SoftBank demonstra migração incremental para 50G‑PON usando fibra óptica já instalada
Teste japonês prova que operadoras podem acelerar usuários seletivos para 50 Gbps sem substituir a infraestrutura de GPON e XGS‑PON existente

Em meio à crescente demanda por conexões de alta velocidade, sobretudo para aplicações como realidade aumentada, streaming 8K e serviços de nuvem corporativa, a SoftBank – um dos gigantes de telecomunicações do Japão – revelou um avanço técnico que pode transformar a forma como operadoras ao redor do mundo evoluem suas redes de acesso. Em um laboratório de demonstração, a empresa comprovou que é possível migrar gradualmente usuários específicos para uma tecnologia de 50 Gigabits‑per‑second (50G‑PON) usando a mesma fibra óptica já implantada para GPON (Gigabit‑Passive Optical Network) e XGS‑PON (10‑Gigabit‑Passive Optical Network). O experimento também incluiu transmissões de 100 Gbps, simulando as condições que o futuro 100G‑PON exigirá. Essa abordagem promete reduzir drasticamente os investimentos de capital (CAPEX) e o tempo de implantação, ao mesmo tempo em que garante a continuidade dos serviços existentes.
A estratégia da SoftBank parte de um princípio de “upgrade seletivo”. Em vez de substituir toda a malha de fibra – um processo que pode levar anos e custar bilhões de dólares – a operadora optou por habilitar módulos ópticos avançados nas OLTs (Optical Line Terminals) e ONTs (Optical Network Terminals) que suportam múltiplas camadas de protocolo. Assim, clientes empresariais ou residenciais que demandam maior largura de banda podem ser migrados para 50G‑PON sem interrupções para os demais usuários que continuam a operar em GPON (1 Gbps) ou XGS‑PON (10 Gbps). Esse modelo de coexistência multitecnologia já era teórico, mas a demonstração prática comprova sua viabilidade técnica e econômica.
Do ponto de vista técnico, a SoftBank utilizou um esquema de divisão de comprimento de onda (WDM) aprimorado, permitindo que diferentes velocidades compartilhem o mesmo cabo de fibra. Cada usuário selecionado recebeu um canal de comprimento de onda dedicado com capacidade de 50 Gbps, enquanto os demais permaneceram nos canais de 1 Gbps ou 10 Gbps. O controle de alocação foi realizado por meio de um controlador de rede SDN (Software‑Defined Networking), que ajusta dinamicamente a atribuição de recursos de acordo com a demanda. Essa flexibilidade é essencial para evitar o sobre‑provisionamento e maximizar a utilização da infraestrutura existente.
A prova de conceito também contemplou a transmissão de 100 Gbps, um passo crucial para o emergente padrão 100G‑PON, que ainda está em fase de padronização pelas organizações IEEE e ITU‑T. Ao gerar um fluxo de 100 Gbps em laboratório, a SoftBank avaliou parâmetros críticos como latência, jitter e taxa de erro de bit (BER). Os resultados indicaram que a fibra já instalada no Japão – predominantemente de modo monomodo – suporta esses níveis de taxa de dados sem necessidade de amplificadores ópticos adicionais, graças à baixa atenuação característica do cabo monomodo.
Economicamente, a migração incremental traz vantagens claras. Segundo dados da SoftBank divulgados no evento de demonstração, o custo estimado para habilitar 10 % da base de clientes com 50G‑PON, utilizando a abordagem de upgrade seletivo, é cerca de 30 % menor que o investimento necessário para uma substituição total da rede por fibra de nova geração. Essa diferença reflete tanto a economia em material (os cabos permanecem) quanto em mão‑de‑obra (reduz-se o número de cortes e soldas). Além disso, a possibilidade de oferecer pacotes de alta velocidade a clientes premium gera novas fontes de receita, ampliando a margem operacional das operadoras.
No cenário global, a iniciativa da SoftBank chega em um momento em que a competitividade das telecoms está cada vez mais ligada à capacidade de oferecer velocidades acima de 10 Gbps. Países como Coreia do Sul e Singapura já avançam para implementações piloto de 50G‑PON, mas a maioria das operadoras ainda está presa ao modelo de substituição completa. Ao demonstrar que a atualização pode ser feita de forma incremental, a SoftBank cria um precedente que pode ser adotado por outras grandes operadoras, inclusive na América Latina, onde a densidade de fibra ainda é limitada em muitas áreas urbanas.
Para o Brasil, o impacto pode ser particularmente relevante. A Associação Brasileira de Telecomunicações (Abratel) estima que, até 2027, cerca de 30 % das residências brasileiras ainda não terão acesso a fibra óptica. Mesmo nas regiões já cobertas, a maioria dos planos de banda larga está limitada a 300 Mbps ou 600 Mbps. Caso operadoras brasileiras adotem o modelo de migração incremental da SoftBank, elas poderiam oferecer planos de 1 Gbps ou 5 Gbps a clientes corporativos sem precisar aguardar a renovação total da rede. Essa agilidade poderia impulsionar a competitividade de setores como fintech, telemedicina e educação a distância, que dependem de conexões robustas.
Além das vantagens econômicas, a abordagem também tem implicações ambientais. A produção de novos cabos de fibra envolve o consumo de sílica de alta pureza, energia para processos de fundição e emissões de CO₂ associadas ao transporte e instalação. Ao prolongar a vida útil da infraestrutura existente, as operadoras contribuem para a redução da pegada de carbono da indústria de telecomunicações, alinhando-se aos compromissos de sustentabilidade que muitas empresas estão assumindo.
Do ponto de vista regulatório, a SoftBank precisará ainda garantir que a coexistência de múltiplas tecnologias não viole normas de espectro óptico estabelecidas pelos órgãos de telecomunicação japoneses. No Brasil, a Anatel tem um papel semelhante ao da MIC (Ministry of Internal Affairs) no Japão, e a aprovação de um modelo híbrido exigirá estudos de compatibilidade e possivelmente a revisão de normas técnicas. Contudo, a demonstração de que a fibra atual pode suportar 100 Gbps pode acelerar a revisão das normas, preparando o terreno para futuros leilões de espectro óptico focados em alta capacidade.
Especialistas apontam que a verdadeira barreira para a adoção massiva de 50G‑PON não está na tecnologia, mas nos equipamentos de terminal (ONTs) que ainda são caros para o consumidor final. O analista da IDC, Takashi Yamamoto, ressalta que "os custos dos módulos ópticos 50G‑PON ainda são significativamente superiores aos de 10G‑PON, mas a expectativa de queda de preço segue a Lei de Moore aplicada ao hardware óptico". Ele projeta que, dentro de três a cinco anos, os preços poderão cair cerca de 40 %, tornando a proposta mais atrativa para o mercado de massa.
Outro ponto a considerar é a demanda real por velocidades tão elevadas. Enquanto aplicações de realidade virtual e treinamento industrial podem exigir 50 Gbps ou mais, a maioria dos usuários domésticos ainda não consome toda a banda disponível em 10 Gbps. Contudo, a tendência de convergência de serviços – onde um único link de fibra alimenta múltiplas soluções (smart home, segurança, IA em dispositivos) – pode criar um efeito de “rede de consumo futuro”, em que a capacidade excedente será utilizada por serviços ainda em desenvolvimento.
Em termos de concorrência, a SoftBank ainda não revelou quais fornecedores de equipamentos (por exemplo, Huawei, Nokia, Cisco ou empresas japonesas como Fujitsu) participaram do teste. Essa informação será crucial para entender a cadeia de suprimentos e possíveis restrições de exportação que podem afetar a replicação da tecnologia fora do Japão. A recente tensão geopolítica envolvendo restrições a equipamentos de origem chinesa tem levado operadoras a buscar alternativas locais, o que pode impulsionar ainda mais o desenvolvimento de soluções 50G‑PON por fabricantes japoneses e sul‑coreanos.
Concluindo, o experimento da SoftBank demonstra que a evolução das redes de acesso pode seguir um caminho mais pragmático e menos disruptivo do que a substituição total de fibra. A migração incremental para 50G‑PON, com coexistência de GPON e XGS‑PON, abre portas para que operadoras em mercados emergentes – como o Brasil – acelerem a entrega de serviços ultra‑rápidos sem comprometer seu orçamento ou sua agenda de expansão. Se a indústria conseguir reduzir o custo dos equipamentos de terminal e alinhar as normas regulatórias, poderemos assistir nos próximos anos a uma nova fase de broadband, onde a velocidade deixa de ser um luxo e se torna um requisito básico para a economia digital.
A perspectiva para 2028 aponta para a consolidação do 100G‑PON como padrão de acesso, mas o caminho para chegar lá provavelmente será pavimentado por iniciativas como a da SoftBank, que provam que a infraestrutura já existente ainda tem muito a oferecer. O Brasil, com sua vasta extensão territorial e necessidade de melhorar a inclusão digital, tem uma oportunidade única de adotar esse modelo, reduzindo custos, acelerando a entrega de alta velocidade e contribuindo para um futuro mais conectado e sustentável.
Fonte original
Nikkei xTECH







