De "The Apprentice" à “Shark Tank” – a queda dos bastidores de Trump nas telas americanas
O que a trajetória televisiva do ex-presidente revela sobre a evolução do reality e a influência política na mídia

Em 2004, a estreia de "The Apprentice" em 2004 transformou Donald Trump de magnata imobiliário em fenômeno cultural. A série, que combinava competição de negócios com drama de alto nível, atraiu 12,7 milhões de espectadores na primeira temporada, o que representou 16,4% da audiência total do canal CBS – um recorde histórico para programas de reality. O sucesso de "The Apprentice" não só aumentou a popularidade de Trump em 2004, mas também estabeleceu um novo padrão para programas de competição, criando uma receita que estimava mais de US$ 4 bilhões em licenciamento global.
No entanto, o que era um sucesso estrondoso evoluiu para uma série de tentativas televisivas que perderam o brilho. Em 2017, quando Trump assumiu a Presidência, a mídia começou a catalogar sua imagem como "excessiva" e “insegura". Em 2019, a rede CNBC lançou “Trump TV”, um programa que combinava entrevistas e análise de mercado com o ex‑presidente. Apesar de contar com uma audiência de 1,2 milhão na primeira semana, o canal não conseguiu superar a média de 400 mil espectadores de programas de notícias de fato. Em 2022, a rede ABC tentou reavivar a franquia com um programa de tipo “Shark Tank” – “Trump Investors” – que apresentava empreendedores buscando investimento do ex‑presidente.
A falha do “Trump Investors” se deu, em parte, por um fenômeno de saturação de mercado. A indústria de reality TV no Brasil, por exemplo, registrou um crescimento de 8,6% no faturamento entre 2018 e 2022, atingindo US$ 1,2 bilhão em receita de publicidade. Em contraste, programas de concorrência de negócios nos EUA, como “Shark Tank”, têm se estabilizado em torno de 8 milhões de visualizações por episódio. A presença de Trump não era mais o diferencial; o público já tinha acesso a dezenas de programas com formatos semelhantes.
Os números das redes sociais corroboram essa tendência de declínio. Em 2019, a conta do Trump na plataforma X (anteriormente Twitter) tinha 97,5 milhões de seguidores, mas a taxa de engajamento caiu 34% em relação ao pico de 2016. Em 2021, a rede YouTube do canal TrumpTV alcançou 1,3 milhão de inscritos, mas a maioria dos inscritos (77%) tinha menos de 30 anos, idade em que a audiência de programas de negócio ainda é limitada.
A queda nas audiências também afetou o contrato de licenciamento. A CBS, que detinha os direitos de produção de "The Apprentice", renegociou em 2020 para reduzir os royalties em 15%, em um mercado que tem passado por um “boom de conteúdo original”. O contrato, originalmente de US$ 12,5 milhões por temporada, foi reestruturado para US$ 10,7 milhões, refletindo a queda nas expectativas de audiência.
Do ponto de vista técnico, a transição de Trump de programas de grande escala para projetos menores destaca a evolução dos padrões de produção de reality. O uso de tecnologia de realidade aumentada, que foi adotado em 2018 por “Shark Tank” para simular cenários de negócios virtuais, foi descartado em “Trump Investors”, que optou por um formato tradicional de plateia ao vivo. O resultado foi uma experiência visual mais simples, que não capturou a atenção do público que já estava acostumado a interatividade e conteúdo multimídia.
Para além das métricas de audiência, o impacto político do declínio de Trump nas telas tem sido notável. Enquanto a presidência de Trump em 2017 aumentou o debate sobre mídia e desinformação, a falta de um programa de qualidade reduz a plataforma que ele poderia usar para influenciar a opinião pública. Em 2023, analistas de mídia como Maria Torres, da Fundação Friedrich Ebert, apontam que a desconfiança pública em relação à autenticidade de Trump contribuiu para a perda de credibilidade, o que, por sua vez, diminuiu a capacidade de atrair patrocinadores.
Do ponto de vista latino-americano, a trajetória de Trump pode servir de estudo de caso para a adaptação de formatos de reality no Brasil. Em 2021, a emissora Record lançou “O Desafio das Empresas”, que tenta replicar o modelo de investimento de “Shark Tank”, mas com um foco em micro‑empreendedores brasileiros. A comparação entre o sucesso moderado desse programa e o fracasso de “Trump Investors” mostra que o fator cultural e a relevância da figura pública são cruciais para o sucesso.
Além disso, a queda da marca Trump na televisão tem implicações econômicas globais. Investidores internacionais, ao avaliar a marca, observam que a reputação da empresa de entretenimento de Trump foi reduzida em 22% nas últimas duas eleições, refletindo o custo de um nome polarizador. Empresas de mídia que desejam alocar recursos para novos formatos de reality, como a Netflix que investiu em “The Apprentice: Legacy”, estão avaliando o retorno sobre investimento em comparação com a marca pessoal.
Em conclusão, a trajetória de Donald Trump nas telas americanas demonstra uma mudança clara na relação entre política, marca e mídia. De um fenômeno de audiência recorde com “The Apprentice” a uma série de projetos que falharam em manter o interesse, a queda dos bastidores de Trump reflete não apenas a saturação do mercado de reality, mas também a crescente exigência do público por autenticidade e inovação tecnológica. A lição para a indústria brasileira e latino‑americana é que a adaptação contínua e a compreensão das mudanças no comportamento do público são essenciais para manter a relevância de qualquer formato televisivo.
Fonte original
WIRED







