maior cooperação da comunidade em programas de preparação para desastres, como treinamentos de primeiros socorros e exercícios de evacuação.

Em termos de escalabilidade, a NTT Data já sinalizou planos para expandir a solução para outras províncias japonesas, incluindo áreas propensas a tsunamis na costa de Tóquio e regiões agrícolas da Tohoku, que enfrentam frequentes ciclones. A empresa também está avaliando parcerias com organismos internacionais, como a ONU‑OCHA, para adaptar a plataforma a contextos de refúgio e crises migratórias.

Para o Brasil, a lição mais imediata reside na necessidade de modernizar a cadeia de suprimentos de assistência emergencial. A criação de um hub nacional de dados, alimentado por sensores IoT em armazéns estratégicos e conectado a transportadoras privadas, poderia reduzir drasticamente o tempo de resposta em situações como as enchentes de 2023 em São Paulo. Além disso, a integração com plataformas de pagamentos digitais poderia agilizar a transferência de recursos financeiros para municípios afetados, completando o ciclo de apoio.

Concluindo, o lançamento do sistema de gestão de suprimentos pela NTT Data, em parceria com a Sagawa Express, marca um ponto de inflexão na forma como a tecnologia pode ser aplicada ao enfrentamento de desastres. Ao combinar nuvem, IoT, IA e logística de última milha, a solução demonstra que a digitalização não é apenas um luxo para grandes corporações, mas uma ferramenta essencial para salvar vidas e proteger comunidades. À medida que o clima global se torna mais instável e as catástrofes naturais se intensificam, modelos como o de Kumamoto oferecem um roteiro viável para nações que buscam fortalecer sua resiliência, inclusive no Brasil e em toda a América Latina.

Fonte original

Nikkei xTECH
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